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Escola de Música pede socorro

Aos 52 anos, a tradicional instituição de Brasília sofre com instrumentos sucateados, prédio sem estrutura e falta de professores. Além disso, mudança de plano pedagógico, que prevê o aumento do número de estudantes em sala de aula, preocupa a comunidade

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postado em 13/03/2015 11:27 / atualizado em 13/03/2015 11:30

Minervino Júnior
A Escola de Música de Brasília chega aos 52 anos sem ter o que comemorar. Não bastasse o sucateamento da estrutura e dos instrumentos, a EMB enfrenta problemas com a mudança do plano pedagógico, que coloca mais alunos em sala, põe em risco a qualidade do ensino. A reclamação vem de professores e alunos, que celebraram o aniversário da instituição com protestos. Eles temem que o nível aprendizado caia. A direção da escola alega que a normatização do ensino faz parte de um projeto de universalização da educação, na qual mais alunos teriam acesso à escola. Sem grandes reformas há 40 anos, um projeto arquitetônico de ampliação independente está engavetado no GDF. Atualmente, apenas 17% na área da escola abriga salas de aula, menos da metade da taxa de 40% prevista legalmente pela Norma de Gabarito de Brasília (NGB).


“Em qualquer lugar do mundo a aula de instrumento é feita de maneira individual. Em menos de uma hora, é impossível o aluno aprender em grupo. Não temos salas que comportem essa demanda”, argumenta o professor de contrabaixo Oswaldo Amorim. Ele faz parte de um extenso grupo de professores e alunos que defendem o ensino singular. Na contramão, está a direção da escola que aposta na “democratização” do ensino. “Essa é uma forma de atrair mais alunos. A cada 100 pessoas uma vai ter o nível de Tom Jobim, se tiver. E, se formos educar um por um, muitos talentos serão desperdiçados”, justifica o diretor da EMB, Ayrton Macedo Pisco.

 

Na quarta-feira, dia do aniversário da escola, professores e alunos fizeram um protesto contra as modificações. “Se os professores ganhassem por aluno, não estariam reclamando da normatização. Para eles, é cômodo ter menos educandos. Mas isso é ruim porque se torna uma relação de amizade entre o professor e o aluno. Professor de verdade dissemina o conhecimento para um, dois ou 20 alunos com o mesmo grau de qualidade”, acredita Pisco.
O sonho de quem quer ser um músico de excelência corre riscos, segundo os estudantes. Tito de Castro, 20, está na escola há três anos. Aluno de piano erudito, o rapaz tem receio que aprenda menos caso o novo plano seja colocado em prática. “Não sei até onde a escola vai manter sua excelência de ensino. Os professores são ótimos, os aluno interessados, mas falta contrapartida dos gestores. A estrutura está péssima”, avalia o também estudante de arquitetura.


A falta de professores atinge até mesmo as aula teóricas. Bianca Apresentação, 40 anos, estuda canto erudito e está sem professor há duas semanas. Faltam explicações. “A gente fica sem aula e a escola não diz nada”, afirma. A professora que estaria em sala foi afastada por licença médica.


A confusão se espalha também pelas coordenações dos cursos. De acordo com a Secretaria de Educação, seriam cerca de 30 docentes empenhados na organização das modalidades. Porém, o deficit de professores não permite a transferência desses profissionais para as salas de aula. Isso porque o professor coordenador tem uma carga horária que não permite lecionar ao mesmo tempo. “Estamos num momento que temos que aproveitar da melhor forma nosso capital humano”, afirma Pisco.

Sucateada
Sem reformas há mais de 40 anos, a estrutura da instituição pede socorro. Pisos arrancados, infiltração no teto, falta de isolamento acústico, entre outros problemas, lideram a lista de queixas. Para se ter ideia, professores da escola se mobilizaram para repartir uma sala ampla em três ambientes. A modificação foi feita em drywall, não há isolamento acústico. Durante as aulas, é possível ouvir os instrumentos de outra turma. “Imagina vários instrumentos, ao mesmo tempo, com muitos alunos. Isso vai virar um caos”, aponta a professora de piano Ilke Takada. O colega Davson Souza, instrutor de flauta, concorda. “Esse tipo de ensino é inadequado, o espaço é inadequado e nem instrumentos para isso temos”, afirma.


Em 2013, houve um ensaio de reforma para a escola. Na época, um projeto independente do arquiteto Pedro Grilo foi encaminhado ao GDF para que avaliasse o trabalho. Destino? Gaveta. “Até hoje estamos esperando essa reforma. A única alteração por parte do governo na escola foi reparos no auditório e no bloco H”, pondera o professor de contrabaixo Oswaldo Amorim. A direção da escola não se manifestou sobre obras na instituição. Na chuvas de quarta-feira, boa parte dos blocos ficou alagada.

 

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