SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Meu mestre inesquecível

Não há quem não se lembre de um professor marcante. Muitos se recordarão de vários. Veja histórias em que a relação dentro da sala de aula influenciou também a vida fora dela, tanto de pessoas comuns quanto de personalidades

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 15/10/2013 15:52 / atualizado em 18/10/2013 15:31

Manoela Alcântara

Iano Andrade/CB/D.APress
Do bê-á-bá aos conceitos mais complexos. Da pequena bronca ao carinho mais sincero. Dentro de sala de aula ou do portão para fora, são eles que ensinam português, matemática, história, geografia. E vão além. Passam os ideais de cidadania, transmitem confiança e, em alguns casos, influenciam diretamente na escolha da profissão que o aluno seguirá por toda a vida. Professores, mestres, docentes, seja qual for o termo usado para identificá-los, eles despertam os sentimentos mais diversos: de admiração, de carinho, de raiva, de felicidade ou de tristeza. Para uns, são a primeira paixão; para outros, o significado dos primeiros desafios. Todos os que desejam ter um diploma em mão, seja lá de qual nível for, passarão pelas mãos do educador.

No dia deles, o Correio conversou com pessoas que foram marcadas pela forma como os professores lhes ensinaram. Eles nunca esqueceram os gestos em sala de aula, a transmissão de conhecimento responsável por formar cidadãos, hoje, orgulhosos do papel que representam na sociedade. Para Wilson Marra Júnior, 39 anos, o docente de matemática do ensino médio, concluído em 1991, mudou toda a percepção que ele tinha da matéria — uma da mais odiadas pelos estudantes, devido à dificuldade agregada pelos números. “Foi ele que me ensinou a gostar de matemática. A forma como ele conduzia as aulas, as brincadeiras, os ensinamentos por meio das cartas do baralho”, relata Wilson.

O mestre a quem se refere é Toshio Nakamura, 56 anos. Com camisa bem alinhada e manga dobrada na altura do antebraço, o docente transcendeu as barreiras dos números. Foi um exemplo de cordialidade, educação e respeito. “Nos chamava de senhor, de senhorita. Estava também sempre muito bem vestido, os olhos brilhavam quando ele iniciava as aulas. Sempre tentava tornar a matéria o mais simples possível”, disse Wilson, hoje consultor administrativo em marketing. “Nas aulas de estatística, vinham à memória as aulas do Toshio”, lembra.

A dedicação do professor sempre foi tema de conversas entre Wilson e o filho, Wilson Marra Neto, 12 anos. Ele ouvia as histórias do pai com atenção e, neste ano, como aluno do 7º ano do ensino fundamental do Galois, teve a oportunidade de compartilhar mais uma experiência: o filho de Toshio, Pedro Nakamura, 26, repete a história da família Marra e ensina matemática ao adolescente. “Meu pai já tinha falado do melhor professor de matemática de Brasília. Agora, vejo em sala de aula muito do que ele sempre contou”, relata.

Ontem, os quatro se encontraram para conversar com a reportagem. “Ele está exatamente como era há 22 anos”, diz Wilson Júnior. Feliz com o reencontro, Toshio contou um pouco sobre a satisfação de ter o trabalho reconhecido. “Eu me sinto honrado. Sempre tento passar para o aluno que matemática não é difícil. Todas as vezes que tive oportunidade de levar um recurso real para a sala de aula, fiz isso. Baralho, dominó. É importante ter recursos que atraiam a atenção”, ressalta. Com 32 anos de carreira e principal espelho na escolha da profissão do filho, Toshio lamenta, no entanto, a falta de valorização do professor no Brasil. “É o formador, o educador. Deveria ser mais respeitado”, conclui.

Anjo da guarda

O jardim de infância é uma das fases em que as pessoas mais se apegam aos professores. Nas séries iniciais, são os tios, as tias que dão aula. Evelyne Safe Carneiro Gebrin, 56 anos, se emociona ao lembrar dos tempos de escola. Na década de 1960, ela teve dificuldades para ingressar em uma das instituições mais tradicionais da época, o Sacré Coeur de Marie. “Meus pais nunca foram casados, a escola não aceitava. Havia discriminação às filhas de pais solteiros. A mãe de uma amiga precisou pedir uma carta de recomendação a um deputado para que meu ingresso fosse possível”, conta.

