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Correio Braziliense

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Tecelão de palavras

A obra do escritor uruguaio foi referência para uma geração de autores e intelectuais de esquerda brasileiros: ligação de Eduardo Galeano com o Brasil era intensa e constante

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postado em 14/04/2015 10:41 / atualizado em 14/04/2015 10:50

Nahima Maciel

Galeano: América Latina como matéria-prima (Bruno Peres/CB/D.A Press - 11/4/14)
 
Galeano: América Latina como matéria-prima

Quando Eduardo Galeano subiu ao palco do auditório do Museu Nacional da República para falar como homenageado da segunda edição da Bienal Brasil do Livro e da Leitura, foi aplaudido de pé. Da plateia, alguns gritavam “Galeano, quero votar em você”. No púlpito, o escritor brincou: “Eu me sinto um pouco sufocado com tanto amor”. Mas são sentimentos intensos que o intelectual costuma mesmo provocar e foi com o amor pela identidade latino-americana que ele conquistou gerações de leitores e admiradores.

O também escritor Eric Nepomuceno tinha em Galeano um irmão mais velho. Os dois se conheceram em Buenos Aires, em 1973. Nepomuceno, então com 24 anos, morava na Argentina. Galeano fugira da perseguição após o golpe militar no Uruguai. O uruguaio adotou o brasileiro e o transformou em um dos colaboradores da revista Crisis, referência em publicação sobre cultura na América Latina.

Ao longo de 43 anos, a amizade se transformou em relação familiar. A filha do uruguaio é casada com o irmão de Nepomuceno e o escritor traduziu para o português mais de 10 livros do autor, inclusive o conto responsável pela estreia de Galeano no Brasil, em 1974. “Era o cara para quem eu mandava as coisas que escrevia antes de mandar para editor, era o cara que me aconselhava, que me formou. Tudo que descobri depois que o conheci mudou minha vida. Todos os amigos que fiz foram através dele”, conta. “Era uma pessoa de uma inteligência impactante, de uma lucidez em relação à vida e às coisas do mundo muito aguda, um homem de uma integridade a qualquer prova e, sobretudo, um homem de fé, de esperança.”

Consciência
Nepomuceno tem algumas preferências quando se trata da literatura do amigo. Para ele, a trilogia Memória do fogo está no topo da lista de livros mais importantes de Galeano. “São três livros que contam a história da América, dos mitos da criação dos índios até o dia em que ele volta do exílio. Acho que esse é o resumo da grande obra dele”, diz o escritor, que também tem uma queda pelo Livro dos abraços. “Me tocou de maneira egoísta porque ele dedicou esse livro a três casais de amigos e um dos casais é minha mulher e eu. Fiquei muito surpreso e emocionado. Era um tecelão de palavras.”

Zuenir Ventura lembra do impacto causado por As veias abertas da América Latina. “Foi um livro incisivo não só para os latino-americanos, para os brasileiros também”, garante. “Foi realmente uma referência para todos nós preocupados com o destino da América Latina. Esse amor que ele tinha pelo continente, pela causa, e essa consciência continental era o que eu mais admirava nele.” Os textos sobre política eram um ponto comum entre os dois autores, que se conheciam e costumavam conversar sobre os problemas e rumos do continente. Assim como a ditadura foi tema de livros de Zuenir, Galeano, que viveu no Rio de Janeiro no final dos anos 1960, espelhou parte da experiência brasileira em Dias e noites de amor e de guerra.

O escritor gaúcho Luís Augusto Fischer lembra que o uruguaio soube fazer uma literatura pouco explorada no Brasil. “Ele elaborou um texto sensível, em parte atento ao cotidiano, como a crônica brasileira, mas em parte ligado a uma perspectiva jornalística, que envolvia até mesmo alguma investigação, algum esforço de reportagem”, analisa Fischer.

Galeano não se intimidou ao incluir o Brasil no seu pensamento sobre a América Latina. Fischer lembra que ele conhecia muito bem o país e soube cultivar por aqui uma grande quantidade de amizades. “Isso alargou seu horizonte. E teve um mérito grande de colocar sua pena e sua verve a serviço do combate às ditaduras, nos anos 1970 e 1980”, lembra o gaúcho, que destaca ainda a habilidade do uruguaio de contar histórias ao vivo.

