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Correio Braziliense

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A arte de escrever

Em plena era digital, a escrita cursiva tem sido relegada a segundo plano. Mas, por questões diversas, muitas são as pessoas que encontram na caligrafia a solução para vários problemas, até de saúde. E de forma prazerosa

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postado em 06/08/2015 12:49 / atualizado em 06/08/2015 12:51

Manoela Alcântara


Fátima Montenegro ensina caligrafia há 21 anos:
 

 

Fátima Montenegro ensina caligrafia há 21 anos: "A escrita é uma forma de expressão"


Thaís Maya e os filhos, Pedro e Luiza, fizeram aulas de caligrafia e já computam os ganhos que tiveram (André Violatti/Esp. CB/D.A Press)
 

 

Thaís Maya e os filhos, Pedro e Luiza, fizeram aulas de caligrafia e já computam os ganhos que tiveram



Basta deslizar o dedo na tela de um celular para a palavra aparecer escrita. As teclas do computador ou as letras do tablet são os instrumentos usados para formar textos, e-mails, recados, mensagens. A caneta, o lápis e a lapiseira são quase velharia. Os mais novos até os levam para a escola, mas, na era digital, a preocupação com o desenho das letras é cada vez menor. Enquanto, porém, se discute acabar com as aulas de caligrafia na Finlândia — um dos países mais desenvolvidos na área da educação —, brasilienses resgatam a tradição da escrita. Os motivos são os mais diversos e ultrapassam as barreiras da vontade de ter uma letra bonita.

A organização, o entendimento, a autoestima e a saúde são alguns dos motivos que têm levado muita gente a retomar a arte de escrever bem. Alguns precisam redigir redações em concursos e vestibulares — seleções que exigem letra cursiva, legível e que tiram ponto por má apresentação. Outros sofreram trauma de infância e resgataram a alegria por meio da escrita. Há ainda quem busque a coordenação motora ou até o romantismo nas mensagens escritas à mão.

Na casa da empresária Thaís Maya, 36 anos, a tradição falou mais alto. “Meu pai sempre gostou de escrever. Entrou no curso de caligrafia e decidiu aprender a parte artística. Incentivou meus filhos e meu marido a começarem”, conta. Pedro, 12, e Luiza Maya, 8, viram os resultados logo nas primeiras aulas. Longe dos métodos do antigo caderno de caligrafia, eles aprenderam um novo jeito de escrever. Como pegar na caneta, a postura, a posição dos dedos, a maneira de se concentrar, tudo mudou.

Nas três primeiras semanas, Pedro constatou: “Muitas vezes, os professores davam errado nas minhas questões por não entenderem o que eu escrevia. Agora, começo a tirar notas mais altas”. A mãe também percebeu: “Começou com um saudosismo da escrita, pois venho de uma família de escritores. Mas percebo que o Pedro desenvolveu mais a coordenação motora, são habilidades diversas”, diz Thaís. Autora de três livros e duas poesias aos 8 anos, Luiza segue os passos do irmão. “Quem tem foco, inteligência e sabedoria consegue fazer letras bonitas. É uma questão de harmonia”, afirma a garota.

As diferenças sentidas pela família são constatadas pela professora de caligrafia Fátima Montenegro, 48. Há 21 anos na área, ela relata que os alunos chegam para as aulas sem conseguir ser entendidos. “A escrita é uma forma de expressão, de comunicação. As pessoas ficam tanto tempo sem escrever que, ao se verem diante de um papel, as ideias não fluem. Elas ficam perdidas. É preciso praticar”, diz.

Casos comuns são os de pessoas canhotas que foram obrigadas a escrever com a mão direita. Por motivos religiosos, muitas famílias acreditavam que os “bem-aventurados” estariam somente ao lado direito do criador. Por isso, ser canhoto era “errado”. “A pessoa escreveu a vida inteira com a mão direita e, de repente, descobre que pode desenvolver o outro lado. Não é só voltar à origem, mas desenvolver novas habilidades”, diz Fátima.

Os exercícios de caligrafia no Brasil foram abandonados pelas escolas há pelo menos duas décadas. Os reflexos são para quem deseja passar em um concurso ou fazer vestibular. Esses grupos formam a maioria dos que procuram um curso anos depois de sair do colégio. “Sou formado em direito, tenho mestrado e tive que voltar a estudar, fazer caligrafia, para conseguir fazer um concurso para procurador da República. As pessoas simplesmente não entendiam o que eu escrevia”, afirmou Lucas Daniel Chaves, 27 anos.

Ele sempre foi bom aluno, mas a letra era péssima. Quando passou para a segunda fase do concurso, percebeu que não conseguiria fazer quatro dias consecutivos de provas discursivas. “Precisava escrever de forma rápida e legível. Por isso, procurei o curso. A partir daí, a escrita virou um prazer”, diz. Lucas relata que fazer o curso mudou a relação dele com a caneta. “Achei o processo muito prazeroso. Aprendi a me concentrar, aumentou minha criatividade. Passei na segunda fase, minha letra é outra e ainda troco uns papeizinhos com minha esposa hoje”, conta.

Cãimbra do escrivão

Quando as mãos não obedecem mais e os movimentos finos se perdem, é possível que a cãimbra do escrivão, uma doença neurológica funcional, seja a causa dos problemas. Ela se desenvolve aos poucos e, em um primeiro momento, é difícil assumir e até identificar a incapacidade de fazer uma simples assinatura. A caligrafia, aliada a um tratamento especificado por um médico e a fisioterapia, é uma boa saída para reaprender a escrever. Um servidor público de 35 anos, que preferiu não se identificar, passou por isso. “Não conseguia controlar minha força. Todos os exames deixaram claro que tinha a câimbra do escrivão. Tive que mudar meu jeito de escrever. A letra ruim já era relacionada a isso. Mas a postura e a leveza dos movimentos estão me ajudando na recuperação”, diz.

Ele era canhoto e aprendeu a escrever com a mão direita. Mesmo diante da doença, pretende escrever quatro redações no próximo concurso. “Vou fazer as provas com a mão esquerda. Tudo é uma questão de treino. Voltar a escrever é resgatar também minha autoestima”, diz.

 

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