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CIÊNCIA

Bombardeio de asteroides deu novo formato à Terra

Modelo computacional reproduz como, há 4,5 bilhões de anos, o planeta, sob condições meteorológicas extremas, ganhou nova superfície. A mudança propiciou o desenvolvimento da vida

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postado em 31/07/2014 11:12

Isabela de Oliveira /

Concepção artística de como teria ocorrido o  
Concepção artística de como teria ocorrido o "Cataque" de asteroides na infância da Terra, de acordo com o estudo publicado na revista Nature

Bombardeios constantes de asteroides, explosões vulcânicas e temperaturas tão elevadas que as rochas se derretiam e formavam extensos oceanos ferventes. Não é por acaso que, quando esses fenômenos se juntaram na Terra, formaram um período que foi batizado em homenagem a Hades, o comandante do inferno, segundo a mitologia grega. O cenário apocalíptico da Era Hadeana se deu há 4,5 bilhões de anos. Um estudo publicado na edição de hoje da revista especializada Nature descreve como essas condições extremas moldaram a superfície terrestre, um processo cheio de lacunas que ainda intriga os cientistas.

 “O período hadeano da Terra corresponde aos primeiros 500 milhões de anos de evolução do nosso planeta, ou seja, cerca de 10% da história. Apesar da extensão temporal limitada, esse é o momento em que foram criadas as condições para a formação e o desenvolvimento da vida. O hadeano é, portanto, de suma importância para entender o nosso planeta atual”, esclarece Simone Marchi, pesquisadora do Southwest Research Institute, nos Estados Unidos, e principal autora do estudo.

Os cientistas sabem que a Terra e a Lua sofreram, juntas, seguidos bombardeios de asteroides. Entretanto, poucas pistas sobre esse evento resistiram às intempéries terrestres. No satélite, por outro lado, os indícios estão praticamente intactos. “A Terra é um planeta muito ativo geologicamente. Como resultado, rochas antigas foram destruídas nos processos geológicos. A Lua, ao contrário, é um mundo mais silencioso, ainda conserva as propriedades geoquímicas de suas rochas e crateras”, compara a autora.

Sabendo disso, Marchi foi procurar respostas no território lunar. A equipe coordenada por ela desenvolveu um modelo computacional que calibra dados da superfície da Lua com informações geoquímicas de rochas terrestres. Uma abordagem estatística e um conjunto de informações sobre a crosta da Terra permitiram que os pesquisadores calculassem o fluxo dos bombardeamentos. Uma combinação inédita, afirma autora, e capaz de revelar como surgiu a capa terrestre.

O novo modelo sugere que os grandes impactos fizeram com que a crosta da Terra se tornasse amplamente reprocessada. A conclusão oferece respostas para questões importantes da estrutura terrestre, como a ausência de rochas que remontem à formação do planeta e a distribuição etária dos zircões antigos — minerais do período hadeano que sobreviveram à ação do tempo. Rafael Sfair, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Guaratinguetá, explica que a pesquisa de Marchi quantifica melhor os impactos que atingiram a Terra em sua infância.

“Eles mostram que, durante os primeiros estágios de formação da crosta terrestre, houve tantos impactos que é impossível que alguma região do planeta tenha escapado ilesa. Não existiu nenhuma área inalterada”, pontua o docente do Departamento de Matemática da Unesp e não participante do estudo. A autora observa também que o registro dos impactos pode explicar muito sobre as condições de habitabilidade dos tempos de Hades na Terra.

“Nesse momento da história, o planeta pode ter sofrido vários episódios de esterilização global — ou seja, todos os organismos existentes foram destruídos devido às colisões com asteroides maiores que 500 quilômetros de diâmetro”, sugere Marchi. Sfair concorda. Para ele, os corpos celestes chegaram ao Planeta Azul com uma intensidade tão grande que as condições de vida possivelmente se tornaram nulas. Tudo indica, portanto, que as circunstâncias favoráveis à vida surgiram muito depois.

“Provavelmente, a vida começou após os impactos porque esses bombardeios foram muito energéticos e atingiram todo o planeta. As camadas superficiais da crosta eram derretidas e depositadas em crateras enormes. Não acredito que a vida tenha chegado aqui por esse material caído. Entretanto, os impactos não aconteceram somente nessa época. Então, pode até ser que tenha chegado vida à Terra dessa forma, mas é improvável que isso tenha acontecido no período hadeano”, defende o especialista.


