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Mamar evita distúrbios bucais

Ao sugar o leite materno, o recém-nascido estimula a musculatura que permitirá a mastigação, a fala e a respiração corretas. O ato também facilita e fortalece os dentes

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postado em 11/08/2014 12:49

Carolina Cotta /d


Luciana com a filha:  
Luciana com a filha: "Existe muito tabu, uma pressão muito grande"


Belo Horizonte — A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta: o leite materno é um alimento completo e deve ser exclusivo durante os primeiros seis meses de vida. O reforço do vínculo entre mãe e filho, a proteção contra infecções e a prevenção da mortalidade infantil são benefícios conhecidos do aleitamento. Mas nem todos sabem que ele traz ganhos importantes também para a saúde bucal. Quando mama, o bebê desenvolve a capacidade de mastigar, deglutir, falar e respirar. Além disso, o ato ajuda a posicionar os dentes, prevenindo desarmonia entre as arcadas dentárias e distúrbios da fala.

Segundo Sylvia Lavinia Martini Ferreira, vice-presidente da Associação Paulista de Odontopediatria, sugar o leite exige da criança um enorme esforço muscular. Ela ajusta os lábios ao seio da mãe e mantém a respiração pelo nariz, contribuindo para o adequado crescimento dos maxilares, com espaço suficiente para a erupção dos dentes. Ao avançar e retrair a mandíbula, o bebê exercita todo o sistema muscular, preparando a boca para a função mastigatória e respiratória. “Muitos odontopediatras consideram o aleitamento materno o primeiro aparelho ortodôntico”, explica.

Isso porque o ato estimula, direta ou indiretamente, o desenvolvimento da boca, evitando maloclusões e contribuindo para o equilíbrio da postura do bebê. Na ordenha do leite, ele trabalha a musculatura, fazendo com que os dentes cresçam. “O desenvolvimento craniofacial é estimulado exatamente por esse esforço. Fora isso, o aleitamento materno consegue estimular uma respiração correta, que, por sua vez, ajuda no crescimento ósseo, diferentemente do que ocorre com os que respiram pela boca e pelo nariz. Quando mama, o bebê aprende a alternar mamada e respiração”, explica.

Sugar o leite da mãe satisfaz ainda o reflexo de sucção no recém-nascido. Assim, ele fica menos propenso a adquirir hábitos orais nocivos. “De acordo com estudos científicos, crianças que mamaram menos de seis meses têm sete vezes mais chances de chupar dedo e chupeta, além de morder objetos”, afirma Sylvia. Esse risco sobe para quase 10 em meninos e meninas que tomaram mamadeira por mais de um ano, quando comparados àqueles que nunca utilizaram essa forma de aleitamento.

Também odontopediatra, Luciana Quintão, 37 anos, está amamentando Beatriz, de 2 meses. Quando teve o primeiro filho, uma enfermeira, ainda no hospital, alertou que ela teria problemas por não ter o bico do seio muito definido. Mas nada disso aconteceu. Enquanto Beatriz mama, Luciana tenta observar se ocorre a vedação entre a boca e o seio, pois esse selamento é essencial. Esse movimento fisiológico não se reproduz com o uso de mamadeiras. “Fora a troca de carinho, cheiro, olhar. A criança reconhece a mãe, mas também não acho que quem não mama no peito não tem esse vínculo”, defende.

Luciana defende que as limitações de cada mãe também sejam levadas em conta. “Tenho uma amiga com depressão que não está dando conta. As pessoas têm um limite físico e emocional. É preciso acordar, colocar a criança no peito, esperar. Não é todo mundo que consegue. Eu vou tentar que minha filha se alimente exclusivamente de leite materno até os 6 meses, mas, se perceber que ela está com fome ou sem ganhar peso, farei a complementação. Existe muito tabu na amamentação, uma pressão muito grande e muitas mulheres têm medo de um julgamento. Mas a mãe é uma pessoa com limites, antes de tudo”, defende.

Higienização
Os minerais presentes no leite materno ajudam na formação do esmalte dos dentes, o que tem início ainda na vida intrauterina. E a contribuição do leite materno chega até os dentes permanentes. “Ele tem a composição de cálcio e fosfato adequada. Estudos mostraram que crianças de uma população desnutrida da América Latina que foram aleitadas por mais de quatro meses tiveram menos defeitos nos esmaltes que aquelas que não tiveram amamentação materna”, alerta.

O surgimento de cáries também é mais comum nos pequenos que tomam mamadeira. “Normalmente, as outras opções de leite são oferecidas ao bebê com adição de açúcar, tornando-o uma substância que favorece o surgimento dessa doença”, explica Luciana. Mas, para garantir a saúde bucal da criança, as mães também precisam ser orientadas a higienizar os dentes dos filhos e a fornecer a eles uma alimentação saudável. Segundo Sylvia Ferreira, dentes de leite saudáveis são fundamentais para o desenvolvimento satisfatório da mastigação e da fala. “Boa saúde na infância evita sofrimentos desnecessários causados pela dor, pelo desconforto e por longos tratamentos”, argumenta.
Visão e cérebro fortalecidos



Além de anticorpos, fatores imunomoduladores e anti-inflamatórios exclusivos, que não podem ser reproduzidos, o leite materno é fonte do ácido docosahexaenoico (DHA), um lipídio da série Ômega-3 que promove o desenvolvimento cognitivo e visual na infância. Esse DHA é frequentemente apontado como responsável pela relação causal entre o aleitamento e o quociente de inteligência (QI) mais alto, mas a presença dele varia conforme a dieta adotada pela mãe.

O DHA representa cerca de 97% do Ômega-3 localizado no cérebro e 93% do no olho. Por mais de uma década, cientistas têm demonstrado os benefícios desse lipídio durante a gestação e a amamentação, ressaltando a importância de fortalecer a suplementação dele partir do último trimestre de gravidez, quando se dá um crescimento importante do bebê, até os cinco primeiros anos de vida. Segundo o pediatra e nutrólogo Mário Cícero Falcão, para o bebê ter acesso à quantidade ideal desse nutriente, a mãe deve ingerir alimentos ricos em DHA na gravidez e na lactação.

O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) explica que, durante a gravidez, o DHA evita a prematuridade e o baixo peso ao nascer. Em estudo feito na Universidade de Kansas (EUA), mulheres que receberam suplementação tiveram gestação mais longa, bebês maiores e mais pesados. Também foi observada menor incidência de baixo peso e parto prematuro em comparação com o grupo que não recebeu o suplemento. %u201CIsso é especialmente importante porque a prematuridade é a principal causa de mortalidade neonatal e morbidade neurológica%u201D, diz.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo diário de 200mg a 300mg de Ômega-3 do tipo DHA por dia durante a gravidez e a lactação e para as crianças com até 5 anos, quando o cérebro atinge 85% do tamanho final. %u201CÉ nessa fase que a alimentação, os estímulos e o carinho construirão as bases para um desempenho neurológico saudável e que se refletirá por toda a vida,%u201D explica Falcão, que defende ainda que mais fórmulas infantis, prescritas por médicos e nutricionistas quando a mãe não consegue amamentar, tenham, na composição, o DHA em quantidades recomendadas por entidades reconhecidas internacionalmente.

%u201CEmbora não possam substituir o leite materno em suas propriedades imunológicas, elas têm os nutrientes corretos para a nutrição do bebê. Já o leite de vaca é contraindicado por não ter características nutricionais adequadas para o desenvolvimento infantil,%u201D complementa o médico. (CC)
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