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Professor em extinção

Estudo feito por pesquisadores de Brasília mostra que docentes comprometidos e que despertam o interesse dos alunos são raros. Conheça quatro deles

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postado em 16/04/2015 15:18 / atualizado em 16/04/2015 19:28

Mariana Niederauer

Andre Violatti

 

Professores comprometidos, exigentes, que respeitam o aluno e dominam o conteúdo que ministram. Essas são características esperadas de qualquer profissional responsável pela formação de estudantes universitários, mas são raras. A falta de valorização e de reconhecimento desestimula muitos deles a continuarem na carreira ou de manterem o prazer pela profissão. Em livro lançado na última semana, pesquisadores de instituições de ensino de Brasília definem quem é esse docente e por que é difícil encontrá-lo.

“Professores entusiasmados não são professores ‘cesta básica’. E o pior é que nós temos uma razoável convicção de que eles não podem ser formados. O entusiasmo é algo muito profundo, remonta às origens até familiares. São valores, princípios, ética, esse tipo de coisa que não se ensina em cursos”, explica José Florêncio Rodrigues Júnior, professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB) e um dos autores do livro.

A publicação O professor universitário entusiasmado — Seis estudos sobre uma espécie em extinção é fruto de 11 anos de pesquisa de um grupo que reúne sete especialistas. O estudo incluiu a aplicação de mais de 450 questionários entre estudantes concluintes de cursos. Eles identificaram o professor entusiasmado como aquele que respeita os alunos — chama a todos pelo nome, por exemplo —, é sábio, tem senso de comprometimento e é exigente. “Eles não são professores coniventes, que tentam se fazer aceitáveis e populares”, destaca José Florêncio. “Outro traço importante é que são informais, têm um estilo de vida solto, casual”, acrescenta.

O nível de exigência mais alto e o jeito  diferente dos demais, no entanto, frequentemente os colocam em conflito com a administração ou com os colegas de trabalho, segundo a pesquisa. “Acaba-se criando um clima em que eles ou pedem para sair ou são mandados embora”, afirma o pesquisador. Mas, quando conseguem superar os desafios, esses profissionais contagiam os estudantes e os incentivam a aprender, desde que a turma colabore. “Eu não posso ser um professor entusiasmando com uma turma apática, checando WhatsApp o tempo todo. Há aquilo que se chama reciprocidade no entusiasmo”, alerta.

Os estudantes que responderam ao questionário da pesquisa também indicaram professores que consideram entusiasmados em sala de aula. O Correio ouviu quatro desses profissionais, que relataram as experiências e os desafios enfrentados diariamente.

 

Fora da zona de conforto

Paula Rafiza
Sérgio Euclides de Souza, 55 anos, acredita no confronto como um recurso pedagógico e avisa logo: “Sou um professor controverso”. Há 25 anos em sala de aula, ele busca tirar os alunos da zona de conforto para contribuir com o aprendizado de cada um deles. “Às vezes, dá certo; às vezes, não dá”, observa. Essa posição já colocou o próprio emprego em risco em algumas instituições. “Já respondi a processos administrativos por conta de conflitos com alunos em sala de aula”, relata. Mesmo assim, ele afirma que a maioria dos estudantes entendem que o trabalho é feito dessa forma em benefício deles. “Sou o contrário do professor populista, esse professor bonzinho que passa a mão na cabeça dos estudantes”, destaca. O objetivo principal é contribuir para formar profissionais que consigam atender às expectativas que a sociedade terá em relação a eles depois da graduação. Hoje, Sérgio ministra aulas em cinco disciplinas nos cursos de jornalismo, propaganda, design gráfico e produção audiovisual do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), e, apesar do compromisso com a docência, acredita que a tarefa está mais complicada a cada dia. “Eu ainda amo esse trabalho, mas ele está ficando cada vez mais difícil por causa do novo contexto tecnológico.”

