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Correio Braziliense

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Dobraduras de solidariedade

Em uma semana, alunos do Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, fazem mais de 2 mil origamis para homenagear professor afastado por problemas de saúde. As peças de papel são chamadas de tsurus, aves que, segundo lenda japonesa, podem viver mil anos

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postado em 01/10/2014 10:13 / atualizado em 02/10/2014 09:47

Juliana Espanhol

Paula Rafiza/Esp.CB/DA Press
Um símbolo da cultura japonesa enfeita o Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, em prol do bem. Cinco alunas do 2º ano do ensino médio coordenaram a confecção de mais de 2 mil tsurus, um tipo de origami, em homenagem ao professor Leonardo Loiola, 44 anos, afastado da escola há cerca de dois meses por causa de uma anemia severa, cuja causa ainda é investigada. Segundo a lenda, o tsuru, ave parecida com a garça, pode viver por mil anos. Quem completar mil dobraduras do animal terá sorte e longevidade. No Japão, as esculturas de papel são presentes populares para recém-casados e recém-nascidos, além de pessoas que passam por problemas de saúde.

Para realizar a tarefa, as estudantes Maria Eduarda Albino, Thaylla Santos, Raiane Rezende de Souza Aquino, Jiselly Cunha dos Santos e Kamilla Geovanna, de 16 e 17 anos, contaram com a ajuda de alunos, professores e funcionários da escola. As cinco, que já tinham aprendido a dobradura para apresentar uma instalação sobre o Japão na Feira das Nações promovida pela escola, fizeram oficinas para ensinar a técnica aos interessados. O plano inicial era fazer mil peças, mas, durante a semana de treinamento, uma das alunas, Raiane, ficou doente e foi internada. A meta dobrou, e, ainda assim, foi completada em uma semana. Agora, os pássaros enfeitam um longo corredor bem na frente da escola. Nas paredes, os alunos espalharam cartazes com frases de apoio ao professor.

“É muito legal que as alunas tenham feito esse trabalho. Isso mostra uma relação de carinho e de respeito que ainda existe entre alunos e professores em escolas públicas. Estou louco para ir à escola ver a decoração”, disse, por telefone, o professor de filosofia, atualmente em repouso domiciliar por causa da baixa imunidade. Raiane, que passou uma semana hospitalizada por um problema pulmonar, agradeceu a homenagem. “Fiquei muito feliz quando soube que fariam mais tsurus para mim, disse até que não precisava”, riu. As meninas contam que algumas pessoas não acreditaram que elas completariam a tarefa. “Muita gente perguntou por que estávamos fazendo aquilo, o que estávamos ganhando. Fizemos por um excelente professor e por nossa amiga, isso é algo que vou levar para a vida toda”, diz Maria Eduarda.

O grupo de garotas passou a ser reconhecido nos corredores do colégio, que tem cerca de 1,8 mil alunos nos três turnos. “Acho que agora as pessoas veem na gente um exemplo de determinação. O melhor foi ver todo mundo se mobilizando. Fazer esse projeto e conhecer tantas pessoas de outras séries por causa dele mudou meu jeito de olhar para a escola”, disse Thaylla. A técnica de dobradura ultrapassou os muros da escola: virou enfeite nos quartos das alunas. Também chegou à decoração de algumas festas que elas participaram. Até convite para decorar casamento as alunas já receberam.

Admiração

“Agora, só falta o professor Leonardo ver o que a gente fez”, afirmou Jiselly. As alunas tiveram aulas de filosofia com o docente no ano passado, durante o 1º ano do ensino médio. “Ele sempre tentava fazer coisas diferentes, me lembro de uma vez que ele fez um momento de meditação”, recordou Raiane. Alunas e docentes concordam que o professor é bastante querido na escola, onde ele trabalha há 5 anos. “Esse é um gesto de carinho. É um jeito de mandar energia boa para alguém que está precisando”, resume a professora de artes Ghisa Pôrto. Ela foi uma das incentivadoras do projeto desenvolvido pelas alunas. “Nos primeiros quatro dias, elas fizeram mais de 1,5 mil origamis. Liguei para o professor Leonardo e ele ficou muito feliz com a iniciativa”, revelou a docente. A partir do sucesso com a homenagem ao professor, as alunas pensam em utilizar a habilidade para decorar a escola em outras datas festivas.

Antes de participar da Feira das Nações do colégio, em que pesquisaram sobre a cultura japonesa, as estudantes não conheciam a lenda dos mil tsurus nem sabiam fazer as dobraduras. “Aprendemos que o branco, que aqui simboliza vida e pureza, lá significa morte, por isso tivemos o cuidado de fazer todos os pássaros coloridos”, explica Maria Eduarda. Com a prática, elas levam cerca de um minuto para confeccionar cada dobradura. Porém, no início, o tempo era até 10 vezes maior. “Cada dobra é importante para fazer o tsuru, então, se você erra acaba tendo de começar tudo de novo. Na oficinas, vimos pessoas que erravam muitas vezes, mas ainda assim tentamos incluir todas e ajudar”, completa.


Para saber mais
Tsurus contra a radiação


A lenda dos mil tsurus se tornou mais conhecida a partir da história da menina Sadako Sasaki. Nascida em Hiroshima, Sadako foi exposta à radiação da bomba atômica que atingiu a cidade durante a Segunda Guerra Mundial. Aos 12 anos, foi diagnosticada com leucemia. A menina decidiu fazer as mil dobraduras para se curar. Há controvérsias sobre o fim da história: em algumas versões, diz-se que ela morreu antes de completar a tarefa. Em outras, a menina fez as mil dobraduras e persistiu na atividade, mesmo sem melhoras na saúde. De qualquer forma, Sadako se tornou símbolo da luta pela paz, ganhando um monumento em sua homenagem no Parque Memorial da Paz de Hiroshima.
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