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Parasita da leishmaniose deixa mosquito mais forte

Cientistas do Brasil e do Reino Unido descobrem que a leishmania faz com que o inseto reaja melhor à ação de micro-organismos ameaçadores, como bactérias. O efeito pode potencializar a disseminação da doença

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postado em 06/08/2014 12:59 / atualizado em 06/08/2014 13:01

Vilhena Soares

O mosquito Lutzomyia longipalpis, uma das espécies do inseto flebotomíneo, é um dos principais transmissores da leishmaniose visceral e tem sido alvo de várias pesquisas que buscam combater a doença. Uma das estratégias estudadas pelos pesquisadores é atacar a própria leishmania — o protozoário causador da enfermidade passado aos humanos pelo inseto. Durante muito tempo, ele foi considerado um vilão para o mosquito. Mas um novo estudo feito em parceria com pesquisadores do Reino Unido e do Brasil mostra que essa tática pode ser ineficaz. Os cientistas realizaram um experimento que teve efeito contrário: ao ser contaminado pelo parasita, o animal se tornou ainda mais forte.
 

No trabalho, os cientistas dividiram uma comunidade de Lutzomyia longipalpis em dois grupos. O primeiro foi alimentado com sangue infectado pela Leishmania mexicana. Algum tempo depois, os mosquitos receberam uma solução contendo a bactéria Serratia marcescens, principal micro-organismo causador de morte desses insetos. O segundo grupo recebeu apenas a solução com a bactéria.

Comparando os dados, os cientistas verificaram que, diante do micro-organismo letal, os insetos infectados pela leishmania tiveram uma taxa de sobrevivência cinco vezes maior: 56% contra apenas 11% no grupo sem a bactéria. “Antes, pensava-se que a leishmania poderia ser prejudicial aos insetos, mas, agora, vemos que ela serve como um protetor. Torna o mosquito mais forte frente a uma bactéria”, destaca Fernando Genta, pesquisador do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos do Instituto Oswaldo Cruz e um dos autores do artigo.

 Genta explica que os protozoários funcionam como um probiótico, por se instalarem dentro do estômago dos insetos. “Eles preenchem um espaço que não pode ser ocupado por outras substâncias e geram efeito benéfico à flora intestinal, contribuindo para um melhor funcionamento do organismo do mosquito”, explica. Antes, acreditava-se que o parasita comprometia a alimentação da fêmea do inseto e reduzia a quantidade de ovos gerados por ela, prejudicando a disseminação da doença. “Com esses novos dados, vemos que essa teoria inicial não está correta”, destaca o pesquisador.

Para Marcelo Mendonça, infectologista do laboratório Exame, a importância do estudo do Instituto Oswaldo Cruz está no fato de descrever que a leishmania exerce um efeito imunoestimulante ao mosquito parasitado. “Ou seja, mosquitos infectados pelo protozoário morrerão menos de infecção bacteriana quando comparados aos não infectados”, destaca o especialista que não participou do estudo. Mendonça observa ainda que a adoção dessa prática pode facilitar a propagação do mosquito causador da leishmaniose.

Estratégia futura

No experimento, os cientistas também notaram que os insetos infectados primeiro com as bactérias, ao serem expostos ao parasita da leishmaniose, não foram contaminados, uma informação que pode ser valiosa para estratégias futuras de combate à doença. “A infecção inicial pelas bactérias poderia proteger os animais de outro patógeno, nesse caso, a leishmania. Essa estratégia tem sido utilizada para outras doenças, como a de Chagas, mas isso seria algo a ser desenvolvido a longo prazo”, explica Genta.

Vítor Márcio Ribeiro, professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), aponta uma outra vantagem da intervenção. Ela pode tornar desnecessário o sacrifício de animais que têm a doença. “Em vez da morte de cachorros, seria eliminada a capacidade dos mosquitos de ter o vírus, evitando, assim, a evolução da doença.” A leishmaniose é transmitida tanto para o animal quanto para o homem por meio da picada do flebotomíneo.

O especialista também acredita que, futuramente, será possível controlar o contágio da enfermidade combatendo o parasita com técnicas voltadas à forma que os insetos reagem a substâncias específicas. “Temos trabalhos focados na análise do genoma desse mosquito que podem apontar como eles respondem a determinados elementos químicos e que serão de grande ajuda na elaboração de produtos de combate à doença”, exemplifica.

 Além dos pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/ Fiocruz), participaram do estudo cientistas da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

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