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Vida em comunidade suavizou feição humana

Estudo norte-americano sugere que a transformação dos traços faciais ao longo da evolução se deve à redução dos níveis de testosterona, estimulada, por sua vez, pela formação de grupos sociais

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postado em 08/08/2014 12:35 / atualizado em 08/08/2014 12:37

Isabela de Oliveira /

Os primeiros indícios de homens modernos datam de, aproximadamente, 200 mil anos atrás, na África. Depois disso, o Homo sapiens levou 150 milênios para perceber que a sobrevivência não era uma questão de força, mas de jeito. Conviver de forma harmônica em grupos era uma estratégia mais inteligente para enfrentar os desafios da natureza, e a substituição da agressividade pela tolerância social permitiu diversos avanços, como o surgimento das sociedades complexas e dos pensamentos abstratos. De acordo com um novo estudo das universidades de Duke e de Utah, nos Estados Unidos, todo esse processo só foi possível graças à redução de um ingrediente na composição humana: a testosterona. Segundo os autores da pesquisa, a sociabilidade aumentou à medida que os níveis do hormônio no organismo diminuíram. E as evidências do processo, dizem os cientistas, estão na cara: após a revolução cultural, os traços faciais de nossos antepassados tornaram-se cada vez mais suaves.

Registros arqueológicos demonstram que a evolução cultural e social só ocorreu entre 80 mil e 30 mil anos atrás, quando novas tecnologias, ferramentas e artefatos confeccionados com couro, ossos e chifres começaram a despontar. Esse período de rápida inovação tecnológica é contemporâneo à mais antiga evidência de comportamento simbólico e pensamento abstrato, que foi registrado na forma de processamento de pigmentos, adornos pessoais e instrumentos musicais.

Juntos, esses indícios sinalizam o início do que os pesquisadores chamam de “modernidade comportamental”. A hipótese levantada por Robert Cieri, principal autor do estudo, é que esse evento foi facilitado pela mudança da conduta humana, que, com o tempo, ficou menos agressiva e mais tolerante. Ele explica que a alteração no temperamento pode ser aferida a partir de mudanças na estrutura facial geradas pela redução de hormônios masculinos. Isto é, menos agressividade é consequência de menos testosterona, que pode ser medida nas dimensões ósseas do crânio de um indivíduo.

Para chegar a essa conclusão, o pesquisador e colegas compararam cerca de 1,4 mil crânios humanos antigos e modernos (veja infográfico) cujas diferenças nas medidas eram evidentes. Por exemplo, os caçadores-coletores ainda possuíam testas maiores e projetadas para frente, maxilares mais marcados e rostos mais largos. Os mais modernos, por outro lado, têm o rosto mais arredondado. Cieri percebeu que essa mudança ocorreu na mesma época em que o Homo sapiens adotou a agricultura e os pensamentos simbólicos, fatores que fizeram dos humanos animais menos ariscos e mais tolerantes.

Tanto a suavização da face quanto do comportamento indicam dois cenários: a diminuição de testosterona ou menor capacidade dos receptores de hormônios masculinos. Cieri defende sua teoria afirmando que os neurotransmissores e hormônios que mediam a agressividade, a dominância social e outros comportamentos tendem a ter propriedades morfogênicas e osteogênicas, observadas especialmente no crescimento e desenvolvimento craniofacial. “A testosterona foi igualmente observada como um elemento que restringe algumas formas de cognição social e sociabilidade, tanto através de efeitos sobre o desenvolvimento pré-natal, na organização do cérebro, quanto na inibição de empatia entre adultos”, explica o autor. Ele cita, ainda, que essa relação não é observada apenas entre humanos, mas também em outros animais, como raposas.

Dificuldades
Apesar das evidências, Ricardo Meirelles, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pondera que não é possível estabelecer uma relação direta entre mudança anatômica e alteração hormonal porque a ciência ainda esbarra na limitação de saber, exatamente, quais eram os níveis de testosterona das pessoas daquele tempo.