Contemporâneo
O compositor e escritor gaúcho Vitor Ramil conta que Galeano sempre repercutiu muito em Porto Alegre. A mente brilhante e o ponto de vista original conquistavam leitores, mas também ouvintes que nunca haviam lido a obra do escritor. A observação aguçada da contemporaneidade era a marca que Ramil mais gostava. “Não era desses caras que estacionam na sua fama, nos seus feitos de uma época”, diz. “A impressão que dava era que ele estava sempre absorvendo o mundo de maneira muito honesta, transparente, e isso foi realmente muito importante. Porto Alegre, pelo menos por um momento, foi uma referência mundial de posições libertárias de esquerda, mas não essa esquerda carrancuda. E acho que o Galeano incorporava um pouco esse espírito com o qual a gente se identificava.”

Sérgio Rodrigues, premiado com o Portugal Telecom de 2014 pelo romance O drible, admira a dimensão mitológica conferida por Galeano ao futebol em Futebol ao sol e à sombra. Ele o compara, inclusive, a Nelson Rodrigues. Poucos autores se debruçaram sobre o tema e o uruguaio escolheu um viés importante. “Ele dava ao futebol um tratamento muito diretamente mitológico, não era muito interessado em histórias e jogadas, e sim em acessar muito diretamente uma dimensão de mito. E eu gosto muito desse livro”, conta Rodrigues.

“Ele teve um mérito grande de colocar sua pena e sua verve a serviço do combate às ditaduras, nos anos 1970 e 1980”
Luís Augusto Fischer, escritor

“Era uma pessoa de uma inteligência impactante, um homem de uma integridade a qualquer prova e, sobretudo, um homem de fé, de esperança”
Eric Nepomuceno, escritor


Livros

 

As veias abertas da América Latina (1971)
Foi publicado quando a maioria dos países do continente americano sofriam com os regimes ditatoriais. Com seu texto lírico e amargo a um só tempo, Galeano transmite uma mensagem que transborda humanismo, solidariedade e amor pela liberdade e pelos desvalidos.


 

Vagamundo (1973)
Reúne várias narrativas curtas de Eduardo Galeano. São contos e relatos que estão impregnados do estilo do autor, que revisita seus ancestrais mantendo sempre uma visão de estranhamento em relação às coisas da vida.

 

Memória do fogo (1982 – 1986)
As obras formam uma trilogia apaixonante da saga da América, sobretudo a história da América Latina. Personagens, mitos, lendas, batalhas, vencedores e vencidos desfilam diante dos leitores em flashes carregados de lirismo e emoção.


 

O livro dos abraços (1989)
A história é feita de memória e a memória, de momentos. São nestes momentos que Galeano concentra o olhar neste livro delicado e muito poético. A habilidade de inserir o mundo num instante micro marcam esta pequena narrativa.


 

O futebol ao sol e à sombra (1995)
Não é apenas a história do esporte que conduz Galeano neste ensaio. O autor mergulha na tentativa de compreender o que há de tão fascinante no futebol e em seus craques que conseguem seduzir um continente inteiro.


 

Os filhos dos dias (2012)
A história da humanidade recontada a partir da sabedoria dos maias conduz esse livro cheio de mitologias e referências latino-americanas. De cada dia nasce uma história e há narrativas para todos os dias que compõem o calendário.



DEPOIMENTOS


 

Liberdade
“Acho que a gente poderia pensar em Eduardo Galeno na condição de um intelectual tipicamente latino-americano do início do século 20 que desenvolveu sua obra até o início do século 21. Ele não tem formação acadêmica; é um intelectual autodidata. É uma característica importante. Ele escreveu romances, crônicas, artigos, ensaios, reflexões sobre o presente.
 Mas, a despeito de não ter uma educação formal, aproveitou a liberdade para escrever as histórias que interessam à América Latina, sem precisar da legitimação da sociologia, da antropologia, de qualquer cartilha literária ou ideológica. Era um homem de letras. Essa liberdade lhe conferiu um arejamento para abordar as grandes questões da América Latina, a colonização, a opressão e as formas de resistência criativa popular”.
Alexandre Pilati, poeta e professor de literatura da UnB



