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O Mundial das máquinas

Termina hoje em João Pessoa a RoboCup, competição internacional que reúne "jogadores de futebol" de 45 países, programados por 4 mil engenheiros. Sem controles ou comandos, os androides driblam, defendem e atacam

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postado em 25/07/2014 13:37

Roberta Machado

Torcedores acompanham uma partida dos  
Torcedores acompanham uma partida dos "atletas" da liga de robôs médios: pela primeira vez a competição é realizada em um país da América do Sul

A Copa ainda não acabou. Ao menos para uma seleção muito especial de atletas, a competição mundial de futebol só termina hoje, na capital paraibana, João Pessoa. Trata-se da RoboCup, torneio voltado especialmente para jogadores robóticos. Este ano, o evento internacional foi trazido para o país do futebol, onde 4 mil engenheiros de 45 nações colocaram suas máquinas em campo. Durante cinco dias, fãs do esporte e da engenharia se uniram para torcer pelos atletas de metal, que, sobre pernas ou rodas, surpreenderam a plateia com dribles e jogadas boladas com base em pura inteligência artificial.

O trabalho de preparação dos robôs exige o desenvolvimento de sistemas independentes, capazes de fazer as máquinas se moverem por conta própria. Não há controles ou comandos, as decisões e jogadas são resultado da programação feita pelas equipes. “Ao longo do ano desenvolvemos a programação para que eles se comportem como goleiro, como atacante ou outra posição. Lógico que temos que dar manutenção, mas viemos meio que para assistir”, conta Rafael Guedes Lang, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) e da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP.

Lang coordena a equipe Warthog Robotics, que disputou a categoria pequena da RoboCup com outros quatro times do Brasil e 22 equipes estrangeiras. O time, que conta com alunos da computação, de engenharia mecânica, da elétrica e de vários outros cursos, já participou de edições anteriores da copa de robôs e é considerado um dos mais experientes entre os brasileiros. Nesta competição, no entanto, o grupo ficou para trás nas classificatórias. “Realmente, os robôs internacionais estão com projetos muito acima dos nossos, os jogos acabam ficando sem graça”, lamenta Rafael. A grande vencedora da categoria foi a equipe da Universidade Zhejiang, na China.

O RoboCup foi criado em 1997 com um objetivo ambicioso: desenvolver, até 2050, um time de futebol composto por robôs humanoides capazes de vencer a seleção ganhadora da Copa do Mundo da Fifa. Desde que a primeira edição do evento foi realizada, no Japão, é a primeira vez que o torneio acontece na América do Sul. “Muita gente aqui nem acompanha a Copa do Mundo. Para eles, a Copa do Mundo é isso daqui”, testemunha Danilo Perico, aluno de doutorado em engenharia elétrica do Centro Universitário da FEI e capitão do time de robôs humanoides da instituição, que conquistou um lugar entre os 16 melhores em sua estreia na categoria bípede com uma vitória contra uma equipe da Alemanha, que eliminou a seleção brasileira com um histórico 7 a 1 no Mundial da Fifa.

Os campos são um pouco menores do que uma quadra de futebol de salão. O tempo da partida também é reduzido. Mas as regras do jogo são as mesmas de um jogo convencional, com direito a goleiro, juiz e penalidades para as máquinas que saírem da linha. A copa conta, inclusive, com a ajuda de um árbitro robótico, que consiste em um sistema de câmeras que processam todas as imagens do jogo. Como num jogo tradicional, nem sempre as equipes concordam com a arbitragem. “O outro time derrubou o nosso robô e ele quebrou. Já estávamos sem um jogador e ficamos só com dois. O juiz nem deu falta”, reclama Perico, da FEI.

Categorias
A competição é dividida em cinco categorias principais, separadas por tamanho e modelo. A liga pequena tem jogadores de apenas 15 centímetros, enquanto a categoria média conta com robôs de 80 centímetros e os times humanoides dispõem de atletas do tamanho de crianças, adolescentes ou adultos, dependendo da subcategoria. Estes andam sobre duas pernas e só podem usar sensores que imitam o sistema humano, como olhos ou ouvidos eletrônicos. A competição ainda possui com a liga de simulação, focada unicamente no uso de programas de computador para o desenvolvimento de estratégias.

“A RoboCup começou com a liga de robôs com rodas, que é a mais antiga. As equipes trabalham nesses robôs há muitos anos. Isso faz com que o jogo seja bem mais interessante para quem está vendo. Tem horas em que é difícil de ver a troca de passe”, descreve Alexandre da Silva Simões, professor de engenharia de controle e automação Unesp de Sorocaba e um dos organizadores da RoboCup. Já os jogos com atletas bípedes do tamanho de adultos podem ser um pouco lentos e frequentemente exibem tombos e passes mal calculados. “A gente já conseguiu mandar um homem para a Lua, mas ainda não fez um robô correr de forma eficiente. Isso dá a dimensão da dificuldade dessa tarefa”, ressalta Simões.

Há ainda a liga padrão, que usa somente os robôs Nao, fabricados pela empresa francesa Aldebaran Robotics. A máquina é considerada uma das mais avançadas do mundo: tem 25 juntas, duas câmeras, um acelerômetro e sensores que podem medir a distância dos objetos. O desafio dos participantes humanos é programar os robozinhos para agir como um jogador de futebol profissional. “A gente testa na simulação antes, mas é um pouco diferente da vida real”, compara Rafael Cortes, estudante de mestrado de engenharia elétrica na Universidade de Brasília (UnB). A categoria foi vencida pela Universidade de Nova Gales do Sul, que ganhou de 5 a 1 contra o time da Leipzig University of Applied Sciences, da Alemanha.

Foi a primeira vez que a instituição de Brasília participou do evento internacional e o jogador de programação brasiliense teve que competir em times mistos, formados por representantes de vários grupos. Devido à dificuldade de se obter o robô Nao, a equipe brasiliense UnBeatables contou com apenas três semanas de trabalho com a máquina antes de mandá-la para campo. Os alunos tiveram que virar noites trabalhando e estender o treinamento até no avião, a caminho do jogo, para que o robô conseguisse identificar a bola e chutar corretamente. O esforço valeu a pena: a equipe brasiliense ficou em primeiro lugar na subcategoria drop-in only.


Outras habilidades
A RoboCup não é feita somente de futebol. O evento também serve de palco para competições que testam outras habilidades dos robôs. A categoria Home coloca as máquinas para agir em ambientes domésticos, enquanto a Rescue testa o desempenho de máquinas projetadas para auxiliar ou substituir humanos em situações arriscadas de resgate.

Japão: olimpíadas de robôs em 2020
O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, revelou que o país quer aproveitar as olimpíadas em Tóquio, em 2020, para criar a primeira competição do tipo voltada especialmente para atletas robóticos. Ao visitar uma fábrica de robôs, Abe afirmou que o evento seria uma boa oportunidade para mostrar ao mundo os últimos avanços tecnológicos do país. Ele assinalou que pretende criar uma equipe especialmente dedicada a desenvolver uma “revolução robótica”. O objetivo do premiê é elevar o valor da indústria japonesa de robôs a R$ 52 bilhões. “Queremos fazer dos robôs um grande pilar da nossa estratégia de crescimento econômico”, ressaltou Shinjo Abe a uma agência de notícias. O Japão já usa robôs em atendimentos de lojas, em hospitais e como assistentes de idosos.
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