“Mas raciocinando, nos períodos mais primitivos, os indivíduos precisavam de agressividade maior, até porque deviam caçar e se embrenhar nas matas atrás de animais. Era preciso ter muita coragem, e níveis mais altos de testosterona podem ter tornado isso mais fácil. Além disso, as atividades exigiam musculatura mais forte. A testosterona é um hormônio anabolizante que aumenta a massa muscular, e, talvez, os volumes maiores de testosterona possam ter propiciado isso”, considera o especialista, que não integrou a equipe de pesquisa.

Francisca Alves-Cardoso, pesquisadora do Centro Rede Investigação Antropologia, em Lisboa, diz que os dados utilizados por Cieri sempre estiveram presentes na discussão da história evolutiva humana e são referência em muitos outros modelos de interpretação do comportamento e da história evolutiva da humanidade. “O que os autores permitiram é a utilização em um novo sistema interpretativo, com enfoque num conceito que considero ‘humanizante’”, ilustra.

Outras explicações
Alves-Cardoso sublinha que as explicações para o surgimento das diferenças surgiram são variadas. “Basta pensar nas consequências que as inovações culturais trouxeram em termos de acesso a comida. As exigências no processamento de alimentos crus são completamente diferentes quando comparados a alimentos cozidos, que só foram possíveis com o advento do fogo. Na história evolutiva humana, as diferenças alimentares justificaram muitas das adaptações em termos do sistema musculoesquelético, assim como adaptações ao nível do crânio e dentição”, esclarece a pesquisadora portuguesa.

Ela ressalta que convém sempre ter em mente que, associadas a essas alterações, existem outras de caráter comportamental. “Por exemplo, a fabricação de armas permitiu o acesso à caça de animais de grande porte. Isso acarreta perigo para um indivíduo, mas não tanto para um grupo, e assim temos um reforço da cooperação entre pessoas, o que certamente reforça laços sociais e consolida a vivência em sociedade. Em termos evolutivos, esse seria um comportamento favorecido, e, com ele, viria a possibilidade da reformulação do comportamento social”, resume.



Experimento russo
Há mais de 50 anos, cientistas da Academia Russa de Ciências, em Novosibirsk, iniciaram um estudo no qual separam raposas mansas das ariscas. Meio século de experimentos revelou que as mais tolerantes ao contato humano apresentam vocalizações juvenis na vida adulta e conseguem interpretar sinais e gestos dos pesquisadores, com quem gostam de brincar. Esses traços não são resultado de cruzamentos seletivos, mas da seleção de um único traço temperamental, a mansidão. Ao contrário das dóceis, as raposas mais agressivas apresentam maiores taxas de hormônios esteroides (corticosteroides) e menores valores de serotonina. Os pesquisadores também encontraram uma relação da redução da agressividade com a feminização, inclusive entre machos. Após 40 gerações, a diferença de tamanho entre machos e fêmeas diminuiu. Os animais apresentaram, ainda, despigmentação de coloração e esqueletos craniofaciais menores e suavizados.



Palavra de especialista

Conexão de eventos

“O fato descrito nesse artigo é conhecido. A novidade aqui é a explicação que eles oferecem para o fenômeno. Na verdade, a sacada do paper foi conectar dois eventos clássicos da evolução humana — gracilização (suavização) craniana e comportamento complexo — por meio de uma explicação bastante original: a necessidade de conduta mais tolerante para viver em maiores concentrações de demográficas. Achei brilhante. Essa alteração anatômica pode estar ligada à queda de testosterona, mas também pode ter relação com a dieta e, principalmente, com mudanças nas cargas mecânicas que os ossos recebem. A seleção natural agiu favorecendo esse comportamento, e a morfologia mudou por ‘tabela’. De qualquer forma, não é necessário postular um cenário em que os menos sociáveis morriam. Basta que os mais sociáveis tivessem proporcionalmente mais descendentes, e isso já é suficiente para a seleção ser efetiva.”

André Strauss,
pesquisador e doutorando do InstitutoMax Planck de Antropologia Evolutiva
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