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Raras aparições do pato-mergulhão

Biólogos conseguem acompanhar, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, o desenvolvimento de novos ninhos da ave, uma das espécies mais ameaçadas do mundo. Filhote que se separou da família é levado para cativeiro

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postado em 26/08/2014 12:10

Augusto Pio


 

Uma das famílias acompanhadas desliza sobre as águas: geralmente, os filhotes vivem na companhia dos pais até os 8 meses (Adriano Gambarini/Divulgação) 
Uma das famílias acompanhadas desliza sobre as águas: geralmente, os filhotes vivem na companhia dos pais até os 8 meses


 
"Todo o estudo biológico é realizado para subsidiar ações de conservação e manejo, como a reintrodução de indivíduos em locais de onde eles tenham desaparecido" Lívia Lins, bióloga e coordenadora do Programa Pato-Mergulhão


Belo Horizonte —
Desenvolvido pelo Instituto Terra Brasilis, o Programa Pato-Mergulhão conseguiu monitorar, na Serra da Canastra, em Minas Gerais, três ninhos da espécie e acompanhar o nascimento de 13 filhotes. Os números aparentemente modestos ganham grande significado quando se leva em conta que o animal é uma das 10 aves aquáticas mais ameaçadas do mundo, sendo extremamente rara atualmente.

Além disso, durante a observação de um dos ninhos, a equipe de pesquisadores encontrou um filhote de pato-mergulhão que havia se separado da família logo depois de seu nascimento. A situação impôs aos biólogos um trabalho inédito para eles nos quase 13 anos de estudos sobre a espécie. Depois de avaliar como baixas as condições de sobrevivência do pequeno animal na natureza, eles optaram por encaminhá-lo para cativeiro, onde teria maior chance de sobreviver.

Levada para o Zooparque Itatiba, no estado de São Paulo, conforme estabelecido pelo Plano de Ação para a Conservação da espécie, a ave está se desenvolvendo bem, ganhando peso e sendo acompanhada de perto por profissionais. Essa é a segunda vez que um indivíduo da espécie é criado fora do ambiente natural. Em 2011, um casal de patos-mergulhões nasceu em cativeiro em Poços de Caldas (MG). Com o apoio do Terra Brasilis e autorização do ICMBio, os ovos foram coletados na Serra da Canastra e levados para uma incubadora artificial. O nascimento sob proteção humana nunca havia sido registrado em todo o mundo.

Lívia Lins, bióloga e coordenadora do Programa Pato-Mergulhão, conta que o Instituto Terra Brasilis, criado em 1998 e presidido por Sônia Rigueira, tem uma base de campo na cidade de São Roque de Minas, na Serra da Canastra, que abriga a equipe de pesquisadores. Como parte dos estudos, durante todo o ano, os pesquisadores fazem o monitoramento da espécie nos rios da região, visando a conhecer seus hábitos e localizar novos territórios em diferentes rios. No período da reprodução da ave, a equipe se dedica à busca e ao monitoramento de ninhos. “Como o pato-mergulhão usa cavidades nas margens dos rios para fazer seu ninho, muitas vezes em locais de difícil acesso, a localização demanda um intenso levantamento. Os rios são percorridos em parte a pé, em parte com o uso de caiaque”, explica Lins.
 
Estratégias

A bióloga ressalta que o monitoramento biológico do pato-mergulhão é realizado no período reprodutivo, entre maio e julho, para localizar os ninhos em atividade e acompanhar o nascimento de filhotes, além do comportamento da família, com o objetivo de levantar todas as informações possíveis sobre a biologia da espécie. “Todo o estudo biológico é realizado para subsidiar ações de conservação e manejo, como a reintrodução de indivíduos em locais de onde eles tenham desaparecido, a instalação de ninhos artificiais e a localização de novas populações, entre outras medidas que contribuam para reverter o grave quadro de ameaça da espécie.”

