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Professor, o maior investimento

Conheça alguns relatos de mestres que se destacam e contribuem para o avanço do ensino público e particular no Distrito Federal. Estudos norte-americanos mostram o impacto dos docentes na carreira profissional dos alunos

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postado em 15/10/2013 10:22 / atualizado em 15/10/2013 16:18

Ana Paula Lisboa

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Bons educadores elevam a qualidade da educação, garantem melhor desempenho profissional aos alunos e são responsáveis pelo desenvolvimento econômico de um país. Ainda assim, a profissão de educador é conhecida por ser desvalorizada e mal remunerada no Brasil. Aqui, apenas 2% daqueles que concluem o ensino médio escolhem a carreira de docente, segundo a Fundação Carlos Chagas (FCC). Mesmo em meio a um ciclo desanimador na educação brasileira, o Distrito Federal reúne professores que se destacam pela qualidade do trabalho e por projetos inovadores.

A importância desses agentes que ajudam a promover mudanças significativas na sociedade foi comprovada por resultados apresentados ontem, às vésperas do Dia do Professor. O site Educar para Crescer (www.educarparacrescer.abril.com.br) reuniu levantamentos que mostram o impacto de um bom docente na trajetória profissional do aluno. Segundo estudos das universidades de Harvard e de Columbia, nos Estados Unidos, o aluno que teve aulas com um ótimo mestre, por pelo menos um ano do período escolar, chega a ganhar, anualmente, R$ 90 mil a mais ao longo da carreira. O economista da Universidade de Stanford Eric Hanushek chegou a outra conclusão notável: um professor entre os 25% melhores, que dê aulas a uma turma de 30 jovens, gera, a cada ano, um aumento de US$ 500 mil na massa salarial.

Segundo estudo da consultoria McKinsey, o bom docente melhora o desempenho do aluno do mesmo modo que o ruim traz malefícios ao aprendizado. O relatório mostra que estudantes com educadores de qualidade aprendem três vezes mais. O profissional do saber ideal é aquele que não desiste dos estudantes, planeja as aulas, tem um bom relacionamento com os familiares, ensina métodos de estudo e, constantemente, aprimora o conhecimento que possui. Conheça histórias de mestres que fazem a diferença.

Dedicação nas escolas

“Todos somos especiais”
Na Escola Classe 18 de Taguatinga, Raquel Gonçalves, 49 anos, se despede do magistério. Ela alfabetiza crianças com e sem necessidades especiais. “É meu último ano como professora, não sei o que vai ser de mim sem minha profissão”, revela, com a voz embargada. Depois de 29 anos de carreira, a professora se depara com um desafio desde 2012. “Tive de me adequar e estudar muito, pois nunca tinha dado aula para alunos especiais. Minha meta era fazer com que todos, deficientes ou não, tivessem prazer em aprender”, relata. O desenvolvimento de cada educando tem um ritmo diferente e a conclusão de Raquel é simples: “Todos somos especiais e temos dificuldades. É pensando assim que faço um trabalho de inclusão e, juntos, comemoramos as conquistas de cada aluno.”

Em 2012, com o projeto Como nasce um livro, ela foi uma das ganhadoras do 6º Prêmio Professores do Brasil, que reconhece experiências pedagógicas criativas na rede pública. Outro projeto inovador surgiu no tempo de trabalho na sala de leitura da Escola Classe 18. Em 1999, Raquel e a colega Maria Célia Madureira criaram os ratos fictícios Racumim e Racutia, que estimulam o gosto pela leitura no colégio até hoje.

Perto de se aposentar, Raquel deixa para trás um longo caminho em que desempenhou o papel de cupido entre o aluno e o conhecimento. João Marcos Vieira e Letícia Tavares, ambos de 6 anos, André Oliveira e Camila Félix, 7, são prova disso. “Eu aprendi a ler, descobri sobre os tipos de animais, como os mamíferos”, conta André. “A tia Raquel é amorosa, bonita, legal e eu gosto das tarefas que ela passa, como os livros que fazemos juntos”, descreve Camila.

Janine Moraes/CB/D.A Press
Livros saem do depósito
Jeanne Sampaio, 39 anos, é a prova de que não é preciso estar na sala de aula para fazer a diferença. Na Escola Classe 3 do Núcleo Bandeirante, onde começou a trabalhar este ano, a educadora reativou uma sala de leitura fechada há 10 anos. Um espaço sujo e com livros entulhados virou outro: colorido, organizado e visitado pelos alunos. O local se mantém com projetos como o Recreio literário, no qual monitores oferecem livros na escola, e o Café literário, que convida escritores para serem entrevistados pelos alunos.

