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Dicas de português

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postado em 22/07/2015 11:28

Recado
“O sotaque do país em que se nasce permanece no espírito e no coração assim como na linguagem.”
La Rochefoucauld

Crase 1
 
Há assuntos e assuntos. Alguns aparecem de vez em quando. Aí, pintou a dúvida? Basta uma consultinha e ela se vai. Vale o exemplo do hífen. Não é todos os dias que escrevemos infraestrutura. Ao fazê-lo, se surgir a interrogação, o dicionário tem a resposta na ponta da língua. Mas certos temas estão sempre presentes. É o caso da vírgula e da crase. Elas aparecem em qualquer texto e em mil e uma ocasiões. Daí a importância de dominar-lhes o emprego. O sinal de pontuação foi assunto das três colunas anteriores. Chegou a vez do acento grave. Abram-lhe alas.
 
Sem humilhação
 
Ferreira Gullar disse que a crase não foi feita pra humilhar ninguém. Pode ser. Mas que dá nó nos miolos, isso dá. Como desatá-lo? É fácil como andar pra frente.
 
Primeiro passo: desvendar o segredo do acentinho
 
Crase é como aliança no dedo esquerdo. Avisa que estamos diante de ilustre senhora casada. A preposição a se encontra com outro a. Pode ser artigo ou pronome demonstrativo. Os dois se olham. O coração estremece. Aí, não dá outra. Juntam os trapinhos e viram um único ser.
 
Segundo passo: descobrir se existem dois aa
 
Para que a duplinha tenha vez, impõem-se duas condições. Uma: estar diante de uma palavra feminina. A outra: estar diante de um verbo, adjetivo ou advérbio que peçam a preposição a:
 
Vou à escola das crianças.


O verbo ir pede a preposição a (a gente vai a algum lugar).
O substantivo escola adora o artigo (a escola das crianças).
Resultado: a + a = à
*
João é fiel à namorada.
O adjetivo fiel reclama a preposição a (a gente é fiel a alguém).
Namorada se usa com artigo (a namorada de João).
Resultado: a + a = à
*
Relativamente à questão proposta, nada posso informar.
O advérbio relativamente exige a preposição a (relativamente a alguém ou a alguma coisa).
Questão pede o artigo a (a questão ainda não tem resposta)
Resultado: a + a = à
 
Terceiro passo: recorrer ao macete
 
Na dúvida, peça ajuda ao tira-teima. Substitua a palavra feminina por uma masculina. (Não precisa ser sinônima.) Se no troca-troca der ao, é crase na certa:
 
Vou à escola. Vou ao clube.
João é fiel à namorada. Carla é fiel ao namorado.
Relativamente à questão, nada posso fazer. Relativamente ao problema, nada posso fazer.
 
Vale a pergunta. Se é tão simples, por que tantos tombam tanto? Acredite. A resposta está no artigo. Nossa dificuldade não reside na preposição, mas no saber se aparece artigo ou não. É o caso de nome de cidades, estados, países ou pessoas, dos pronomes possessivos, de palavras repetidas. E por aí vai. Hoje ficamos com o primeiro caso. A próxima coluna se encarrega dos demais.  
 
O xis da questão
 
Vou a Brasília? Vou à Brasília? Fui a Paraíba? Fui à Paraíba? Ia a França? Ia à França? Eta dor de cabeça! Cidades, estados e países são cheios de caprichos. Ora dão vez ao grampinho. Ora não. No aperto, a gente chuta. O resultado é um só. A Lei de Murphy, gloriosa, pede passagem. O que pode dar errado dá.
 
Como safar-se? Há saídas. Uma delas: seguir o conselho dos políticos. “Para vencer o diabo”, dizem eles, “convoque todos os demônios.” Um demoniozinho se chama troca-troca. Construa a frase com o verbo ir. Depois, substitua o ir pelo indiscreto voltar. Por fim, lembre-se da quadrinha:
 
Se, ao voltar, volto da,
crase no a.
Se, ao voltar, volto de,
crase pra quê?
 
Viu? O da – casamento da preposição de com o artigo — denuncia a presença do a. Vamos ao tira-teima:
 
Volto de Brasília.
Se, ao voltar, volto de, crase pra quê? Sem artigo, nada de crase:
Vou a Brasília.
*
Voltei da Paraíba.
Se, ao voltar, volto da, crase no a. O artigo dá a vez ao acentinho:
Vou à Paraíba.
*
Ia a França.
Se, ao voltar, volto da, crase no a. Com artigo, vem grampinho:
Ia à França.
 *
Na primeira viagem, vou a Lisboa, a Paris e a Viena. Na segunda, a Londres e a Roma dos papas. Na última, a Madri das touradas e a Brasília de JK.
 
Eta mistura! Volto de Lisboa, de Paris e de Viena. Volto de Londres e da Roma dos papas. Volto da Madri das touradas e da Brasília de JK.
Na primeira viagem, vou a Lisboa, a Paris e a Viena. Na segunda, a Londres e à Roma dos papas. Na terceira, à Madri das touradas e à Brasília de JK.
 
Leitor pergunta
Pé-frio tem feminino? Tem plural?
Nariman Chaim, São Paulo

Pé-frio é pão-duro. Tem plural, mas poupa no feminino: Ele é pé-frio. Ela é pé-frio. Eles são pés-frios. Elas são pés-frios.

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