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Intervenção na ponta da caneta

Movimentos feministas e poéticos estampam frases em locais públicos da cidade e tentam provocar reflexão nos brasilienses

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postado em 22/01/2015 11:52 / atualizado em 22/01/2015 12:01

Carlos Vieira

Bastou uma caneta hidrocor na mão e um ideal na cabeça para que Isabella Haru decidisse espalhar dizeres feministas pela capital. O Canetão nosso de cada dia é um movimento de intervenção urbana criado para elucidar cada vez mais as mulheres sobre os seus direitos e a importância da união delas. Em ação desde junho de 2014, a iniciativa da jovem de 22 anos ganhou mais de 33 mil seguidores em uma rede social e diversas contribuições ao redor do país de mensagens em locais públicos.


Profundamente engajada na questão desde 2012, a estudante acredita que todas as mulheres nascem feministas, mas muitas não conhecem direitos como a Lei Maria da Penha nem os dados de violência contra elas no Brasil. “A nossa autoestima é sempre minada pela sociedade patriarcal que tenta nos enquadrar em padrões de beleza artificiais”, discursa Isabella. Com o Canetão, o objetivo principal de Haru é “empoderar” as mulheres e, assim, escreve em paradas de ônibus e em paredes brancas pela cidade frases como “As mulheres são como água, crescem quando se encontram” e “Uma mulher empoderada é menos uma mulher violada. Por nós, pelas outras, por mim”. Segundo ela, é importante que elas comecem a se unir para terem mais força na hora de reagir ou denunciar uma violência.


Isabella conta que apenas uma vez foi abordada por duas pessoas insatisfeitas com a intervenção. Elas usaram o argumento do dinheiro público destinado à limpeza da “sujeira” feita pela jovem. Para ela, porém, “pichação é política da rua, é a forma que a rua tem para se expressar. As minorias têm de ocupar as ruas, os ônibus, as praças. Os nossos gritos e as nossas reclamações devem estar naqueles muros para lembrar a sociedade que nós existimos e não nos calaremos”, avalia.


A escolha do local para a “canetada” é simples. A estudante lembra que, quando começou o Canetão, no ano passado, procurou lugares onde tivesse amplo alcance e vários perfis de mulheres. O trabalho busca atingir todas as idades, cores, orientações sexuais e classes sociais. Além de Brasília, Isabella escreveu em paradas e ônibus de São Paulo e de outras unidades da Federação.


Muitas vezes confundida com vandalismo, a escrita em um local público pode causar revolta ou despertar curiosidade. Para o professor de publicidade e especialista em intervenções artísticas André Ramos, os textos do movimento carregam uma forte tendência política e procuram dar visibilidade a questões de gênero e de mulheres que, no dia a dia, são esquecidas pelo Estado. Segundo ele, no caso do Canetão, os textos “estabelecem diálogos com os passantes e, consequentemente, particularizam aquele espaço. São, portanto, intervenções urbanas”.

Em nome da reflexão
Outras intervenções urbanas se destacam em Brasília. O Canetão Poético tem como idealizador João Pacífico, estudante de 25 anos que começou o movimento no ano passado a convite de uma amiga. “No começo, eu sentia medo, sim; não sabia se era ilícito ou não. Mas, hoje em dia, relaxei”, explica. Os poemas são dele. “Eu acho divertido e gosto de pensar que posso causar um estranhamento nas pessoas. Pode quebrar a rotina de alguém que passa frequentemente por um espaço e provocar uma reflexão”, conta.


Para o professor André Ramos, os canetões feministas ou poéticos ocupam o espaço público, assim como as manifestações do grafite, do stencil, da pichação, da faixa de pano e do lambe-lambe. “A cidade é um organismo vivo para além do que estabelecem leis ou códigos sociais”, detalha.

 

 

 

Intervenção digital contra assédio


Em 2014, estudantes da Universidade de Brasília (UnB) criaram uma página em uma rede social chamada Fiu Fiu — UnB, que recebe e publica relatos de mulheres que sofreram abusos. Além de servir como um espaço terapêutico, a Fiu Fiu debate temas sobre estupro e divulga iniciativas de combate à violência contra a mulher. As estudantes de ciências políticas que criaram a página receberam cerca de 200 relatos no ano passado. Segundo Beatriz Sabô, uma das organizadoras, a ideia do movimento é “problematizar e debater todo tipo de agressão, denunciando as diversas formas de machismo encrostadas em nossa sociedade”. Para participar, basta acessar a página do movimento no Facebook (facebook.com/fiufiu.unb) e enviar o relato ou debater as questões abordadas.