Apesar das dificuldades, no primeiro dia de aula, começaram as compensações. Uma das freiras, conhecida na época como Mère Calvário, olhou para Evelyne e a colocou no colo. A partir dali, estabeleceram-se laços nunca desfeitos. “Ela me ajudava nas minhas traquinagens, cuidou de mim. Era admirada por todos. Foi meu anjo da guarda”, diz. Doce e delicada, Maria Gláucia Borba era o porto seguro das meninas. As aulas acabaram. Evelyne se formou há 41 anos e, mesmo assim, os laços de amizade permaneceram. “Ela se casou, deixou de ser freira. Reencontrei-a em uma festa de carnaval. Hoje, fazemos uma festa anual na qual nos encontramos e faço questão de fazer visitas periódicas”, conta.

A homenagem fez a ex-Mère Calvário derramar lágrimas. “Elas eram todas cegas, eu não era tudo isso não”, brincou. Ao lembrar uma história ou outra e todo o rebolado que precisou ter para proteger a alunos dos castigos das freiras, Maria Gláucia olha para Evelyne e conclui: “Ela é uma filha para mim”.

As relações são um exemplo do carinho e mostram de forma clara a influência do mestre na vida dos discípulos. O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa), Luis Claudio Megiorin, ressalta a importância do professor. “Um bom educador faz a diferença. É a profissão mais importante do mundo, pois, sem ele, não existem as outras profissões”, afirma.
Iano Andrade/CB/D.APress

Depoimentos

Qual o professor você nunca esqueceu?

Cristovam Buarque,
senador da República

“Tenho diversos. No meu gabinete, guardo seis ou sete quadros com fotos dos meus professores. Um dos que nunca me esqueço é o professor Afonso, morador de Taguatinga. Tive aula de francês com ele no Colégio Marista, no primeiro ano do ensino médio. Ele cativava os alunos pela forma como nos tratava. Naquela época, já era um ecologista. Até hoje, com 94 anos, ainda planta árvores. Não posso deixar de falar também das minhas primeiras professoras, quando estudava lá em Recife, no Instituto Castro Alves: Lindalva, Alba e Elza.”

Marco Aurélio Mello,
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)

“Guardo muito a minha época de jardim de infância, no Colégio Souza Marques, em Jacarepaguá, quando tive uma professora chamada Gessi. Não queria nem passar para o primário, queria permanecer no jardim de infância para ter aula com ela. Tive também grandes mestres na faculdade: Pedro Calmon, Arthur Machado Paupério, Hélio Tornaghi, Francisco Dornelles e outros. Nós precisamos resgatar essa profissão que, no Brasil, foi sucateada. Só seremos uma grande nação quando voltarmos os olhos para a educação de forma efetiva.”

Ivan Camargo,
reitor da Universidade de Brasília (UnB)

“O professor de física do Marista, Álvaro Prata. Grande mestre. Muito claro nas explanações. Foi ele quem sugeriu que eu fizesse engenharia elétrica. Ele disse: você gosta de matemática, de física, faça engenharia elétrica que será um bom engenheiro. Isso em 1977. Hoje, ele está no Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), é um professor de muito brilho, filho de outro docente da UnB, sucesso na área de medicina.”
 
Washington Dourado,
diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro)
“Aquela que marcou minha vida estudantil foi a professora Sindú, que lecionava numa escola bastante precária no interior da Bahia. No entanto, fazia a diferença pela dedicação e pelo compromisso em motivar os alunos aos estudos como forma de superar os problemas de uma região muito pobre.”

Coronel Affonso Heliodoro,
chefe do gabinete militar durante o governo de Juscelino Kubitschek
“A professora que marcou a minha vida foi D. Júlia Kubitschek, mãe do Juscelino. Ela me deu aula nos dois primeiros anos de escola, em Diamantina (MG). Foi uma grande pessoa, um ser humano notável, professora formidável. Uma mulher fantástica que conseguiu, mesmo viúva, fazer dos filhos grandes homens.”

Digão,
vocalista da banda Raimundos

“Tem alguns. A primeira professora foi a Graciete, de matemática, no Colégio Rosário, na Asa Sul. Estudei a 6ª e a 7ª série lá. Nesse período, aprendi mais matemática do que na vida inteira. É uma pessoa que agradeço muito por ter me ensinado tão ludicamente a matemática. Tem também o Tio Vivi, professor de geografia. Ele fazia umas músicas para que nós gravássemos as ilhas japonesas, que lembro até hoje. Era muito interessante.”

Tags:

publicidade

publicidade