Com duas décadas de profissão, Jeanne fez questão de trabalhar na Escola Classe 3 para despertar nos alunos o gosto pela leitura. “Eu queria mudar para um colégio que precisasse de uma sala de leitura. Minha maior alegria é ver o livro sair da estante para a mão dos leitores”, conta. Leina Ishihara e Victor Hugo Aguiar, 8 anos, e Ana Gabrielle Aguiar e Rafael Alberto Alves, ambos de 9, viraram frequentadores assíduos da minibiblioteca. Leina mudou da água para o vinho. “Eu não gostava de ler e a professora Jeanne me convenceu a gostar e eu melhorei nas aulas de português”, conta.

Carlos Moura/CB/D.A Press
Filosofia na cabeça
O professor de filosofia Euzébio Costa, do colégio Ciman da Octogonal, é conhecido por não usar material didático. Todo o conteúdo é passado oralmente. Nas brincadeiras inventadas em classe, os alunos usam tacos de golfe, bolinhas de gude e outros objetos. Quem errar deve responder uma pergunta para desenvolver a habilidade de argumentação. Pedro Henrique Zorzetti, 11 anos, passou a gostar de filosofia assim. “Ele é um ótimo professor e a aula é tão legal que a gente se interessa”, conta. O método oral dá certo, tanto que estudantes como José Alves, 11, decoram com facilidade frases de filósofos.

Euzébio nasceu e cresceu no Gama, foi lavador de carros e começou a trabalhar em sala de aula há 15 anos. “No Dia do Professor, devemos relembrar a responsabilidade que temos na educação e na transformação lenta e gradual do país”, declara Andrea Regina da Silva, 38, dá aulas para o 5º ano no Ciman. Natural de Anápolis, começou a lecionar aos 15 anos, como professora auxiliar na escola em que a mãe era faxineira. Terminou o colégio e cursou a faculdade sem parar de dar aulas, acumulando 23 anos de carreira. Apaixonada pela docência, Andrea define a profissão: “Ser professora é uma missão, uma descoberta diária e uma dádiva. É transmitir amor, motivação e conhecimento. Requer devoção, persistência e noção de que o aluno precisa de você”. Para a garotada do 5º ano, como Nathália Crispim e Yôle Mateus, ambos de 10 anos, Andrea é como uma segunda mãe. “Ela é criativa, divertida, amorosa e ensina bem. Com ela, consegui me desenvolver muito este ano. Nenhum outro tem tanta paciência para explicar”, afirma Nathália.

Ana Paula Lisboa/Esp. CB/D.A Press
Empenho de diretora
Depois de demonstrar dedicação em sala de aula, Regina Claudia Sousa, 41 anos, foi eleita a diretora da Escola Classe 18 do Gama para o ano letivo de 2013. Brayan Ribeiro, 9 anos, ex-aluno de Claudia, colaborou com a eleição. “Pedi para minha mãe votar nela e valeu muito a pena. A escola melhorou muito”, conta. Vinda de uma família de docentes, Claudia não resistiu à tendência seguida por primas, irmã e tia. “É um trabalho gratificante, mas pouco valorizado. A maior dificuldade é a impotência: vejo meninos com fome, doentes, que sofrem abusos, sem sapato e quero resolver tudo, mas não consigo”, lamenta.

Na direção, Claudia implantou o projeto Um autor em minha escola, que convida escritores de livros infantojuvenis para um bate-papo com os estudantes. Antes da esperada visita, as crianças leem a obra, estudam a biografia do autor e fazem trabalhos. “Essas crianças não teriam fácil acesso a um encontro com escritores, nem mesmo a livros”, explica a idealizadora. O resultado do projeto já é conferido na sala de leitura, que passou a ser mais frequentada por estudantes como Brayan e Lívea Soares, ambos de 11 anos; Ester Natyelly e Mell Cristina Fernandes, de 10. “Antes, as pessoas só liam obrigadas, agora, todo mundo lê porque tem vontade”, conta Mell.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Seduzidos pela matemática
As ideias inovadoras para as aulas de matemática de Nathaly Vieira, professora do 4º ano no Colégio JK da 913 Norte, atraem até quem tem aversão a equações. Com jogos de tabuleiro e no tablet, os alunos trabalham em grupos e aprendem sobre formas geométricas, tabuada, frações e outros conteúdos. “Os games facilitam a assimilação, especialmente na tela sensível ao toque, que prende muito a atenção. É importante que eles passem a gostar do conteúdo, pois vão levar contas e números para a vida toda”, expõe Nathaly.

Isabelle de Freitas, Davi Gomes, Sophia Hexsel e Artur Mendes, todos de 9 anos, não querem mais parar de estudar a disciplina. “A gente aprende brincando e não dá vontade de sair dali. Antes, eu ficava nervoso ao estudar para provas de matemática, mas o jogo não me deixa mais agoniado”, conta Davi.

 

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