TRABALHO »

País deve fechar 1 milhão de vagas

Nos cinco primeiros meses do ano, mais de 240 mil postos foram encerrados em todas as regiões. Especialistas acreditam que tendência é piorar, porque, em maio, período considerado de aquecimento nas contratações, o desemprego atingiu 6,7%, segundo o IBGE

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 28/06/2015 12:30

Antonio Temóteo

A recessão econômica bateu em cheio no mercado de trabalho, e a geração de empregos dos últimos anos deu lugar a demissões em massa. No primeiro mandato da presidente da República, Dilma Rousseff, 4,9 milhões de postos formais foram criados, mas nos cinco primeiros meses do ano 243.948 pessoas já foram dispensadas, segundo dados Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os analistas temem uma aceleração do nível de desemprego a partir de junho, o que resultará no fechamento de 1 milhão de vagas com carteira assinada até dezembro. Há quem aposte que a taxa de desocupação ultrapassará os 10% em 2016. Para piorar, o rendimento médio real dos assalariados também está em queda. Esse processo derrubará ainda mais a popularidade da chefe do Executivo, que já tem um índice de rejeição de 65%.

Das 27 unidades da Federação, em 19, o número de dispensas supera as contratações (veja quadro). E essa situação se agravará nos próximos meses. Nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, 314.870 vagas formais desapareceram. Com o baixo nível de confiança dos empresários, não há expectativa para reposição dos postos de trabalho nessas localidades pelo menos até o fim do próximo ano.

Nos três estados do Sul, a geração de empregos ainda supera os desligamentos quando analisados os resultados acumulados nos cinco primeiros meses do ano. A agropecuária e o setor de serviços são os que mais empregam. Mas, em abril e maio, o ritmo de demissões cresceu e já supera as contratações no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. No Centro-Oeste, o Distrito Federal é a única localidade em que o fechamento de postos formais é maior do que o número de contratações. A construção civil é o segmento que mais dispensa, seguido pelo comércio e pelo setor de serviços.

Em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso, o mercado de trabalho tem oscilado entre meses de mais dispensas ou mais admissões. As contratações do agronegócio e do setor de serviços ainda mantêm o saldo líquido positivo. Goiás gerou empregos entre fevereiro e maio, mas o ritmo de abertura de vagas arrefeceu nos dois últimos meses do período analisado. O aumento geral do desemprego no Brasil traz outro efeito perverso, a queda da renda. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o rendimento médio real dos trabalhadores chegou a R$ 2.117,10 em maio, uma queda de 5% em relação ao mesmo mês do ano passado. Analistas avaliam que a queda nos salários médios implicará retração do consumo das famílias e isso agravará ainda mais o cenário de retração econômica.

Para Rodolfo Peres Torelly, ex-diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e consultor do portal Trabalho Hoje, o fechamento de postos formais chegará a 1 milhão até dezembro. Conforme ele, o período de maior contratação ocorre entre maio e setembro porque as empresas começam a preparar a produção para as festas de fim de ano. Além disso, o ritmo de prestação de serviços e de vendas do comércio também aumenta, após os consumidores pagarem os tributos, concentrados nos quatro primeiros meses do ano. Entretanto o ritmo de admissões não aumentou e 115.599 assalariados com carteira assinada foram dispensados em maio.

Deterioração
Torelly comenta que com o ambiente de recessão, com expectativas de encolhimento de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), de inflação em 9%, e a expectativa de alta de juros, os empresários não querem investir e fazer contratações. “Todos os indicadores apontam que o desemprego aumentará e para piorar”, disse. Ele relembra que a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE registrou, em maio, a quinta alta consecutiva da taxa de desocupação, que chegou a 6,7%. E a Pesquisa de Emprego de Desemprego (PED), do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apresentou elevação dos índices nas seis cidades em que o levantamento é realizado.

Somente os segmentos de ensino e de serviços médicos e odontológicos ainda criam vagas, conforme os dados do MTE. O professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) Jorge Arbache explica que com a expansão da renda nos últimos anos e com o crescimento do mercado de planos de saúde, os brasileiros têm demandado cada vez mais atendimentos para se manter longevos. No caso do setor de educação, a consolidação de grandes redes de ensino superior e de programas de financiamento estudantil impulsiona a contratação de profissionais. “Mas, no geral, a tendência é de alta do desemprego nos próximos semestres”, detalhou.

O coordenador de Trabalho e Rendimento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Miguel Foguel, também está pessimista e estima mais demissões do que contratações pelo menos até o fim de 2016. Ele destaca que o número de trabalhadores com carteira assinada, que hoje representam 50% de todos os ocupados, sentirá o maior efeito da crise.

Pressão no mercado
Nas contas do economista-chefe para América Latina do Banco BNP Paribas, Marcelo Carvalho, a taxa de desemprego aumentará significativamente nos próximos meses. Ele estima que o nível de desocupação ultrapassará os 8% até dezembro. E, em 2016, poderá chegar a níveis superiores a 10%. Conforme Carvalho, o número de pessoas em busca de uma ocupação estava em baixa nos últimos anos, mas com a queda na renda, jovens e pessoas de meia idade voltarão a pressionar a taxa de participação. “O desemprego está em alta e vai subir ainda mais”, projeta.