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HIV, o vírus que não dorme

Segundo estudo internacional, o patógeno se replica mesmo nos locais do corpo em que se acreditava que ele ficava adormecido devido à ação dos antirretrovirais. Descoberta pode mudar as estratégias de tratamento da Aids

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postado em 28/01/2016 19:17

Vilhena Soares

 

Um dos maiores problemas enfrentados no combate ao HIV é a dificuldade de extinguir os reservatórios latentes — locais em que o vírus fica escondido. Isso porque, caso seja interrompida a ingestão de antirretrovirais, esses santuários do micro-organismo podem fazer com que a doença volte a se manifestar. Acreditava-se, porém, que, durante o tratamento, o patógeno oculto seguia em repouso, adormecido. Um grupo internacional de pesquisadores liderado pela Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, mostra o contrário. Segundo o estudo divulgado na edição desta semana da revista Nature, os pequenos depósitos seguem ativos, com o poder de replicar e espalhar o HIV pelo corpo.

A equipe começou a pesquisa tentando entender por que, quando a ingestão do coquetel de medicamento é cessada, o vírus volta a se reproduzir. “O HIV repercute e estabelece um reservatório de células infectadas de forma latente, que não necessariamente produzem o vírus. Queríamos saber se esses reservatórios realmente são mantidos por bancos de células infectadas de longa duração (em repouso) ou se também ocorriam níveis contínuos de multiplicação do vírus”, explica ao Correio Steven Wolinsky, chefe do Departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Northwestern (EUA) e autor principal do estudo.

Ao longo do experimento, os cientistas analisaram células de nódulos linfáticos, um dos locais em que o HIV se esconde, de três pacientes. No processo de acompanhamento da evolução do vírus, perceberam, por meio da detecção de novas mutações genéticas, que os reservatórios estavam sendo reabastecidos pela replicação do patógeno mesmo durante o tratamento. Essas mutações surgem quando o vírus conclui os ciclos de crescimento. “A evolução do HIV só pode acontecer se houver a replicação dele em curso. Todos os três pacientes apresentaram essa característica nas sequências de DNA”, diz Wolinsky.

 

Para os cientistas, a descoberta explica a razão de a Aids ainda não ter cura, já que as doses dos medicamentos usadas atualmente não conseguem alcançar os agentes encobertos da enfermidade. “O estudo realmente muda o que sabemos sobre o comportamento da doença em pacientes tratados. Isso também ajuda a explicar por que algumas estratégias que tentaram limpar o reservatório falharam”, destacou à imprensa Angela McLean, professora na Universidade de Oxford (Reino Unido) e coautora do trabalho. Um dos casos mais famosos nesse sentido é o do bebê do Mississippi, uma criança que, mesmo ficando dois anos sem tomar antirretrovirais, apresentava exames que não detectavam o vírus (Leia Para saber mais).

A equipe ressalta ainda que a descoberta sobre a replicação do HIV nos santuários pode trazer novas possibilidades de tratamento contra o HIV — provavelmente, mais completas e eficazes. “Nós, agora, temos um caminho para a cura. O desafio é ‘entregar’ essas drogas em concentrações clinicamente eficazes nos locais em que o vírus continua a se replicar dentro do paciente”, destacou Wolinsky.

Novos enfoques

Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame, em Brasília, também aposta no surgimento de diferentes possibilidades terapêuticas a partir dos resultados científicos divulgados nesta semana. “Com essas novas informações, os caminhos a explorar consistem em encontrar um jeito de colocar esses vírus para fora dos reservatórios, jogá-los na corrente sanguínea, onde poderiam ser combatidos pelos medicamentos; ou aumentar as doses; ou criar remédios que consigam atingir esses locais mais escondidos”, sugere.

Chebabo destaca que achados como os detalhados pelo grupo internacional de cientistas podem contribuir para uma possível cura da enfermidade. “São passos necessários para que, em algum momento, possamos chegar ao objetivo final. Juntar dados é importante para que surjam novos caminhos, como uma droga ou estratégia para curar pelo menos parte das pessoas que sofrem com esse problema”, diz.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que em torno de 35,3 milhões de pessoas em todo o mundo estão infectadas pelo HIV. Em 2014, o número de contaminados no Brasil era de 734 mil. Resultado da parceria de cientista dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Coreia do Sul e de Portugal, o estudo sobre reservatórios latentes terá continuidade. “Os resultados dessa pesquisa levantam uma série de novas questões e caminhos para a pesquisa que exploraremos”, diz Wolinsky.

 

Para saber mais

 

Curas anunciadas

Em 2010, uma criança prematura nascida no estado do Mississipi (EUA) de uma mãe infectada com HIV recebeu tratamento com antirretrovirais durante 18 meses e, nos dois anos seguintes, apresentou níveis indetectáveis da doença. A condição foi chamada pelos especialistas de cura funcional. O diagnóstico da menina, porém, mudou em 2014. Conforme um estudo feito por cientistas americanos e publicado no The New England Journal of Medicine, a criança, à época com 4 anos, passou a apresentar carga viral no sangue suficiente para confirmar o retorno da doença.

A cura total da Aids tem um registro até hoje, o chamado de paciente de Berlim. Também com leucemia, o norte-americano Timothy Ray Brown (foto) recebeu em 2007 um transplante de medula óssea de um doador que era mais resistente ao vírus HIV, uma característica rara. Com o procedimento, curou-se da infeção. O método, apesar de ter sido eficaz, não pode ser considerado uma grande esperança de tratamento, já que não poderia ser replicado em todos os pacientes soropositivos.

Pesquisadores, principalmente dos EUA, têm se esforçado para repetir os mesmos resultados desse caso de sucesso em macacos, mas ainda não conseguiram chegar perto da cura. Ainda assim, acreditam que a quimioterapia, um dos tratamentos ao qual Brown foi submetido, também poderia ajudar a acabar com a doença.

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