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LITERATURA »

Poesia de traje a rigor

Antologia reúne, em livro de bolso, sonetos de 15 poetas de Brasília e promete resgatar a força e a beleza do gênero

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postado em 17/02/2014 16:00

Vanessa Aquino

Anderson Braga Horta participa da antologia com 10 sonetos e divide espaço no livro com os pais: Anderson de Araújo Horta e Maria Braga Horta  (Gustavo Moreno/CB/D.A Press - 8/9/11 ) 
Anderson Braga Horta participa da antologia com 10 sonetos e divide espaço no livro com os pais: Anderson de Araújo Horta e Maria Braga Horta


Os sonetos são poesias com estrutura muito particular: 14 versos medidos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos — com rimas ou não. O nome sugere musicalidade de pequenas canções. Em Brasília, alguns poetas conseguiram (e conseguem) cultivar o gênero, seguindo a tradição italiana e ibero-americana dos versos decassílabos. Reuni-los em um único livro, no entanto, significou um desafio para o poeta e crítico literário João Taveira, que precisou se limitar a 15 autores no momento de produzir o Sonetos de Bolso — antologia poética. “O propósito é muito simples. É facilmente demonstrado que o soneto continua firme e forte. Poetas tentaram abandonar a forma fixa, mas a geração de 45 recuperou o soneto”, diz Taveira, que divide a organização do livro com o ensaísta Jarbas Júnior.


A história e consolidação do soneto na Europa impulsionou a produção no Brasil. A forma rigorosa atraiu romancistas, poetas parnasianos e simbolistas. “No generoso ambiente tropical brasileiro, desde o período do barroco literário, tivemos talentosos cultores, a partir do surpreendente e inquieto Gregório de Mattos Guerra. Em seguida, Basílio da Gama, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto, Gonzaga cultivaram o gênero. E serviu-se dele também, com exuberante brilho camoniano, o exímio sonetista Cláudio Manoel da Costa”, lembra Jarbas Junior.

Formato

A ideia do livro de bolso surgiu quando o autor percebeu que, em Brasília, publicam-se poucos livros no formato. Por isso, pretende expandir a publicação do formato para outros gêneros, como conto e crônicas. “Depois que terminei o livro, outros autores apareceram, mas não havia mais espaço e, por isso, estamos pensando em fazer uma continuação do Sonetos, além de trazer contistas, cronistas e romancistas." Para ele, os poetas contemporâneos, no entanto, preferem os versos livres e é com a frase “o soneto é o traje a rigor do pensamento”, do poeta brasileiro Paulo Bonfim, que Taveira argumenta que é preciso resgatar o vigor do estilo.


Em alguns aspectos, o modernismo, segundo Jarbas Junior, foi uma escola literária que contornou o soneto sem aprofundar a questão. “Não havia nada a refutar e combater diante de uma composição poética de imortal vitalidade em várias, pujantes e prósperas literaturas de mérito indelével indiscutível.” Sobre a forma, Jarbas Junior diz que ela é mais uma moldura para o conteúdo. “A arte do soneto depende mais do conteúdo, enquanto a forma básica representa a moldura áurea para o quadro de origem clássica.”


Entre os nomes que compõem a antologia — Anderson Braga Horta, Anderson de Araújo Horta, Antônio Miranda, Antônio Timóteo dos Anjos Sobrinho, Fernando Mendes Vianna, Henriques do Cerro Azul, José Geraldo Pires de Mello, José Jeronymo Rivera, José Peixoto Júnior, Luiz Carlos de Oliveira Cerqueira, Márcio Catunda, Maria Braga Horta, Nilto Maciel, Romeu Jobim e Viriato Gaspar —, uma única mulher: Maria Braga Horta. O motivo da participação de apenas uma representante feminina se deve ao fato, segundo Taveira, de que as mulheres da capital federal não praticarem soneto. “Livros foram consultados à procura dessa forma fixa de poesia na voz feminina do Planalto, e a busca foi vã. Quem sabe numa próxima reunião não apareçam nomes de mulheres que procuram dar continuidade ao exercício que fez a fama de Francisca Júlia, Cecília Meireles, Gilka Machado, por exemplo.”

 

 (Thesaurus Editora/Reprodução ) 
 

Sonetos de Bolso — antologia poética
De Jarbas Junior e João Carlos. Thesaurus, 200 páginas. R$, 20.
Lançamento; dia 19, a partir das 18h30, no Carpe Diem da 104 Sul.

 

» Inspiração brasiliense

 

Anderson Braga Horta
» O Deus que chora
Baldado é perguntar. Na andina altura,
Surdos, os megalíticos ouvidos
Nada entendem. Se entendem, pétrea, a boca
Mastiga as flores mudas do mistério.

É o Deus que Chora. Inútil despertá-lo,
Se desperto sempre é, petrificado
Exibe a face obscura do segredo.
Dentro incaico não é, pois mais: humano.

Baldado é perguntar, porque a resposta
na pedra está, mais treva que o silêncio.
Não nos porpõe esfíngico dilema,

Senão que lhe bebamos a mensagem,
O Grande Deus de cujo olhar escorrem
As cabeças dos filhos decepadas.


Anderson de Araújo Horta
» Soneto
A minha musa era risonha e franca
Como o sorriso da mulher amada,
Que põe na cama fria, neutra, branca,
As cores e a invenção da madrugada.
Um dia a porta amanheceu fechada
A sete chaves, taramela e tranca:
Via-se que fugiu pela sacada
Como vulgaríssima saltimbanca.

Depois pareceu-me vê-la no mar
Arrastada por absurda fragrância.
Imensamente. Loucura. Loucura.

Perdida a medida de sua ausência,
Por igual o sentido da procura.
Caiu como chuva em qualquer lugar.

José Geraldo Pires de Melo
» Poente
Luz vacilante, luz mortiça e fria,
Pobres cintilações do Sol poente,
Que em sua trajetória decadente
Se esvai, envolto em sombras e agonia…

Soam mensagens vagas… Certamente,
Essas vozes distantes, desoladas,
Companheiras de velhas caminhadas,
Povoam meu passado e meu presente…

A luz declina… Estrelas apagadas…
A névoa espessa me atormenta, e acena
Co’a imagem de esperanças malogradas…

Amanhã há de ser um outro dia…
Sinto um vazio… a noite é quase plena…
Desconsolo… Incerteza… Nostalgia…

Maria Braga Horta
» Lirismo
Fale um outro poeta mais austero
De temas, em geral, de alto horizonte,
Ou imite Camões, Virgílio, Homero,
Buscando a inspiração em nobre fonte.

Que eu não tento transpor tão longa ponte
E penetrar num mundo tão severo.
Como Kháyyám, Gonzaga e Anacreonte,
Só canto o amor, só dele a glória espero.

> Esta legenda
vem na fronte do poeta e é como prenda
que lhe fazem as musas do batismo.

Desse prêmio, porém, não tive a parte,
e me faltando enredo, engenho e arte,
falo de amor no mais banal lirismo.

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