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Correio Braziliense

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Violência

Educador é achado morto em Ceilândia

Corpo do orientador pedagógico do CEM nº 10 de Ceilândia, que fazia trabalho de prevenção ao uso de drogas na instituição, foi encontrado carbonizado. Polícia trabalha com latrocínio ou homicídio

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postado em 06/09/2012 11:02 / atualizado em 06/09/2012 11:13

Um orientador pedagógico da rede pública, responsável pelo trabalho de prevenção ao uso de drogas na instituição de ensino onde trabalhava, foi encontrado morto por volta das 2h de ontem. O corpo de Sérgio Roberto Leite, 30 anos, estava carbonizado dentro do próprio carro, no Condomínio Gênesis, no Sol Nascente, em Ceilândia. A vítima ocupava o banco de trás, mas a perícia ainda não conseguiu esclarecer se ela morreu por disparos de arma de fogo e se o local da localização do cadáver é o mesmo do assassinato. Ao lado do veículo incendiado, os policiais acharam os documentos do rapaz largados no chão. Exame da arcada dentária comprovou que o corpo é mesmo de Sérgio. A polícia trabalha com as hipóteses de latrocínio (roubo com morte) e homicídio.

 

O educador trabalhava há menos de um ano no Centro de Ensino Médio nº 10, na QNP 30 de Ceilândia. Ele era quem orientava os estudantes a não se envolverem com drogas, assim como mediava conflitos. A mãe de Sérgio, a dona de casa Rita Maria da Conceição Leite, 58 anos, viu o filho pela última vez por volta das 22h de terça-feira. O rapaz saiu de casa, no P Sul, em direção à residência de uma irmã, na mesma região. O objetivo era pegar umas mesas utilizadas em um aniversário. Em seguida, a vítima dirigiu até Vicente Pires para entregar o material para uma outra irmã, Solange Leite. Ele deixou o local à 0h30 e não deu mais notícias. “Se foi assalto, por que não levaram só o carro e deixaram meu filho vivo? É muita maldade o que fizeram”, desabafou Rita, entre lágrimas.

Luto

No colégio onde Sérgio trabalhava um pano preto ao lado do portão indicava o luto. Os alunos acabaram dispensados e nenhum professor foi encontrado, à tarde, pela reportagem para comentar o caso. A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Educação lamentou a morte, mas disse que só irá se pronunciar sobre o crime após a conclusão das investigações da polícia. Para Rita, o assassinato não tem relação com o trabalho de Sérgio. “O meu filho conversava direitinho com os alunos e não tinha problema com ninguém. Só teve uma vez ele me contou que chamou o pai de estudante para conversar sobre drogas e o próprio pai chegou drogado na escola. Eu dizia que era perigoso, mas ele respondia: ‘Mãe, o que eu vou fazer? É o meu trabalho’”, contou a dona de casa (leia Depoimento).

Os policiais chegaram até o carro incendiado após receber denúncia anônima. Nenhum morador do Sol Nascente disse ter presenciado o assassinato de Sérgio. Apenas uma testemunha chegou a dizer aos investigadores que outras pessoas comentavam ter visto um motoqueiro seguir o Uno Mille, placa JIY 7768-DF, de propriedade do orientador. Mas não há relatos de cenas de violência. A 19ª DP (P Norte) investiga o crime. A perícia esteve no local durante a manhã. Por enquanto, não é possível saber se o celular e outros objetos pertencentes a Sérgio foram levados ou se acabaram destruídos pelo fogo.

Segundo o delegado-chefe da unidade, Marcos Antônio Raposo, o caso ainda é um mistério. “Ele não vinha recebendo nenhuma ameaça e ainda não sabemos se houve um sequestro relâmpago e no trajeto aconteceu alguma coisa. Nesses casos, em regra geral, os assaltantes querem o carro e levam a vítima para deixá-la sem contato com a polícia. Esse caso é diferenciado. Qual a razão de queimarem o carro com a vítima dentro? Foi uma execução ou um assalto frustrado? Não dá para adiantar nada, por enquanto. A polícia está investigando”, explicou o delegado. Até o fechamento desta edição, nenhum suspeito havia sido preso.

Hoje, outra perícia será realizada no local do crime. A necropsia e os exames de raios X feitos no cadáver de Sérgio não constataram metais dentro do corpo, bem indícios de que ele foi amarrado ou recebeu golpes na cabeça. “Não concluíram se houve algum traumatismo craniano. Dado o estado do cadáver, dificilmente vamos conseguir ter essa certeza”, avaliou o delegado.

Ponto de desova
O local onde o corpo estava é conhecido pela polícia como local de desova de carros. Há cerca de dois meses, o corpo de um homem foi encontrado enterrado em um terreno próximo, no acesso ao Córrego das Corujas. Na região, uma invasão cresce em ritmo acelerado e tem contribuído para o aumento da violência. Moradores evitam sair de casa ou deixar crianças brincarem sozinhas. “Aqui não tem hora para o crime acontecer. Os comerciantes vivem sendo assaltados. Aqui já morreu gente, viu? A gente vê os traficantes vendendo droga na esquina e tem que fingir que nada está acontecendo”, contou uma moradora.

Depoimento

“É muita maldade”

“Meu filho chegou em casa às 21h50 (de terça) e estava bem. Ele saiu dizendo que ia pegar umas mesas para levar na casa da irmã,  em Vicente Pires. Saiu de lá à 0h30. Deixei a luz acesa para ele poder entrar, mas acordei à 1h30 e ainda não tinha chegado. Não fiquei preocupada porque costumava dormir na casa da namorada, e então voltei a dormir. Deu 9h e a polícia veio na minha casa e me contou que ele tinha sido encontrado carbonizado. É muita maldade o que fizeram. Não sei o que pensar, mas não deve ser por causa do trabalho dele. Meu filho era um rapaz bom, responsável, trabalhador, não tinha briga com ninguém e também não tinha vício. Mesmo pessoas boas não têm mais segurança em canto nenhum. Até dentro de casa estamos correndo risco. Só nos resta agarrarmos a Deus.”
Rita Maria da Conceição Leite, 58 anos, dona de casa, moradora de Ceilândia, mãe de Sérgio

 

Memória

Crime de repercussão

O diretor do Centro de Ensino Fundamental (CEF) nº 4 do Lago Oeste à época, Carlos Ramos Mota, 44 anos, foi assassinado na própria casa, em uma chácara da região, na madrugada de 20 de junho de 2008. Segundo a polícia, o homicídio foi motivado por uma discussão entre ele e Gilson de Oliveira, 31, que teria ido ao colégio cobrar dívidas de drogas de estudantes. O homem é acusado de, após ser avisado pelo diretor a não voltar mais ao colégio, ter convencido os ex-alunos da instituição Carlos Lima do Nascimento, 22, e Benedito Alexandre do Nascimento, 19, e o aluno do CEF 4 Alessandro José de Sousa, 19, a participarem do crime que chocou o DF. Os quatro acabaram presos e condenados. 

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