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Transição democrática na UnB

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postado em 14/09/2012 11:41 / atualizado em 14/09/2012 11:52

Thaís Paranhos

O reitor da Universidade de Brasília (UnB), José Geraldo Sousa Junior, entregará o cargo ao novo gestor em novembro. Depois de dois dias de consulta entre a comunidade acadêmica, o nome de quem vai ocupar o cargo máximo nos próximos quatro anos será conhecido hoje. Em entrevista ao Correio, José Geraldo fez um balanço do período em que esteve à frente da instituição, falou do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidade Federais (Reuni), tratou de temas polêmicos como o deficit e a segurança, além de apontar quais os principais desafios do próximo reitor.

José Geraldo disse que se propôs a realizar um mandato de transição ao assumir a reitoria. “A universidade viveu uma crise em 2008 e, desde o início, atendi a um chamado, queria virar a página e colocar a universidade na linha”, analisa. Ele destacou a implantação de uma gestão participativa, apoiada nas decisões dos conselhos da UnB e pediu ao novo gestor que mantenha essa postura. “O reitor ou reitora tem o desafio de consolidar o resultado da transição, o resgate da decisão colegiada, além de consolidar a expansão”, completou.

Entrevista José Geraldo de Souza Junior


Qual balanço da sua gestão?
Primeiramente, foi o apaziguamento da universidade, era uma característica do mandato levando em conta as condições de sua instalação. A instituição vivenciou uma crise.Do ponto de vista da gestão, houve uma nova perspectiva de poder integrar a universidade e recuperar um protagonismo interno que normalizasse o cotidiano. Esse foi o principal elemento político que se traduziu em mecanismos de natureza participativa e dialogada, notadamente com a revitalização deliberativa e republicana nos colegiados. Entre 1997 e 2008, o Conselho Universitário se reuniu 82 vezes.Na minha gestão, até setembro, foram46. Fortalecemos as grandes decisões tomadas nesse período, que vão desde a redefinição do marco regulatório das fundações ao debate sobre a paridade. Esse balanço de natureza política é relevante para uma administração que tentava tirar a UnB da crise. A outra atividade é de natureza gestora, caracterizada por lidar com uma universidade que atingiu o máximo da complexidade no período. A implantação dos novos câmpus, a duplicação do número de matrículas e de alunos da graduação, a ampliação da pós-graduação—passamos de 118 para 146 cursos —, criamos 36 outras graduações e um programa de fortalecimento da infraestrutura. São 28% a mais de área edificada em relação ao que encontrei.


Como avalia a posição da UnB nos rankings de classificação das universidades?
Esse é outro elemento importante: o fortalecimento da dimensão acadêmica da instituição. Nesse período, pudemos pensar a dimensão do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), não só a expansão, que é de infraestrutura, mas a reestruturação acadêmica e, com isso, fazer a revisão do projeto político pedagógico. Isso representa fortalecer a base acadêmica epistemológica da universidade para os desafios do desenvolvimento científico, cultural e tecnológico. Trata-se de planejar a área de expansão do nosso parque tecnológico que está em curso e, ao mesmo tempo, qualificar o processo nas áreas de ensino, de pesquisa e de extensão.De umlado, temos a percepção nítida da criação de novos modos de classificação de universidade. O novo ranking da Folha de S.Paulo nos deixou numa posição excelente do ponto de vista de indicadores. Tivemos o oitavo lugar geral e o quinto entre as federais. O progresso é constante, contínuo e ascendente. Claro que, emcada um deles, vamos perceber variações. E esse desenvolvimento é confirmado pelo nível de aquisição que a universidade passou a ter nesses quatro anos em relação ao sistema de fomento nacional e internacional. A nossa participação nos editais externos das grandes agências bateu marcas históricas.


A UnB cumpriu as metas do Reuni?
Essa é outra dimensão que caracteriza o mandato. Nossas metas estabelecidas foram plenamente alcançadas e, em contrapartida, tivemos financiamentos. Foram criados 36 cursos, desenvolvemos os novos programas dos
câmpus. Passamos de 4 mil para 8mil vagas oferecidas e, incluindo a educação a distância, temos hoje 35 mil alunos. Não há uma obra parada, algumas estão para ser iniciadas, em fase de projeto ou licitação. Até omomento, em termos de Reuni, gastamos R$ 66 milhões em obras. A Casa do Estudante (CEU) nunca havia sido objeto de intervenção. Temos mais R$ 30 milhões para outros serviços. Além de contratarmos mais mil professores—depois de décadas de estagnação sem investimentos nessa área—e de quase 600 servidores altamente qualificados.


As medidas adotadas na sua gestão para melhorar a segurança levarammais tranquilidade à comunidade acadêmica?
Mudamos toda a iluminação do câmpus sob o fundamento de que esse é umitem de segurança, de conforto para o trabalho. Implantamos um sistema de vigilância eletrônica. Os dados do Centro de Proteção ao Patrimônio indicam que, em2007, houve 603 ocorrências; em 2008, 584; em 2009, 256; em 2010, 184 e, em 2011, 176. Paradoxalmente, há uma expansão em número de pessoas e da circulação da comunidade. Tomamos medidas de conscientização, definimos estratégias e mapeamos as trilhas para criar áreas de maior intensidade de fluxo. Há estudos, políticas, programas, investimentos e medidas que estão sendo adotadas. Algumas são difíceis por se oporem à cultura acadêmica. É complicado, por exemplo, colocar catracas ou fechar espaços na medida em que a universidade é vista como um espaço libertário e livre.


Quais são os principais problemas da universidade?
A UnB foi um espaço preservado para a elite social, e a elite intelectual não tinha acesso. A instituição precisa lidar com isso e não pode ser reservada a uma aristocracia social. Ainda hoje, por exemplo, os números são gritante se compararmos a comunidade de 35 mil alunos, na qual apenas 2 mil estão no programa de assistência estudantil. A universidade continua branca e de classe média alta. É preciso se adaptar ao desafio atual de ser lugar de excelência para a elite intelectual da cidade, do país. Num país que dá saltos de desenvolvimento, a academia será ampliada. Precisa se adequar a isso tecnologicamente e pedagogicamente. Hoje, já não é lugar exclusivo da produção de conhecimento, mas é espaço exclusivo da possibilidade de integração e circulação dos modos de conhecer.


Que desafios terá o (a) novo (a) reitor(a)?

Desde o início atendi a umchamado, queria virar a página e colocar a UnB na linha. Tenho convicção de que a reeleição não é adequada para o sistema universitário porque provoca duas alienações: burocratismo e deslumbramento. Apaziguada a instituição, revista nos seus diagnósticos, renovada na infraestrutura, o principal desafio, hoje, é manter essa dimensão dialogada, da construção negociada, mediada e dialogada dos processos diretivos. Mas o novo reitor ou reitora terá de consolidar o resgate da decisão colegiada, deliberativa, participativa e compartilhada da gestão. Também será necessário assumir a infraestrutura expandida e consolidá-la, além de manter o nível de gestão, sobretudo com os órgãos governamentais. Quem vai vigiar, dar mobilidade, fazer a manutenção de tudo isso, ajustar a condição de financiamento? Considero que estamos subfinanciados. É preciso remontar estratégias de manutenção desse sistema. Construímos, fizemos reformas, mas ainda temos uma universidade antiga, que precisa ser refeita. E um desafio extraordinário que se coloca para o reitor ou a reitora é o de não perder o diálogo com a sociedade. A UnB é autônoma, mas não é uma autarquia, no sentido semântico, que se isole, autossuficiente e autista em relação ao que se dá no entorno do ambiente que atua.

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