Brasília dos idiomas Exóticos

Enquanto a maioria das pessoas opta pelo estudo de línguas tradicionais- como inglês, espanhol ou francês -, algumas se dedicam a desvendar os mistérios do grego, do catalão, do romani e do latim

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postado em 17/08/2014 14:13

Mariana Laboissière

O pastor Alex Barboza começou a estudar grego por causa do curso de teologia; hoje, o idioma virou profissão (Minervino Junior/CB/D.A Press) 
O pastor Alex Barboza começou a estudar grego por causa do curso de teologia; hoje, o idioma virou profissão


A escolha de um segundo idioma costuma, na maioria das vezes, ser direcionada ao inglês ou ao espanhol — línguas maciçamente difundidas no mundo. Mas alguns moradores do Distrito Federal fogem do lugar-comum ao optar por grafias e por fonemas menos usuais, como é o caso do grego, do catalão, do latim e até de línguas restritas a alguns grupos, como os indígenas e os ciganos. Embora Brasília seja sede de embaixadas de várias nações, nem todos os idiomas são ensinados na capital do país. Alguns sofrem com a baixa demanda de interessados, o que dificulta a formação de turmas. No UnB Idiomas, programa de extensão da universidade, por exemplo, há uma série de opções. Pelo menos nove cursos ofertados são de línguas exóticas, como o turco, o mandarim, o russo e o esperanto.

O pequeno número de alunos não desanima a professora de latim Virna Pedrosa Sobral, 35 anos. Há 15, ela se dedica ao ensino da língua. Os estudos começaram na infância, ao lado da irmã. As duas aprenderam a ler em casa, em aulas dadas pelo pai, que desenvolveu uma metodologia própria. Há quase duas décadas, ele é docente na Universidade de Brasília (UnB). “O latim foi um ofício que o meu pai me ensinou. Sou formada em letras e sempre atuei em várias áreas. Mas, paralelamente, o latim sempre esteve presente. Na minha concepção, quando se aprende essa língua, a pessoa fica mais inteligente, afinal, fica mais fácil estudar qualquer outra coisa, principalmente aprender outros idiomas”, sugere.

Ainda segundo Virna, que também dá aulas particulares na Asa Norte, há sempre interessados pelo idioma. Os cursos duram, em média, dois anos, mas nem todos conseguem concluir o programa. “Geralmente, a procura parte de pessoas que estão fazendo doutorado ou gostam de estudar línguas. Mas há um grupo de senhoras para as quais eu dou aula, no Lago Sul, que optaram pelo latim para se aperfeiçoarem no canto gregoriano”, detalha.

O pai de Virna, o professor de literatura Gilson Sobral, 65 anos, lamenta a baixa oferta de cursos de idiomas exóticos na capital. “Em Brasília, estamos muito limitados. É difícil, por exemplo, encontrar aulas de línguas orientais”, justifica. “Mas é preciso reconhecer que, pelo tamanho geográfico, até que muitas pessoas falam línguas diferentes aqui. Há grupos específicos, de teólogos e filósofos, em que o estudo é mais frequente”, arremata. Gilson é conhecedor de grego, latim, inglês, francês, alemão e, atualmente, estuda árabe. Ele conta ter se interessado pelos idiomas em função da curiosidade por questões cultuais e filosóficas.

O professor e pastor Alex Barboza, 39 anos, também leciona grego. Ele conheceu o dialeto aos 27, quando ainda estava na faculdade. A língua fazia parte da grade do curso de teologia. O interesse foi tão grande que ele e três amigos solicitaram a extensão da disciplina, que se encerraria em dois semestres, por mais seis meses. Em 2013, ele transformou o grego em ganha-pão. Hoje, o pastor Alex ministra aulas em uma faculdade de teologia em Taguatinga, onde também ocupa o cargo de diretor. Ele sinaliza a dificuldade de formação de turmas. “A demanda não é tão grande. Além disso, muitas pessoas trancam o curso, infelizmente. Já começamos com 15 pessoas e terminamos com quatro”, esclarece. “ No meu dia a dia, o grego é muito importante, auxilia nas minhas pesquisas bíblicas e na compreensão dos textos sagrados”, emenda.

Espanha
 
Foi a necessidade que levou a estudante Isadora Nogueira, 24 anos, a conhecer o catalão, língua falada na região da Catalunha, conhecida mundialmente por lutar pela sua independência da Espanha. Ela morou por 11 meses em Tarragona, cidade interiorana, para cursar enologia, ciência relacionada à produção e à conservação de vinho. “Como a maioria das aulas eram dadas no idioma, tive que aprender. Somente o espanhol não seria suficiente, então, procurei um curso específico. Atualmente, não aplico no meu dia a dia e não conheço ninguém em Brasília que também fale, mas posso dizer que foi de grande utilidade quando morei na comunidade. Além disso, hoje, o catalão é fundamental para me comunicar com os amigos que fiz por lá”, revela.
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