 

Formando futuros colegas

Antes mesmo de se formar no curso de medicina, o cirurgião João Batista Tajra, 43 anos, já dava aulas de biologia e de química. Hoje, como professor das Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac), ele leciona anatomia e cirurgia. “Eu era professor antes mesmo de ser médico. Essa é uma paixão mesmo, e há muito tempo. Agora, eu uni as duas coisas que eu mais gosto: a medicina e dar aula”, orgulha-se. Ele acredita que esse é o segredo para ter o trabalho reconhecido. A maior proximidade com os estudantes, por meio do diálogo, também ajuda. “A nossa geração é de conversa”, explica. Mas, se por um lado a aproximação facilita o trabalho, por outro, a desvalorização da carreira desestimula os profissionais. “O maior desafio que o professor enfrenta, hoje, é a falta de valorização da profissão, e isso num contexto geral: no ensino infantil, no segundo e no terceiro grau e na pós-graduação”, reclama. Por isso, João Batista acredita que a recompensa pelo trabalho vem do valor que ele próprio se dá e do reconhecimento dos alunos. Muitos deles até escolheram a mesma carreira. “Com certeza, eu devo ter desenvolvido a vontade de seguir tanto a docência quanto a minha área, que é cirurgia, em diversos alunos meus. Tenho ex-alunos que são colegas de profissão na minha especialidade”, finaliza.

 

Paula Rafiza
 

 

Sem medo de aprender

O professor que se dedica à docência e mostra interesse pelos alunos se destaca e desperta neles a vontade de aprender. É nisso que acredita Luiz Carlos Iasbeck, docente do curso de comunicação social da Universidade Católica de Brasília (UCB). “Eu procuro fazer com que ele tenha vontade de aprender mais e costumo sempre dizer para os meus alunos que eles não têm de estudar para o professor, devem estudar para eles mesmos, para a vida deles”, relata. Luiz Carlos não acha que seja um professor entusiasmado. Na opinião dele, o termo remete a um profissional bobo, que gosta de ser popular e está sempre animado. “Tem dia que eu vou dar aula sem vontade nenhuma, mas sou profissional e acredito naquilo que faço. Por isso, supero e executo (o trabalho) da melhor maneira”, explica. Segundo Luiz Carlos, o que faz ele ser reconhecido pelos estudantes é o fato de valorizá-los e nunca tratá-los como incapazes. “Tem aluno de todo tipo, mas acredito que cada um deles tem condições de aprender”, afirma. Em sala de aula, ele não usa a posição de professor de forma autoritária, mas também não deixa que ninguém se acomode. “Estudar é uma forma de ser infeliz, porque você vai se incomodar, e é assim que a gente cresce. Nenhuma pessoa acomodada evolui”, atesta.

 

Arquivo Pessoal

 

Ensino com foco no aluno

A paixão pelo trabalho e a preocupação com os alunos norteiam a carreira do maranhense Anderson Nascimento, 38 anos, e são os dois fatores que, na opinião dele, fazem com que os alunos o admirem. “Provavelmente, eles veem isso nos meus olhos. Na hora em que eu falo, a paixão por aquele tema e a vontade de transmitir o conteúdo transparecem”, conta. Ele é professor do curso de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB), onde foi homenageado diversas vezes pelos alunos nas cerimônias de colação de grau. Hoje, após pedir uma licença de três anos, ele mora nos Estados Unidos e dá aulas na Universidade de Washington. No terceiro trimestre de trabalho, já recebeu as melhores avaliações dos alunos do departamento do qual faz parte. “Eu me sinto extremamente privilegiado de estar na sala de aula. O fato de o aluno dedicar um tempo precioso da vida dele para ficar na sua frente discutindo determinado tema com você, para mim, é um grande privilégio”, relata. No entanto, manter o mesmo entusiasmo sempre não é tarefa fácil no Brasil. Para ele, falta valorização financeira e acadêmica. “O reconhecimento não existe no Brasil tanto quanto nos Estados Unidos. O bom professor é mais recompensado aqui. No Brasil, o professor ser mediano, bom ou ruim não faz muita diferença.”

 

 

 

Leia

O professor universitário entusiasmado — Seis estudos sobre uma espécie em extinção
Edição do autor
164 páginas
R$ 35
Autores: Carlos Lopes, José Florêncio Rodrigues Júnior, Cristiane Faiad, Luiz Pasquali, Cléa de Lima e Silva, Jaqueline Fonseca Rodrigues e Bernardina Maria Vilhena de Souza.

 

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