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Dicas de português

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postado em 28/08/2013 12:23

Dad Squarisi /Correio Braziliense

Recado

“Há pessoas tão chatas que nos fazem perder um dia em cinco minutos.”
Jules Renard

Qual é a do senador fujão?


Roger Pinto Molina é senador fugitivo ou fugitivo senador? A questão ocupa as redações desde domingo. O homem é senador. Pediu asilo ao Brasil. Depois de 455 dias à espera de salvo-conduto pra deixar La Paz, caiu fora. Em operação nebulosa, atravessou o território do país vizinho e entrou no brasileiro. O governo boliviano divulgou nota na qual chama o atrevido de fugitivo.
Daí a questão: ele é senador fugitivo ou fugitivo senador? A dúvida se explica. As palavras são infiéis por natureza. Mudam de classe gramatical como nós mudamos de roupa ou de penteado. Verbo vira substantivo, substantivo vira adjetivo, adjetivo vira advérbio, advérbio vira sabe lá o quê.


 (Marc Ferrez/Divulgação) 


Vira-casacas


Machado de Assis conhecia as artimanhas da língua. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, escreveu: “Não sou um autor defunto, mas um defunto autor”. O trocadilho deu nó nos miolos dos leitores. Parecia quebra-cabeça. O que o homem quis dizer com a brincadeirinha?
A resposta está na colocação das palavras na frase. Pela índole da língua, o substantivo vem na frente do adjetivo. Na pegadinha, Machado lançou mão desse conhecimento. Tradução:
Não sou um autor (substantivo) defunto (adjetivo) = não sou um escritor que morreu. Em outras palavras: não sou uma pessoa que escreveu a obra em vida.
Sou um defunto (substantivo) autor (adjetivo) = sou um escritor que escreveu a obra na outra vida, depois de morto. Como? Ah, essa é outra história. Melhor ler o livro.

De volta ao boliviano

E daí? A língua é farta de exemplos semelhantes ao de Machado: menino homem, homem menino, mulher cobra, homem aranha. E por aí vai. São dois substantivos. Um funciona como adjetivo. Qual? O segundo:
Menino (substantivo) homem (adjetivo) = criança que se comporta como adulto.
Homem (substantivo) menino (adjetivo) = homem de comportamento infantil.
Mulher (substantivo) cobra (adjetivo) = mulher que tem características de ofídio.
Homem (substantivo) aranha (adjetivo) = homem cujas habilidades se parecem às de aracnídeo.

Resumo da opereta

Roger Molina é senador (substantivo) fugitivo (adjetivo). Ele era excelência no parlamento boliviano. Caiu em desgraça. Cobra criada, deu no pé. Quem pagou a conta? O ministro das Relações Exteriores do Brasil. Antônio Patriota perdeu o posto. Acusação: quebra de hierarquia.

Chefe é chefe

Diplomata e militar têm características comuns. Uma delas: a hierarquia. Ela vem de hierós, que quer dizer sagrado, santo. A greguinha goza de senhor status. Desde que nasceu, carrega a ideia de dignidade, ordem e subordinação entre sacerdotes, anjos e poderes. O domínio de cada um é pra lá de delimitado. Jeitos de dizer traduzem com clareza o lugar de autoridades ou nem tanto. É o caso de chefe é chefe, cada macaco no seu galho, olhe com quem está falando. Etc. e tal.

Olha o Millôr


“Nunca conheci ninguém que falasse duas línguas. Cada palavra, nuance ou ritmia que se aprende numa língua se perde na outra. Como dizia Shaw: ‘Nenhum homem realmente capaz na própria língua se interessa em dominar outra’”.

Leitor pergunta


Existe adjetivo sobrecomum? Por exemplo, canadense, fluminense, cearense? Sim, não dizemos canadenso, canadensa. Mas dizemos brasileiro, brasileira.
Paulo Oliveira, Knoxville (Tennessee, EUA)

Substantivos e adjetivos jogam em times diferentes. Nome com a mesma forma para feminino e masculino pode ser comum de dois se a companhia denunciar os gêneros (o estudante, a estudante) ou sobrecomum se não houver diferença (a vítima, seja homem, seja mulher).
Os adjetivos não têm essa classificação. Brasileiro e brasileira, francês e francesa, bonito e bonita são metidos que só. Fazem questão de marcar o feminino e o masculino. Flamenguista, canadense, cearense não estão nem aí. Servem a um e a outra sem variar: Paulo é cearense e flamenguista. Maria é carioca e botafoguense.
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