Lins lembra que, atualmente, a espécie só é encontrada no Brasil, nas regiões da Serra da Canastra, onde é observada em maior número, da Chapada dos Veadeiros (GO) e no Jalapão (TO). “Historicamente, há registros também no Paraguai e na Argentina, porém, não se tem notícia recente de sua ocorrência nesses países. É uma espécie considerada criticamente ameaçada de extinção, e sua população global é estimada em apenas 250 indivíduos. O pato-mergulhão depende de águas limpas e transparentes, com corredeiras e vegetação nas margens e abundância de peixes, seu principal alimento”, descreve a especialista. “Ele captura os peixes ao mergulhar, daí o nome, utilizando a visão para isso. Por isso, é grandemente afetado pela degradação das águas”, completa.

Além de sua extrema raridade, o pato-mergulhão vive sempre a dois, e cada casal ocupa um trecho de até 15km de rio, o que faz com que sejam difíceis de serem encontrados. “Até 2001, quando se iniciou o trabalho do Terra Brasilis, quase nada se conhecia sobre a biologia da espécie, especialmente sobre o período reprodutivo. Só havia registro de um ninho, da década de 1950, na Argentina. Somente meio século depois, em 2002, a equipe do Terra Brasilis localizou o segundo ninho da espécie, na Serra da Canastra”, afirma Lívia Lins.
Um novo e seguro lar


Filhote se desenvolve bem, cresce e se alimenta de forma adequada (Terra Brasilis/Divulgação) 
Filhote se desenvolve bem, cresce e se alimenta de forma adequada
Desde que iniciou o trabalho de monitoramento biológico do pato-mergulhão, o Instituto Terra Brasilis conseguiu localizar 15 ninhos da espécie, o que permitiu conhecer melhor o comportamento reprodutivo da espécie: da postura, de até oito ovos por ninhada, à saída dos recém-nascidos do ninho. “Os filhotes acompanham os pais até se tornarem adultos, o que ocorre por volta dos 8 meses, quando se dispersam. Em geral, há grande perda de filhotes quando ainda pequenos”, lamenta a bióloga Lívia Lins.

A especialista explica que o filhote levado para cativeiro em São Paulo não foi o primeiro encontrado longe da família. “Mas esta foi a primeira vez que foi possível avaliar a condição dele e considerar que sua chance de sobrevivência na natureza era mínima. O filhote está se desenvolvendo bem, crescendo e se alimentando adequadamente”, informa. Segundo Lins, o animal faz parte de um programa de cativeiro do pato-mergulhão coordenado pelo ICMBio, do Ministério do Meio Ambiente, criado com o objetivo de, futuramente, reintroduzir a espécie em locais onde ela tenha desaparecido, contribuindo, assim, para diminuir seu grau de ameaça. O Zooparque de Itatiba e o Criadouro Poços de Caldas são as instituições que fazem parte do programa.

 Lívia Lins conta que, em 2011, um casal de patos-mergulhões nasceu em cativeiro na cidade mineira de Poços de Caldas. “Essa foi a primeira vez que isso ocorreu. Esse casal é proveniente de três ovos coletados pela equipe do Terra Brasilis na Serra da Canastra, com autorização do ICMBio, especialmente para iniciar o programa de cativeiro do animal. Atualmente, além desse casal em Poços de Caldas, há o filhote encaminhado ao Zooparque de Itatiba.

A bióloga esclarece que o pato-mergulhão é uma espécie naturalmente rara, por depender de um hábitat muito específico e com baixa densidade. “Com certeza, porém, a ação do homem, por meio da degradação das águas e do ambiente do qual o pato-mergulhão depende, foi o que levou a esse alto grau de ameaça.”

Ela ressalta que o Programa Pato-mergulhão inclui uma série de ações que estão sendo implementadas. “Além do estudo biológico da espécie, atividades de educação ambiental com a comunidade escolar e produtores rurais e ações para recuperação de áreas degradadas são parte importante do programa. Novas ações vão surgindo, à medida que novos conhecimentos são gerados.” Além da bióloga, estão envolvidos no projeto Flávia Ribeiro, Edmar Reis e Wellington Viana, biólogos de campo, e Jéssica Reis, bióloga e educadora ambiental. (AP)

250
Total aproximado de patos-mergulhões que existem hoje na natureza

 

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