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Educação para o futuro

Evento internacional em São Paulo reuniu estudantes, professores e especialistas para discutir mudanças no ensino básico e transformações que devem ser feitas para formar melhores cidadãos e uma mão de obra mais competente

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postado em 09/04/2017 16:23

Luciana Serra

A educação de qualidade é construída desde a base: a escola é um local crucial para a formação de profissionais e cidadãos melhores. Para atender às necessidades da sociedade tecnológica atual, métodos de aprendizagem devem estar em constante evolução. É esse o foco do seminário internacional de ensino inovador Transformar, organizado anualmente desde 2013 pelos institutos Península e Inspirare/Porvir e pela Fundação Lemann. A quarta edição foi na última terça-feira (4), em São Paulo, e reuniu mais de 800 convidados, entre estudantes, professores, especialistas e representantes de colégios e projetos.



Casos de sucesso e soluções aplicadas no país e no exterior foram apresentadas para inspirar transformações. “Nesta edição, o objetivo era estimular e dar referências aos profissionais da educação, 50% do público do evento, para que eles consigam arregaçar as mangas e fazer a mudança acontecer”, explica Anna Penido, diretora-executiva do Instituto Inspirare/Porvir. “Mostramos coisas que funcionam, não apenas ideias. Se conseguiram aplicar essas técnicas em outros países, dá para fazer aqui”, prevê Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann.

As transformações na educação, das quais trata o seminário, impactam o mercado de trabalho. “As escolas sabem que precisam mudar para formar trabalhadores mais qualificados, porém, muitas vezes, não sabem o caminho”, percebe Ana Maria Diniz, presidente do Conselho do Instituto Península, braço social da empresa de investimentos Península Participações.

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Assista à palestra de encerramento no site transformareducacao.org.br.

Além da vida acadêmica


Competências socioemocionais (como empatia, expressão, propósito e autoconhecimento) foram um tema de destaque no seminário. “É preciso ter contato com conhecimentos sobre as habilidades exigidas para o século 21 durante a educação básica para conseguir aplicá-las na vida”, avalia o diretor da unidade municipal da rede de escolas Valor Collegiate Academies nos Estados Unidos, Travis Commons. Ele desenvolveu o sistema Compass, que promove reuniões semanais entre estudantes e professores para o desenvolvimento dessas habilidades. O programa também surtiu efeitos acadêmicos: alunos das duas escolas que adotaram o método, no Tennessee, apresentam os maiores índices de aprendizagem da região.

Para Rachel Powers, representante do distrito de escolas públicas de Seattle, nos Estados Unidos, tão importante quanto aprimorar capacidades é incitar no estudante a compreensão de que ele é um agente de transformação. Os colégios da região que utilizam o método Ruler, criado por estudiosos da Universidade de Yale, se apropriam de uma abordagem diferente para lidar com o cotidiano dos pupilos. “Com a técnica, os estudantes conseguem compreender melhor e expressar os próprios sentimentos”, explica. “Nós queremos quebrar discursos como ‘ele me deixou bravo’ ou ‘eu estava chateado, então não é minha culpa’. A escola é o local para formar adultos preparados para o futuro”, analisa Rachel.

A voz dos jovens

Pela primeira vez, estudantes ganharam papel de destaque no seminário Transformar. “Trata-se de um convite para que a educação seja construída a partir da escuta dos principais interessados”, pondera Anna Penido, diretora executiva do Instituto Inspirare/Porvir. Cinco jovens, cada um de uma região do país, ficaram responsáveis por apresentar pesquisas realizadas sobre o ensino brasileiro: Cecília Azevedo, 16 anos, de São Paulo; Débora Pessoa, 18, do Ceará; Arthur Rezende, 16, do Pará; Ana Clara Nunes, 14, do Paraná; e Derivaldo Costa Júnior, 19, de Goiás.

Na opinião dos cinco adolescentes, a escola ideal deve reunir um ambiente escolar adequado, métodos pedagógicos inovadores e instigantes, além de interação com a comunidade. “O ambiente escolar também deve promover espaços que deem voz ao aluno porque, assim, conseguiremos aprender o que é ser cidadão e realmente participar da sociedade”, acredita Cecília Azevedo, aluna da Escola Nossa Senhora das Graças, instituição particular em São Paulo, e participante do grupo feminista do colégio, o Não sou uma gracinha, e do grêmio estudantil. Ana Clara Nunes, do Colégio Estadual do Paraná, concorda. “A gente não quer ser formado para ser robô. Queremos uma educação libertadora que incentive o senso crítico e o pensamento próprio”, afirma a jovem engajada com o movimento estudantil.

Geração preparada

Os temas escola sustentável e as novas formas de aprendizagem foram abordados na palestra da professora Nicola Unite, da Green School, instituição de ensino localizada em Bali, na Indonésia. A australiana tem desenvolvido, com alunos e a comunidade, um novo conceito de infraestrutura escolar, que engloba contato total com a natureza e aprendizado por meio da prática. “Nós olhamos para a ilha de Bali e o ambiente em que estamos inseridos e pedimos que os estudantes criassem soluções ecológicas para os problemas que enfrentamos e, a partir daí, encontramos oportunidades de ensino”, relata.

A escola, completamente feita de bambu, desenvolve nos estudantes o cuidado com a natureza e consigo mesmos. “Existe uma grande diferença porque, a partir do momento em que não exigimos que os jovens fiquem sentados oito horas por dia, nós incentivamos que eles nos questionem o tempo inteiro e intercedam pelo próprio conhecimento”, garante Nicola.

Projetos inovadores também existem no Brasil. A gamificação do ensino foi a aposta do professor Greiton Toledo de Azevedo, que leciona matemática na Escola Municipal Irmã Catarina Jardim Miranda, em Goiânia. Ele criou o projeto Mattics, em que as crianças desenvolvem games. “A educação não deve se limitar ao currículo”, acredita Greiton. A proposta foi tão eficaz que os jovens estão criando plataformas para servir como base para o tratamento de pacientes com mal de Parkinson, com auxílio da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Para Gonzalo Frasca, professor na Universidade ORT, no Uruguai, aproximar a educação curricular das ferramentas tecnológicas prepara os jovens para o futuro. “Conectar vários conhecimentos é uma forma de engajar os estudantes”, percebe.

* A estagiária, sob supervisão de Ana Paula Lisboa, viajou a convite do Instituto Península