Palavra de especialista

Impactos menores
Hoje em dia, não temos um bombardeio desses porque o Sol e os planetas já agregaram a massa ao seu redor. Mas, ano passado, por exemplo, um meteorito caiu na Rússia, e os pesquisadores descobriram, inclusive, que ele passou sobre o Brasil, pelo estado de Goiás, um dia antes da colisão em solo russo. Esse era pequeno, mas, há aproximadamente 50 mil anos, caiu um outro com cerca de 50 metros no Arizona (EUA) que deu origem à cratera de Barringer, também conhecida como a Cratera do Meteoro, com pouco mais de um quilômetro de diâmetro e 200 metros de profundidade. Os cientistas acreditam que a velocidade de impacto foi por volta de 40 mil km/h, gerando uma energia equivalente a uma bomba de hidrogênio. Se ele caísse na Praça da Sé, em São Paulo, chegaria com tanto calor e o impacto seria tão grande que a cidade se extinguiria.
Marcos Rincon Voelzke professor dos Programas de Mestrado e Doutorado em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo
Lua parece com limão


A força da maré da Terra faz com que o satélite tenha um formato mais achatado, segundo especialistas 
A força da maré da Terra faz com que o satélite tenha um formato mais achatado, segundo especialistas

Ao contrário do que se possa imaginar, a Lua não é um corpo perfeitamente esférico. Na realidade, o formato do astro é mais parecido com o de um limão do que com o de uma bola de futebol. Pesquisadores da Universidade da Califórnia (UC), nos Estados Unidos, parecem ter descoberto os processos que esculpiram a silhueta lunar. Segundo eles, a irregularidade é fruto dos mesmos efeitos que movem as marés da Terra.

Os resultados obtidos pela equipe liderada por Ian Garrick-Bethell, professor assistente de ciências planetárias da UC, foram publicados hoje na Nature. Ele diz que a forma da Lua é um mistério estudado há 200 anos. “É um enigma surpreendentemente difícil de resolver. No entanto, é importante investigá-lo porque a compreensão da origem da forma da Lua vai nos contar sobre a evolução térmica e orbital das fases iniciais do satélite e também da própria Terra”, explica o autor.

Garrick-Bethell diz que um fenômeno chamado força de maré esculpiu a Lua após seu nascimento, há mais ou menos 4 bilhões de anos. Esse efeito pode ser comparado ao de um cabo de guerra puxado tanto pelo nosso planeta quanto por seu satélite. Na Terra, ele aparece movimentando as águas da superfície. Na Lua, modifica a topografia da região. Uma mudança visível é uma protuberância, parecida com um calombo, que emergiu na lateral do astro.

Com informações do solo do satélite, o pesquisador criou um modelo combinando todas as teorias que tentam explicar como foi desenhada a forma lunar. A equipe encontrou, basicamente, dois fenômenos que podem ter influenciado o processo. Eles propõem que a principal causa da forma achatada foram os “repuxes” da força de maré exercida pela Terra. Nesse período, a camada superficial da Lua era fraca demais para resistir à atração pelo planeta. O solo acabou cedendo, como se fosse um elástico, gerando um alongamento nas laterais.

A mecânica seguinte sugere que o calombo lunar foi formado posteriormente, quando o Planeta Azul tentou trazer para mais perto o satélite que já começava a se afastar. O distanciamento não parou: cada ano, a Lua se distancia 2cm da Terra. O planeta, entretanto, parece não querer abrir mão de seu satélite. “A Terra, definitivamente, ainda puxa a Lua e a deforma com suas marés, mas o efeito é muito pequeno. Essas forças estão ficando cada vez mais fracas. Explicando de uma maneira simples, a Lua está se distanciando, e sua órbita está ficando cada vez maior”, conta o autor.

De acordo com Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional, esse efeito é presente entre todos corpos que se relacionam gravitacionalmente entre si, não só na Terra. “Esse fenômeno, além de deformação, faz com que os corpos se afastem um dos outros. Acontece o seguinte: a força de maré dissipa energia porque, ao deformar o corpo, cria atrito interno e gera calor. Esse calor se dissipa, e isso significa que está saindo energia do sistema. Essa perda é compensada com a mudança na energia orbital, fazendo com que um corpo se afaste do outro. E é por isso que a Lua, além de se afastar, também está sofrendo algumas mudanças em seu eixo.”
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