SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

EDUCAÇÃO »

Um abraço pela literatura

Comunidade protesta contra a paralisação das obras de reforma da Biblioteca Demonstrativa de Brasília. Prestes a completar 45 anos, o lugar, que recebia 1,5 mil pessoas por dia, está fechado há um ano

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 07/05/2015 10:16 / atualizado em 07/05/2015 10:27

Bruno Costa

Antonio Cunha
A solidão que vive a Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB) Maria da Conceição Moreira Salles foi quebrada, ontem, por alguns minutos. Mais de 80 moradores do Plano Piloto, amantes da literatura e apaixonados por livros, deram um abraço simbólico no prédio, na 506/507 Sul, em protesto, segundo eles, à inércia das prometidas obras de revitalização do lugar. Há um ano a biblioteca está fechada. Acostumada a receber cerca de 1,5 mil frequentadores por dia, ela já não desempenha as suas funções: basear pesquisas; ajudar na coleta e no tratamento de informações; propagar o conhecimento, a cultura, a educação e o lazer; além de proporcionar inclusão social e fortalecer a cidadania.

A interdição foi em 6 de maio de 2014. Um laudo da Defesa Civil apontou problemas na estrutura — a marquise estava desabando, não tinha água potável e a rede elétrica também não funcionava. Na época, a gestão do lugar estava com a Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Em agosto do ano passado, foi feito um contrato de “execução emergencial” para as obras. Entretanto, durante o processo, houve trocas institucionais de comando e a biblioteca acabou nas mãos da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), do Ministério da Cultura (MinC).

O embróglio atrasou as obras, que estão paradas, e o prazo expirou em janeiro deste ano. Foram gastos R$ 483.228,66. Em nota, o MinC afirmou que contratará serviços especializados em vistoria para checar o que foi realizado no prédio. Se for preciso, fará nova licitação para dar continuidade aos reparos. “Todos os esforços estão sendo realizados para a recuperação do espaço, o restabelecimento dos serviços e a devolução desse patrimônio cultural aos brasilienses”, diz trecho da nota.

A biblioteca completará 45 anos em 20 de novembro deste ano. Faz parte dos 55 anos de Brasília e da vida de muitos moradores da capital. O arquiteto aposentado Tancredo Maia Filho, 68 anos, viveu praticamente a vida toda na 706 Sul. E por quase quatro décadas fez visitas frequentes à Biblioteca Demonstrativa. Levava o filho, à época com 10 anos, e hoje lamenta não poder fazer o mesmo com a neta Letícia Maia, 6. Antes de interditarem o local, a menina era uma das presenças diárias na Gibiteca da BDB. “Foi um baque. Chegamos aqui e estava fechada. Tudo bem que precisa de reparos, mas o descaso deixou chegar a esse ponto de ter de fechá-la por falta de manutenção. Lamentamos muito”, afirmou. Letícia nem se lembra mais do último livro que pegou. “Gostava muito”, resume a menina, que também participou do protesto de ontem.

Célia Rabelo, 50, é musicista e trabalhou boa parte da carreira dentro da BDB. Ela lembra dos projetos musicais realizados durante a semana, logo nas primeiras horas da manhã. “Às 7h30, já estávamos com os instrumentos afinados”, recorda-se. Inclusive, essa era mais uma das vantagens da biblioteca. Era a única de Brasília que funcionava de 7h30 às 23h. “Tínhamos a Bibliomúsica, o Trilha Sonora, a Terça Literária, mas não existe mais nada. A gente não perdeu o emprego, trabalhamos em outros lugares, mas a perda é muito maior. Sentimos, principalmente, pela comunidade, que tinha uma participação muito forte”, declarou Célia.

Perdas
Para o casal Elício Pontes, 74, e Olívia Maria Maia, 61, a literatura é, de fato, um caso de amor. Foi por meio dela que se conheceram. A escritora era frequentadora assídua da BDB. Já o professor da Universidade de Brasília (UnB) e poeta travava, nas salas de aula, a batalha de incentivo à leitura. “Achamos que biblioteca fechada é um abuso”, explicou Olívia. “Sei o valor da leitura na formação das pessoas”, emendou Elício.

Segundo o presidente da Sociedade dos Amigos da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, Mauro Mandelli, a interdição foi por justa causa, mas as obras precisam ser concluídas para que os serviços sejam restabelecidos. “Temos aqui mais do que uma biblioteca, um instrumento de empréstimo de livros. Temos serviços voluntários de tira-dúvidas para estudantes, há programa de atualização da mulher, projetos musicais, um monte de coisa que está parada. Mas acreditamos que teremos uma resposta”, afirma, otimista. Ainda segundo Mandelli, a biblioteca guarda aproximadamente 60 mil títulos e mais de 130 mil volumes de livros.

publicidade

publicidade