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Correio Braziliense

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Autor de "A droga da obediência", Pedro Bandeira lança livros em Brasília

Escritor vendeu 1,6 milhão de cópias do livro destinado ao público adolescente

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postado em 22/09/2016 12:10

Rubens Romero/Divulgação

 

Pedro Bandeira é um dos autores infantojuvenis mais bem-sucedidos do Brasil quando o assunto é leitura. Publicada em 1984, A droga da obediência vendeu mais de 1,6 milhão de exemplares, e O fantástico mistério de feiurinha ganhou o prêmio Jabuti em 1986. Era uma época na qual os personagens precisavam encontrar telefones públicos e usar moedas se quisessem telefonar. Não havia celulares nem GPS e as emoções eram uma das matérias primas de Bandeira.

Três décadas e mais de 40 livros depois, a preferência dos jovens leitores repousa em temas de ficção científica, literatura fantástica e distopias. Vampiros apaixonados, civilizações destruídas e guerras futurísticas pautam as histórias, mas Pedro Bandeira acredita que é difícil não sucumbir a uma boa narrativa, seja ela ficção científica ou não. “Histórias deste tipo sempre atraíram os jovens. Lembre-se de Júlio Verne, por exemplo. Lembre-se da ficção científica que foi moda durante todo o século 20”, enfatiza.

Até hoje, Bandeira recebe retorno de seus livros e continua encontrando novos leitores. “Felizmente, ao longo dos anos a recepção aos meus livros só faz crescer. Recebo e-mails de leitores que já estão perto dos 40 anos, que dizem ainda hoje amar meus livros, assim como recebo correspondência de meninos de 10 anos”, conta. “As professoras que recomendam meus livros para seus alunos foram minhas leitoras na adolescência. Durante estas mais de três décadas, o carinho que recebo de meus leitores é o oxigênio que ainda me mantém vivo.”

O autor desembarca hoje em Brasília para lançar reedições de algumas de suas obras. Na lista estão Descanse em paz, meu amor, Prova de fogo, Histórias apaixonadas e Alice no país da mentira, que a Moderna reedita para o público jovem. Abaixo, o autor fala sobre adolescência e como escrever para os leitores que estão começando a descobrir o mundo dos livros. “Ou você ama o jovem e acredita na Educação como saída para o futuro, ou jamais poderá escrever uma história para os jovens”, avisa.

A adolescência mudou muito. Qual a maior diferença entre os adolescentes de ontem e de hoje?
Não, a adolescência não muda. Os sentimentos humanos jamais mudam. Veja que as peças de Shakespeare continuam atualíssimas, porque ele não escrevia sobre seu tempo, ele escrevia sobre o amor, sobre o ciúme, a ambição, a inveja, a cobiça, e isso não muda nunca. O mesmo ocorre com os meus livros. Eles tratam dos sentimentos dos jovens, de suas ansiedades, de seus sonhos, de seus medos, de suas esperanças, de suas utopias. Meus livros tornaram-se clássicos porque funcionam como espelhos em que meus leitores veem suas vidas e seus sentimentos refletidos.

Hoje o que mais faz sucesso entre os adolescentes em termos de literatura são histórias fantásticas, de ficção científica, distopias. Você gosta? Por que acha que os adolescentes gostam tanto dessas histórias?
Atualmente, com o progresso acelerado de novas descobertas, a literatura jovem tem recursos muito bons para a criação de aventuras fantásticas. E você pode observar que o fulcro dessas aventuras trata sempre das emoções do leitor: lutas contra o “Mal”, contra as ameaças da vida real, sobre a procura da identidade, usa turminhas jovens, como o grupo do Harry Potter. As aventuras do grupo dos Karas, que eu criei, também envolvem possibilidades fantásticas, como drogas que submetem a vontade das pessoas, a tomada do poder mundial por loucos ditadores e coisas assim. Usar metáforas funciona bem melhor do que retratar a realidade nua e crua.

É preciso ter o irreal para ser atrativo? Qual o lugar e o papel das emoções humanas na literatura para jovens?
Literatura é sempre irreal. Tudo que se cria num livro é simbólico, para servir como espelho para quem lê. Não há livro que não trate de emoções. Mesmo nos livros para crianças, quando um autor mostra uma galinha falando com um pintinho, o pequeno leitor logo imagina que a galinha é sua mãe e que ele é o pintinho da história. Se você escrever a história de um cachorrinho que se perdeu, o leitor logo imaginará que ele poderia estar perdido de sua família como o cãozinho, e roerá suas pequenas unhas de emoção. Meus livros são emoção pura. Num livro juvenil, quando uma personagem como Isabel, de “A marca de uma lágrima” sofre por uma paixão não correspondida, minha leitora imediatamente se sente como a personagem e empresta-lhe suas próprias ilusões. Ou desilusões, não é?

Como faz para se reinventar? Está escrevendo algo? Como lidar com as novas tecnologias na escrita para jovens nos dias de hoje?
Os escritores não se aposentam nunca. A gente fica criando sem parar, embora poucas de nossas novas ideias sigam em frente. Atualmente estou trabalhando em uns poeminhas de humor para os bem pequenos.

Como levar os jovens à leitura em um país no qual se lê tão pouco? Nossa média de leitura ainda é pequena, o senhor não acha?
Ainda é pequena mas já é bem maior do que era há algumas décadas. Ainda que nossos ganhos avancem bem mais devagar do que gostaríamos, temos de reconhecer que muito já avançamos. Para se ter uma ideia desse progresso, acredite que, na minha infância, só havia vagas nas escolas para 30% das crianças! Hoje, há vagas pra todo mundo e as crianças e os jovens já leem mais do que seus pais jamais leram. Acredite no Brasil, por favor!

Qual a importância da leitura na formação do cidadão?
Ora, ora, ora! Não há possibilidade de cidadania, de emprego, de sobrevivência sem o domínio da leitura! Seja no livro, seja na Internet, tudo está escrito. Sem a leitura, não há acesso ao conhecimento e, sem o conhecimento, não há possibilidade de nada no século XXI!

Pode contar como concebeu A droga da obediência? Sobre o que queria falar quando iniciou o livro? Pode falar de onde surgiu o quinteto de “os karas” e o que te inspirou para criá-los?
Fui jornalista nos anos de chumbo da ditadura militar. “A droga da obediência” é uma metáfora à censura que me calou os textos e as palavras nos meus melhores anos: a ditadura começou quando eu tinha 20 anos, e só foi embora quando eu já tinha 40. Fui roubado de todos os meus melhores anos de jovem adulto. Minha velhice é minha desforra!

Por que escolheu os adolescentes como público alvo?
Porque eu acredito na Educação como o único fator de redenção para o Brasil. Eu sonho que esses jovens que hoje me leem podem construir um Brasil melhor do que minha geração ignorante criou.

Lançamento com Pedro Bandeira
Hoje, às 20h na Livraria Cultura Casapark Shopping

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