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Dicas de português

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postado em 30/08/2012 08:00 / atualizado em 30/08/2012 15:11

Dad Squarisi /Correio Braziliense

dadsquarisi.df@dabr.com.br

Recado

"Entre todos os homens, o romancista é o que mais  se assemelha a Deus. Ele copia Deus.”
François Mauriac

O pomo da discórdia
Redatores e revisores nem sempre se entendem. Volta e meia, uma correção vira um pega pra capar. Uns e outros medem forças. Cada um quer provar que está certo. O pomo da discórdia mais recente é o verbo apontar. Sempre que aparecem frases como “a pesquisa aponta que haverá empate técnico’, arma-se baita confusão. “Apontar não aceita a conjunção que”, explicam os guardiões da língua. “Aceita’, batem pé os profissionais que ganham o pão deles de todos os dias escrevendo, escrevendo, escrevendo.

A revista Nova Escola jogou gasolina na fogueira. Eis a manchete de capa: “Estudo aponta que curso a distância que mais cresce no país tem os mesmos problemas do ensino

presencial”. Ops! E daí? A edição deu uma bola dentro. A distância, quando indeterminada, não aceita crase. O acentinho só tem vez com a distância especificada (falou à distância de 100m). Mas tropeçou no apontar. Ele não joga no time dicendi — o dos verbos que falam e dizem.


Verbo dicendi
O Houaiss define o verbo dicendi deste jeitinho: “Verbo dizer e sinônimos ou afins, cujo objeto direto é uma oração substantiva que exprime o conteúdo de um ato de fala”. Cita dois exemplos: João disse que vai viajar. Maria declarou estar doente.

Guarde isto: o dicendi exprime o conteúdo de um ato de fala. Além de dizer e declarar, pertencem ao time falante: afirmar (afirmou que sairia), responder (respondeu que conhecia os réus), negar (nega que tenha participado do crime), pedir (pediu que saíssem mais cedo), solicitar (solicitei que me encaminhassem o documento), rogar (rogou que estudassem um pouco mais), ordenar (ordenamos que partissem mais cedo), mandar (mandou que os estudantes fossem à biblioteca), jurar (jurou que era inocente).


Vamos combinar?
O apontar não se refere à fala de ninguém. Com ele, a conjunção que quer distância. Vade retro, satanás!

Olho vivíssimo
Verbo dicendi aceita a conjunção integrante (que, se): disse que, afirmou que, mandou que, pediu que, perguntou se, indagou se. Alguns verbos não são “de dizer”, mas “de sentir” (gemer, suspirar, lamentar, queixar-se, explodir). Expressam emoção, estado de espírito, reação psicológica. Devem ser empregados no discurso direto, antepostos ou pospostos à declaração. Eles rejeitam a conjunção integrante: “Estamos perdidos”, gemeu o mensaleiro. Gemeu o mensaleiro: “Estamos perdidos”. (Nunca se dirá “O mensaleiro gemeu que estava perdido”.)

Queísmo
Certos verbos sofrem de alergia. Ficam vermelhos, empolados e com coceira quando seguidos do quê. Transitivos diretos exigem objeto direto nominal, mas não aceitam a oração objetiva direta. Veja alguns: alertar (alerta-se alguém, mas não se alerta que); antecipar (antecipa-se alguma coisa, mas não se antecipa que), definir (define-se alguma coisa, mas não se define que), denunciar (denuncia-se alguma coisa ou alguém, mas não se denuncia que), descrever (descreve-se alguma coisa, mas não se descreve que), expor (expõe-se alguma coisa, mas não se expõe que), falar (fala-se de alguém ou de alguma coisa, mas não se fala que), indicar (indica-se alguma coisa ou alguém, mas não se indica que), lamentar (lamenta-se alguma coisa, mas não se lamenta que).

Ufa!

Leitor pergunta

O Correio Braziliense escreveu: “Müller Pereira reprovou duas vezes o primeiro ano do ensino médio, mas afirma que agora está levando os estudos mais a sério”. Valha-me, Deus! Não sabia que aluno pode reprovar. Pode?

Sílvio Salvador, Brasília

Nalguns casos, pode, Sílvio. Ele pode reprovar o comportamento do irmãozinho, reprovar a trapaça do jogador, reprovar a reação do colega. Viu? Em todos, o aluno é sujeito. Pratica a ação expressa pelo verbo.

Mas, no exemplo que você citou, ele não pratica a ação de reprovar. Sofre-a. Em vez de agente, será paciente da ação. Compare: O professor (agente) reprovou o aluno (paciente). O aluno (paciente) foi reprovado pelo professor (agente).

Reparou? Na voz ativa ou passiva, o rei mantém a majestade. Em bom português: o professor reprova. O aluno é reprovado.

 

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