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Dicas de português

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postado em 01/05/2013 18:00 / atualizado em 01/05/2013 11:11

Dad Squarisi /Correio Braziliense

Recado
“O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.”
Albert Einstein

 

Trabalhadeiras e boas-vidas
A língua imita a vida. No mundo das palavras ou no mundo dos homens, existem dois grupos de criaturas. Um trabalha. Cumpre horário, dá duro, concretiza as tarefas. O outro fica no bem-bom. Cultiva o faz de conta. Anda, telefona, toma cafezinho, espera o tempo passar. Em suma: o primeiro faz agora o que pode fazer depois. O segundo deixa pra amanhã o que pode fazer hoje. Se puder, pra depois de amanhã. Se der no jeito, deixa pra lá.

Vocábulos agem do mesmo jeitinho. Há os que se viram. Flexionam-se pra facilitar a vida do falante. Também há os que não estão nem aí. Deixam a bomba na mão de auxiliares ou do receptor — quem lê e quem escuta. Lidar com eles remete a velho provérbio popular: “Pra vencer o diabo, recorra a todos os demônios”. Vamos lá?

Não estou nem aí
A maior parte dos substantivos dá duro. Garoto serve de exemplo. Varia o gênero (garota), o número (garotos), o grau (garotinho). Mas há os que não estão nem aí. Ônibus, lápis, bônus mantêm-se invariáveis. Masculino, feminino, singular e plural — com eles é tudo igual.

Turma do sem
Ganhar o pão com o suor do trabalho? Valha-nos, Deus. Melhor dar asas às pernas. Como? Criativa, a língua oferece saídas. Uma delas: aliar-se ao monossílabo sem. Com ele é sem-sem-sem-sem — sem masculino, sem feminino, sem singular, sem plural. Assim: o sem-terra, a sem-terra, os sem-terra, as sem-terra; o sem-emprego, a sem-emprego, os sem-emprego, os sem-emprego; o sem-teto, a sem teto, as sem-teto, os sem-teto.

Cores malandras

Há cores malandras de nascença. Desde que vieram ao mundo, negam-se a mover uma palha. É o caso da turma do azul. Os casaizinhos azul-marinho, azul-celeste e azul-ferrete se fazem de mortos. Em qualquer circunstância, conservam a forma. Assim: blusa azul-celeste, blusas azul-celeste, tecido azul-celeste, tecidos azul-celeste; vestido azul-ferrete, vestidos azul-ferrete, bolsa azul-ferrete, bolsas azul-ferrete; sapato azul-marinho, sapatos azul-marinho, saia azul-marinho, saias azul-marinho.

Invejosas

“Inveja mata”, dizem os psicólogos. Com razão. Pra não dar chance ao azar, impõe-se prevenir. É o que fizeram certas cores. Loucas pra deitar na sombra e banhar-se na água fresca, as sabidonas lançaram mão de brincadeira pra lá de conhecida. Trata-se do esconde-esconde. Elas ocultam um pedacinho de si. Mas ele não some. Conta como se estivesse expresso.

Quem é? Quem é? Acertou. É o trio da cor de. Ele se faz de morto. Mas está vivinho da silva. Observe a artimanha: vestido (da cor da) rosa, vestidos (da cor da) rosa; calça (da cor da) laranja, calças (da cor da) laranja; terno (da cor da) cinza, ternos (da cor da) cinza; sapato (da cor da) cereja, sapatos (da cor da) cereja.

Superdica
Cor-de-rosa se escreve com hífen. Cor de laranja dispensa o tracinho. Por quê? Trata-se de arte da reforma ortográfica. A lei cassou o hífen dos compostos de três ou mais palavras ligadas por preposição, conjunção, pronome. Daí por que pé de moleque, tomara que caia, mão de obra, bicho de sete cabeças ficam assim — soltas, sem lenço nem documento.

Exceção? Há duas:

1. compostos que pertencem ao reino animal ou vegetal escaparam da tesourada: joão-de-barro, cana-de-açúcar, castanha-do-pará, castanha-do-brasil, bicho-de-pé.

2. palavras referidas como exceção no texto da lei: cor-de-rosa, água-de-colônia, pé-de-meia (poupança).

Leitor pergunta
Sabe-se que o “você”, pessoa com quem se fala, exige o verbo na 3ª pessoa. Por que razão? O verbo deveria ser flexionado na 2ª. Como fica a cabeça do aprendiz?

Simão Guimarães, Brasília

A língua, Simão, tem mistérios que o próprio falante desconhece. Um deles é o você. Ele pertence à equipe dos pronomes de tratamento como Vossa Excelência, Vossa Majestade, Vossa Senhoria. Quando nasceram, eles tinham uma função — evitar que a criatura falasse diretamente com o rei. Quando o súdito dizia Vossa Majestade, não se dirigia ao rei. Dirigia-se à majestade do rei.

O mesmo ocorre com os irmãozinhos. Entre os quais, você. Quando veio ao mundo, o dissílabo tinha duas palavras — Vossa Mercê (graça, favor). Assim, embora pertença à segunda pessoa (o ser com quem se fala), exige o verbo na 3ª porque se refere à mercê do ouvinte ou leitor. 

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