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Correio Braziliense

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Uma colônia de férias muito especial

Pela primeira vez, 18 crianças autistas têm a oportunidade de participar de atividades recreativas em grupo durante o recesso escolar. Idealizada por uma psicóloga, a iniciativa fez sucesso entre pais de meninas e meninos que têm o distúrbio

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postado em 25/01/2016 18:26 / atualizado em 25/01/2016 18:31

Antonio Cunha

Período mais esperado pelas crianças, as férias exigem disposição dos pais para acompanhar o ritmo dos pequenos. Para entretê-los e não prejudicar a socialização, muitos optam por matriculá-los em colônias de férias. No Distrito Federal, mais de 20 opções foram oferecidas entre novembro e janeiro. Das mais esportivas às mais artísticas, crianças de variados perfis encontraram pelo menos um grupo que as incluísse. A não ser as que têm necessidades especiais, como as autistas. Nesses casos, as alternativas são quase sempre inexistentes.


Antonio Cunha

Apesar de haver mais de 60 mil crianças autistas no DF, segundo levantamento de organizações sociais, foi só este ano que surgiu a primeira opção de colônia de férias para esses meninos e meninas. Pela primeira vez, 18 crianças com esse distúrbio tiveram opção de entretenimento durante o recesso escolar. As atividades da colônia de férias terapêutica da clínica Estimular, no Setor de Mansões do Park Way, começaram na última segunda-feira e vão até a próxima sexta-feira.


Idealizada pela psicóloga Cinthia Vanessa, a iniciativa foi um desafio que tem dado certo. “Para uma criança autista, o intervalo das férias é enorme. Elas ficam nervosas quando não têm rotina, pois precisam disso para se inserir no tempo e no espaço”, explica a psicóloga. Com o objetivo de ajudar nesse momento de transição, ela resolveu investir tempo e dinheiro para tirar do papel o plano da colônia de férias, que estava na gaveta desde 2012. “As pessoas não acreditavam que poderia dar certo e que haveria interesse”, conta Cinthia, que se inspirou no Summer Camp, de Recife (PE) – pioneiro no Brasil, em atividade desde 2011 –, e no Intercamp, de Uberlândia (MG), ambos voltados para crianças autistas.


A procura foi bem maior do que ela esperava. “Foi tudo no boca a boca, porque não fizemos divulgação”, ressalta Cinthia. “Até pais de outros estados, como do Mato Grosso do Sul, resolveram matricular as crianças”, conta a coordenadora.


“Eu já estava preocupada com a questão das férias. É muito difícil suprir todas as necessidades do meu filho nesta época, mesmo eu tirando férias no trabalho também”, conta a funcionária pública Regina Gomes, 43 anos, mãe de Arthur, diagnosticado com autismo há pouco mais de um ano. A colônia de férias veio como uma solução perfeita para lidar com o recesso. “Não é todo mundo que abraça essa causa. Não matriculo nas colônias tradicionais, porque nelas o trabalho é mais superficial, há muitas atividades coletivas. Crianças dentro do espectro do autismo precisam de mais atenção e atividades específicas”, explica a mãe.


Durante todo o período de atividades, as crianças contam com o acompanhamento de mais de 20 profissionais. Musicoterapeuta, educador físico, psicomotricista, contadora de histórias, nutricionista e 18 monitores – um para cada criança. Segundo Cinthia, não foi difícil conseguir profissionais capacitados, mas a procura que mais surpreendeu foi por monitores. Ela recebeu mais de 300 currículos de estagiárias de psicologia para preencher os cargos. “Tinha até propostas de trabalho voluntário. O processo seletivo foi acirradíssimo”, conta a coordenadora.


