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Mais de 80% das crianças de 4 e 5 anos estão na escola

Aumento do ingresso na fase anterior ao ensino fundamental está ligado às necessidades de mães que trabalham. Entre pessoas com 15 anos ou mais, embora o analfabetismo tenha caído, ainda há 13 milhões que não sabem ler nem escrever, das quais 53% no Nordeste

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postado em 19/09/2014 13:01 / atualizado em 19/09/2014 13:20

Julia Chaib , Ana Paula Lisboa

Com Bianca, 8 anos, e Lucas, 4, Catiuscia Costa conta que colocou o caçula na escola por considerar a idade certa (Fotos: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press) 
Com Bianca, 8 anos, e Lucas, 4, Catiuscia Costa conta que colocou o caçula na escola por considerar a idade certa

 

Temas presentes nos programas de governo de todos os candidatos à Presidência foram detalhados ontem nos indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostra os principais desafios na área social do próximo presidente. Na educação, embora o analfabetismo tenha caído 8,6% para 8,3%, de 2012 para 2013, ainda existem no Brasil 13 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever. Entre crianças de 4 e 5 anos, cresceu a taxa de escolarização de 78,1% para 81,2% — o maior salto dentro dos grupos etários analisados. Mas a proporção recorde de matrículas está na parcela de crianças de 6 a 14 anos (98,4%), faixa de idade que corresponde ao ensino fundamental.

A gerente da Pnad, Maria Lúcia Vieira, relaciona as maiores taxas de escolarização para crianças de 4 a 5 anos à necessidade imposta pelo mercado de trabalho às mães. “No Sudeste, onde há a maior taxa, temos os níveis de ocupação mais elevados, inclusive entre a população feminina, que tem de deixar o filho na escola. Então, essa inserção influencia na taxa de escolarização”, diz. A Pnad mostrou que, do total de pessoas que trabalham no país, 42,8% são mulheres.

Mãe em tempo integral, Catiuscia Costa, 38 anos, pode escolher ficar em casa com os filhos. Mas ela decidiu matricular o caçula Lucas, 4 anos, no Jardim de Infância 308 Sul, porque, para ela, essa é a idade certa para o ingresso de uma criança no sistema educacional. “Respeito quem prefere colocar antes, por ter que trabalhar ou outra questão. Mas achei importante ele ficar comigo em casa até os 4 anos. Dei toda a orientação em casa, conforme o ritmo deles”, disse. A mais velha, Bianca, 8 anos, também começou a estudar com a mesma idade.

João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB), que trata da alfabetização na primeira infância, diz ter ficado impressionado com o número de crianças que ingressaram nas escolas. Ao mesmo tempo, ele questiona a qualidade dos serviços oferecidos. “O que preocupa é tanta gente entrar sem ter programa de formação de professores, sem a infraestrutura necessária para o colégio. É crescer sem os cuidados necessários”, analisa o especialista.

O ingresso mais cedo da crianças no colégio contrasta com o número de analfabetos: no total, 13 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não sabem ler nem escrever, dos quais 7 milhões no Nordeste (53,6% do total). A maior parte tem mais de 60 anos. A Pnad mostrou também uma redução no trabalho infantil, que caiu de 12,3% de 2012 para 2013, passando de 3,1 milhões de trabalhadores de 5 a 17 anos para 2,6 milhões.

Envelhecimento
Outro dado apontado pela Pnad é o envelhecimento da população. A quantidade de brasileiros de 60 anos ou mais já representa 13% do total, ou 26,1 milhões de pessoas. Psicanalista e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Júnia Vilhena acredita que o país não está preparado para a mudança do perfil demográfico. “Tem a ver com o lugar que o velho ocupa na sociedade. Eles só são respeitados quando se tornam nicho de mercado”, afirmou. “É preciso um projeto pedagógico, social, cultural, de valorização do velho.”

Entre as pessoas de 5 anos ou mais, 95,5% eram alfabetizadas no Distrito Federal em 2013. Mesmo entre a população de 60 anos ou mais, a taxa dos que sabem ler e escrever é alta: 87,8%. Em relação à frequência na escola, a proporção dos estudantes que acessam a rede privada (40%) é maior que a média nacional, de 23,5%. Nas fases de maternal e jardim de infância, o acesso aos serviços particulares é ainda mais elevado, de 51,38%, contra 27% na média brasileira.

