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A força da sociedade no combate à corrupção

Iniciativas, como debater com alunos os problemas decorrentes do desvio de dinheiro do erário, ou mobilizar a população para cobrar ações da administração, somam-se aos esforços dos órgãos de controle e ajudam a criar uma mentalidade de participação cidadã

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postado em 25/05/2015 13:30 / atualizado em 25/05/2015 13:33

Marcella Fernandes /

Marcelo Ferreira

As consequências dos recorrentes casos de corrupção descobertos no país não se restringem a processos na Justiça, eventuais punições aos envolvidos e uma descrença generalizada da população em relação ao meio político. Também impulsionam ações que, embora simples, transformam comunidades distantes do eixo das grandes denúncias. Iniciativas que mobilizam a população na fiscalização do poder público e no combate à corrupção mostram que é possível mudar a mentalidade — e a realidade — a partir de pequenas ações. Além de exigir a punição de políticos envolvidos em esquemas de desvio de dinheiro, muitos grupos têm trabalhado para melhorar áreas que sofrem com a escassez de recursos públicos, como a educação e a saúde.

Alunos do Centro de Ensino Fundamental 01 do Gama, por exemplo, produzem, desde 2013, curtas-metragens sobre corrupção. Nos dois últimos anos, foram finalizados 41 vídeos por estudantes do 9º ano do ensino fundamental. O processo começa em sala de aula, com discussões orientadas por professores de português, história, geografia e inglês ao longo do ano. “A gente parte da concepção de que a corrupção ocorre na vida privada até chegar aos espaços públicos. É uma questão cultural no nosso país, e combater isso vai desde o jeitinho ao furar a fila do supermercado ou colar na prova do colega ao lado. Primeiro, você muda essa relação para, depois, alterar outras, por meio do voto”, explica Francisca Beleza, supervisora pedagógica da instituição.

 

Depois das discussões em sala de aula, os alunos participam de oficinas com cineastas, nas quais aprendem desde o roteiro à edição, incluindo produção, direção, figurino e maquiagem. Muitos dos vídeos são filmados com os celulares dos próprios estudantes, conta o professor de artes Pedro Silva, que orienta os alunos nas produções. “Quando a gente faz o debate tentando definir os símbolos da imagem, imediatamente, eu percebo que os meninos acabam criando essa percepção um pouco mais crítica de mundo”, afirma o docente. Neste ano, a temática trabalhada é a violência, dentro do tema geral da corrupção. Em 2014, o subtema foi sustentabilidade.

“Desde que definiram o tema deste ano, já pensei em milhões de ideias. A iniciativa chama muita atenção, e é um jeito de envolver a gente nessa discussão”, conta a estudante Nathália Nascimento, 14 anos. Para Iago Aurélio, 17, que participou do projeto no ano passado, a produção audiovisual ajuda no aprendizado do combate à corrupção. “A gente já vem estudando, várias pessoas falaram aqui na escola sobre o tema; então, já temos uma noção. Quando fazemos o filme, conseguimos mostrar tudo o que vimos.” O adolescente foi diretor de um curta em que uma menina aprende lições de sustentabilidade e corrupção com um fantasma, ao visitar um cemitério.

A iniciativa foi motivada pela campanha “O que você tem a ver com a corrupção?”, do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O promotor Paulo Quintela visita escolas há três anos para mostrar como a corrupção está em pequenos atos. Ele usa vídeos, histórias em quadrinhos e outros recursos visuais. O projeto foi criado no MP de Santa Catarina, em 2004, e passou a chegar a outras unidades da Federação a partir de 2007. “Eu uso exemplos do dia a dia, como problemas éticos no futebol, para os alunos refletirem sobre suas próprias atitudes”, explica Quintela. Conscientizar a população é também o objetivo da campanha “Corrupção Não!”, lançada hoje por ministérios públicos de 21 países.

Participação

Na percepção de André Marini, presidente do Instituto dos Auditores Internos do Brasil (IIA Brasil), a mobilização dos brasileiros contra a corrupção tem aumentado nos últimos meses. Ele acredita que houve uma melhora na formação dos cidadãos, apesar de ainda ser nítida a falta de conhecimento. “Sem dúvida, é um fator que dificulta a mudança de cenário, mas, neste aspecto, acredito que temos tido um bom avanço, pois a população está cada dia mais consciente dos seus direitos, o que provoca questionamentos e proposições muito interessantes, tanto para a área privada quanto para a pública”, afirma. Marini destaca ainda que a participação da sociedade é fundamental na fiscalização de desvios de recursos públicos.

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