Cultura popular
“Eduardo Galeno é uma das figuras que mais marcaram a literatura latino-americana a partir das décadas de 1960 e 1970, muito ligado ao chamado boom dos escritores da linha do chamado realismo mágico. Entre eles, é o que tem mais proximidade com a cultura brasileira. Ele atribuiu uma importância muito grande ao futebol e à cultura popular. Escreveu ensaios memoráveis sobre o futebol brasileiro e, inclusive, o livro Futebol ao sol e à sombra teve uma foto dos bonecos de Mestre Vitalino na capa. Ele também usou gravuras de Jota Borges como ilustração.

Sua produção ficcional é marcante e está relacionada com as transformações políticas e sociais do início do século 20. Se empenhou em fazer uma literatura moderna de caráter popular. Do meu ponto de vista, considero a produção jornalística mais importante do que a ficcional. Ele tem facetas muito ricas.”
Erivelto Carvalho, professor de literatura espanhola e hispânica da UnB


 

Emancipação
“Ele teve uma importância grande no sentido de criar uma consciência crítica sobre os problemas do continente, com As veias abertas da América Latina. Lembro-me que foi um livro que uniu os intelectuais de todos os países em torno de um ideal de emancipação. Foi algo muito forte, de grande repercussão naquele momento. E percebo que ainda é. Essas ideias desapareceram, durante certo tempo, mas voltaram a fazer sentido.”
Hermenegildo Bastos, poeta e professor de literatura da UnB



Dias de luta

1940
Nasce Eduardo Germán María Hughes Galeano em 3 de setembro, em Montevidéu. Filho de uma família católica de classe alta, o garoto — assim como boa parte dos meninos uruguaios — tinha o sonho de ser jogador de futebol, que ele dizia jogar muito bem.

Anos 1960
O jovem Galeano trabalha como pintor, desenhista, cobrador, caixa de banco, operário em fábrica de inseticida, diagramador e editor de pequenos jornais e revistas. Ele já tinha a intenção de escrever sobre as mazelas dos latino-americanos quando resolveu fazer uma longa viagem por países da região, a fim de recolher material para um estudo.

1971
Ano de publicação de As veias abertas da América Latina. O livro, um retrato contundente das desigualdades e desmandos no continente, torna o escritor internacionalmente conhecido. As veias abertas da América Latina é considerada a obra-prima de Galeano.

1973
O golpe de estado no Uruguai obriga Galeano a exilar-se na vizinha Argentina. Contudo, três anos depois, o país também sofre um golpe militar e o escritor vai para a Espanha. O livro dele é proibido em diversos países com regimes ditatoriais, o que o fortaleceu como um pensador de esquerda.

Anos 1980
Morando na Espanha, o escritor uruguaio desenvolve a trilogia de livros Memória do fogo, em que aborda a história dos excluídos na América Latina, aquela grande parcela da população sem voz e que fora sempre explorada, desde os povos pré-colombianos até as ditaduras militares. A trilogia é premiada Ministério da Cultura do Uruguai e, em 1989, recebeu o American Book Award, da Universidade de Washington.

1988
Durante a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, o escritor foi convidado para a abertura do Festival Internacional Chile. Faz um forte discurso a favor da famosa campanha do “Não”, importante passo no fim do regime militar no país.

2004
Apoiou o candidato de esquerda Tabaré Vázquez e sua Frente Ampla à presidência do Uruguai. Vázquez saiu-se vencedor na disputa.

 

2009
Na quinta Cúpula das Américas, em Porto Espanha, o então presidente venezuelano Hugo Chávez oferece ao mandatário norte-americano Barack Obama um exemplar do livro As veias abertas da América Latina, de Galeano, causando grande repercussão em torno do nome do uruguaio. A publicação atingiu o top 10 da vendas no site Amazon naqueles dias.

2015
Morre em Montevidéu, em 13 de abril. Eduardo tinha 74 anos e sofria de câncer no pulmão. A última aparição pública do escritor foi em fevereiro, ao lado do presidente boliviano Evo Morales.

 

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