“Me preparei muito para lidar com a criança que está sob minha responsabilidade. Estudei o perfil dela, tive contato com a musicoterapeuta e, por isso, não tive problemas”, conta Marina Cauhi, 22, uma das monitoras. “Vou querer participar das próximas edições, se possível. É uma experiência excelente.”
As atividades são divididas em quatro categorias. Na sala de linguagem, o foco fica com musicoterapia, histórias e teatro de fantoches. “São atividades que estimulam a interação”, explica Cinthia. Há, ainda, outras três salas. A tátil, que busca estímulo sensorial – ou seja, trabalha com os sentidos e a localização do espaço –, a motora, que incentiva atividades físicas e de coordenação, e a de atividade livre. Nesta, a diversão varia. “Ontem veio uma nutricionista, que incentivou a exploração das frutas. Tem também educador físico e professor de teatro”, exemplifica a coordenadora.


Separadas em quatro grupos, de acordo com os perfis, as crianças passam 40 minutos em cada uma das salas. O resto do tempo é destinado ao lanche, que quase sempre vem de casa, devido às restrições alimentares, e às brincadeiras com os monitores.


Antes do fim da primeira semana, os benefícios já podiam ser percebidos no pequeno Arthur, filho de Regina. “Ele tem vocalizado melhor, já faz mais barulhos”, comemora a mãe. “Ele está sempre animado para ir, se acostumou muito bem”, conta Regina. Segundo Cinthia, as outras crianças também têm tido avanços notáveis com ajuda das atividades. “Algumas já demonstram mais percepção motora, por exemplo. A convivência tem sido excelente”, garante.

Bolsa
O preço para duas semanas de recreação é de R$ 1,5 mil. O valor salgado foi uma das dificuldades encontradas por algumas mães. Para contornar esse problema, Cinthia resolveu oferecer uma bolsa integral por meio de um concurso baseado na história de vida dos interessados. Após analisar os 13 e-mails recebidos, a beneficiada foi Maria Beatriz, de 4 anos, filha da dona de casa Lucineide Chaves, 36. “A história escrita por ela foi linda, inspiradora”, descreve Cinthia. Lucineide ficou sabendo da colônia de férias por meio de um grupo de mães de crianças autistas. “Eu enviei o e-mail, sem muita expectativa. Na verdade, tinha dúvidas se iam ler ou não”, lembra.


Uma semana depois, no fim de novembro, recebeu a resposta positiva. “Fiquei muito feliz, porque queria que ela participasse e não teria condições de pagar”, conta. Com renda mensal de R$ 2 mil, era inviável para a família, que vive em uma quitinete no Guará, arcar com os custos da colônia. “Não conseguimos nem sequer pagar o tratamento multidisciplinar para ela, que seria o ideal. Só temos acesso a fonoaudióloga e terapia porque são gratuitos, mas precisamos correr muito atrás”, lamenta Lucineide.


Quando a psicóloga de João Pedro, 4 anos, divulgou a colônia de férias na escola onde ele estuda, no fim do ano passado, quase todas as mães ficaram interessadas. O problema, para a maioria, foi o preço. “Todas queriam, mas poucas podiam pagar”, lembra a mãe do menino, a professora Lídia Moreira, 45 anos. Na casa dela, o gasto mensal com o filho chega a R$ 3,5 mil e inclui terapias, alimentação e babá. A solução foi fazer uma vaquinha entre os parentes. “Ele está adorando. Fica feliz da vida quando chega a hora de ir para a colônia de férias, e volta muito satisfeito. Não teve dificuldade para se adaptar”, comemora.

 

 

Para saber mais

Detecção precoce

Os Transtornos do Espectro Autista (TEA) são a denominação para distúrbios como autismo, Síndrome de Asperger e Transtorno Global do Desenvolvimento.  Eles se caracterizam pela dificuldade na comunicação social e comportamentos repetitivos. O autismo é considerado uma síndrome neuropsiquiátrica.  Estudos sugerem a presença de alguns fatores genéticos e neurobiológicos que podem estar associados ao transtorno. O conceito da doença, formulado em 1943, indica sinais de isolamento, extrema dificuldade para estabelecer vínculos, ausência de linguagem ou incapacidade no uso significativo da linguagem, recusa de comida, reação de horror a ruídos fortes e movimentos bruscos e repetição de atitudes.  

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