O que preocupa é tanta gente entrar sem ter programa de formação de professores, sem a infraestrutura necessária para o colégio. É crescer sem os cuidados necessários

João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto (IAB)

Quase 36% das casas sem esgoto

O acesso dos brasileiros aos serviços de abastecimento de água e de esgoto avançou no país entre 2012 e 2013, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o levantamento, a rede coletora de esgoto alcançou mais 1,5 milhão de residências brasileiras no período, atingindo o total de 64,3% das residências. Em 2012, esse percentual era de 63,3%. Enquanto isso, o acesso proporcional à água encanada diminuiu ligeiramente. Em 2012, 85,4% das casas tinham o serviço, ante 85,3% este ano. No mesmo período, o número de residências consideradas pelo IBGE cresceu de 63,7 milhões para 65,1 milhões.

Os dados divulgados pelo IBGE também mostram que o acesso à água encanada cresceu entre os lares menos favorecidos. Se, em 2004, apenas 53,8% dos 5% mais pobres da população contavam com o serviço, em 2008 o número atingiu 61,8% dessas residências. Em 2013, chegou a 68,1%. Houve também avanços discretos em outros serviços: o acesso à coleta de lixo cresceu 1% e atingiu 89,8%, e o acesso à iluminação elétrica chegou a 99,6%. Em termos regionais, destacaram-se as regiões Centro Oeste, Norte e Sul, com aumentos de 7,1%, 8,3% e 8,4%, respectivamente. Entretanto, a Região Norte continua sendo a menos atendida do país, com apenas 19,3% das residências com acesso à rede de esgoto. No Sudeste, em comparação, a taxa é de 88,6%. A melhora nos serviços de água, esgoto e coleta de lixo tem forte relação com a qualidade de vida e com a saúde da população.

No Setor Habitacional Buritis, em Sobradinho II, os moradores sentem na pele as consequências da ausência da rede de esgoto. Mesmo com a regularização dos lotes, a infraestutura de saneamento no local é parca. Pavimentação e iluminação pública inexistem no bairro. “A Caesb veio aqui e deixou a água certinha, mas o esgoto não funciona, não presta, corre água contaminada no meio da rua”, conta o morador Everaldo Rogues, de 50 anos. “Minhas filhas passam dois dias na escola e cinco no hospital por causa desse esgoto a céu aberto”, lamenta. O morador Amilton da Cruz Melo enfrenta dificuldades para dar banho e cuidar dos seis filhos pequenos. “Isso sem falar no mau cheiro que volta para dentro de casa”, observa ele. O Distrito Federal é a unidade da Federação com a maior cobertura relativa de rede de esgoto, com 87,9% dos domicílios atendidos.

Lentidão

Professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Leo Heller aponta a tendência de que a cobertura da rede de água avance mais lentamente nos próximos anos. “Conforme a rede se amplia, fica mais difícil atingir os locais remanescentes, pois essas áreas restantes são aquelas onde o atendimento é mais complexo, e onde os investimentos seriam maiores”, diz ele.

O especialista destaca a aprovação do Plano Nacional de Saneamento Básico, o Plansab, como um avanço, mas enumera os entraves. “As dificuldades persistem, sobretudo em relação ao investimento, que hoje está muito atrelado ao PAC, voltado sobretudo para obras. Não se trata somente disso. Há ainda pouca atenção e poucos recursos para medidas estruturantes, como capacitação, assistência técnica e regulação dos serviços de saneamento.”

A Pnad também registrou um aumento do acesso dos brasileiros a alguns bens de consumo. O número de pessoas com telefone celular, por exemplo, aumentou 5,1% em relação a 2012. O acesso a carro particular também subiu: em 43,6% dos lares brasileiros, pelo menos um dos moradores possui automóvel para uso pessoal.


As dificuldades persistem, sobretudo em relação ao investimento, que hoje está muito atrelado ao PAC, voltado sobretudo para obras. Não se trata somente disso. Há ainda pouca atenção e poucos recursos para medidas estruturantes, como capacitação, assistência técnica e regulação dos serviços de saneamento
Leo Heller, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG

 

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