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Educação

Classe sai em busca de soluções

Professor comanda quarta edição do Projeto Comunidade em Evidência e consegue motivar centenas de alunos do ensino médio a praticar ações de sociologia no Cruzeiro e na Estrutural. O resultado do trabalho será apresentado em outubro

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postado em 19/09/2012 10:32 / atualizado em 19/09/2012 10:34

Gustavo Moreno
Quase 600 estudantes do ensino médio do Centro Educacional 1 do Cruzeiro (CED 1) mostram que é possível sair dos muros da escola para aplicar a sociologia na própria comunidade e ainda com um grande diferencial na educação de cada um deles.
Desde o início do ano, 13 turmas de 1º, 2º e 3º anos da instituição buscam analisar criticamente o espaço em que vivem, distanciando-se do modelo tradicional de leituras maçantes e filmes cabeça. “Antes, eles só passavam um monte de textos para a gente ler, víamos filmes e raramente debatíamos, não tinha ação e a gente estava muito desmotivado”, lembra Lana Ellen Tavares, 17 anos, estudante do 3º ano.

Movidos pelo interesse de modificar a realidade que os cerca, os envolvidos no projeto Comunidade em Evidência traçaram o perfil dos problemas no Cruzeiro e na Estrutural e voltaram para a sala de aula para encontrar soluções. “O grande objetivo é trazer a comunidade para esse debate, que é a valorização da escola pública”, acredita Carlos Humberto da Silva, professor de sociologia responsável pela iniciativa. Ele explica que a proposta surgiu da ideia de transformar o colégio, o ensino considerado automatizado e a postura dos alunos diante da sociedade.

“Normalmente, o interior de escola é robotizado, a dinâmica de ações, lenta, e a interação entre a família e a escola praticamente não existe. Você nota a falta de ânimo do aluno com a grade escolar e isso causa evasão e baixa qualidade de ensino. Não se constrói educação de qualidade com quadro, professor e escola, mas com a sociedade ajudando a erguer a instituição”, defende o professor.

Mapeamento

Cada uma das turmas foi dividida em quatro grupos que trabalharam com temáticas diferentes: valorização da escola pública, existência de minorias, segurança pública, desigualdade social, saúde, cultura e socioambientalismo.

Os alunos participaram de ciclos de debate, mapearam as comunidades do Cruzeiro e da Estrutural, dividiram-nas por quadras de atividades, elaboraram e aplicaram questionários temáticos, montaram diários de classe e retornaram para a escola a fim de aproximar a ação do conteúdo teórico da disciplina. Preparam, agora, a parte final: análise de dados das pesquisas e elaboração de gráficos.

Em outubro, apresentarão para a comunidade local os resultados por meio de uma exposição. Depois disso, retornam a campo para levar projetos de ações sociais que busquem a resolução dos problemas encontrados.
“A ideia era que as perguntas fossem respondidas por pessoas de diferentes níveis sociais e realidades de vida distintas. Fazendo isso, a gente percebeu a fragilidade de quem não tem conhecimento, de achar que tudo que o governo faz está bom, que a maneira como elas vivem é suficiente e não é preciso mudar nada”, comentou Ana Paula Nunes, 18 anos, estudante do 3º ano.

Desconfiança

Esta é a quarta edição do projeto de Carlos Humberto da Silva, que começou em 2003 (CEF 2 do Cruzeiro), em 2004 (CED 1 de Planaltina), em 2005 (Stella dos Cherubins, em Planaltina) e em 2012 (CED 1 do Cruzeiro). A atividade desenvolveu iniciativas que se espalharam entre os alunos, mas os frutos do trabalho são perceptíveis para quem estuda na escola anfitriã deste ano. As ações começaram a ser planejadas. Alguns grupos programam eventos em escolas, teatros e debates em praças e feiras. Eles vão tratar assuntos como analfabetismo, drogas e pichações.

O trabalho para conseguir mudar é longo. Geraldo Silva Marçal, 17 anos, estudante do 3º ano, relembra situações em que a comunidade se sentiu desconfiada com perguntas sobre minorias sociais. “Eles perguntavam se precisava assinar alguma coisa, colocar número de documento, se o governo ia ficar sabendo. A população não quer participar, tem medo. Quando tocávamos no assunto LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), muitos ficaram receosos em responder”, conta Geraldo.

Emerson Oliveira dos Santos, 18 anos, estudante do 2º ano, ajudou a reconfigurar a tradicional reunião de pais e mestres. A simples mudança do nome — encontro — já deu uma renovada. “As reuniões são vistas como verdadeiras convenções de robôs. Os pais permanecem parados e outros robôs ficam dizendo o que aconteceu ou deixou de acontecer; os pais não dão opinião, não buscam saber o que o filho está ou não aprendendo, o que é interessante ensinar”, critica Emerson. Mas alguma coisa já está mudando: os 12 pais presentes no penúltimo encontro aumentaram para quase 100 no mais recente.

Para saber mais

A ciência de Comte

O termo sociologia foi criado pelo francês Auguste Comte (1798-1857). Ele acreditava que, para a sociedade funcionar de forma correta, ela precisava se organizar como ciência. Atualmente, os principais pensadores são Max Weber, Émile Durkheim e Karl Marx. Para Marx, apenas uma revolução operária criaria uma vida mais justa. Durkheim entendia que a comunidade funciona como um corpo, em que cada órgão tem uma função. Ele acreditava que o cientista deve estudar a  população a distância para não misturá-la  com os próprios sentimentos. Weber afirma que o papel é analisar fenômenos e extrair deles ensinamentos para melhor entender o que acontece.

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