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Conheça histórias de professores inspiradores no ensino superior

No dia dedicado a eles, confira docentes que se destacam e são admirados por universitários da capital federal

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postado em 14/10/2015 21:21 / atualizado em 15/10/2015 18:02

Laura Tizzo /Especial para o Correio

Para comemorar o Dia do Professor, celebrado nesta quinta-feira (15), o Eu, Estudante reuniu histórias de docentes que fazem a diferença no ensino superior e são considerados inspiradores por alunos, seja pelos métodos inovadores de ensino, seja pela trajetória exemplar em sala de aula. São uma classe de profissionais cujas aulas são aguardadas por entusiasmo e carinho e servem de exemplo para seus pupilos e também para colegas.

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Pescadora de atenções
Um aluno de biologia da Universidade de Brasília (UnB) entra na sala para assistir à aula de microbiologia, disciplina do quinto semestre focada em micro-organismos, principalmente bactérias e fungos. Projetada no quadro, está uma das imagens icônicas do filme A primeira noite de um homem, em que o ator Dustin Hoffman aparece parado à porta, admirando a perna de uma mulher. É com pontos de partida assim que a professora Cynthia Kyaw, 56 anos, começa a lecionar. Para saciar a curiosidade dos alunos, ela dedica alguns minutos para explicar do que trata o filme e cita peculiaridades, como o fato de aquela perna não ter sido a da atriz Anne Bancroft, protagonista do filme, mas a de uma dublê.

Há anos Cynthia usa uma “imagem do dia” para fisgar a atenção dos estudantes. Só então passa a ensinar o conteúdo de microbiologia. Aluno do 5º semestre de biologia, Lucas Leon conta que a técnica funciona. “Esses dias ela pegou uma imagem do Pink Floyd e contou histórias da banda. Toda aula é assim. Todo mundo quer chegar mais cedo para ver essa primeira parte. Eu mesmo, quando chego atrasado, fico chateado por ter perdido o começo.”

Não são apenas as imagens que a docente utiliza para introduzir a aula ou as camisas de banda de rock que veste para lecionar que chamam a atenção dos estudantes. “A professora sempre traz assuntos novos e trabalha com arqueias, mas ninguém nunca fala delas”, complementa Lucas Leon. Arqueias, segundo Cynthia, são micro-organismos que se assemelham a bactérias em uma série de aspectos e também se parecem com eucariotos, células que têm núcleo. A professora, porém, enfatiza que há diferenças: “Elas não são bactérias, não são eucariotos, são arqueias”, enfatiza, com bom humor.


O assunto, de fato, não é muito abordado no Brasil. A primeira vez em que a educadora ouviu falar dele, estava no mestrado em São Paulo, mas só veio trabalhar efetivamente com as arqueias com a ajuda de outro professor da UnB, que tinha materiais de laboratório sem os quais a pesquisa seria inviável. Desde então, Cynthia desenvolveu estudos e orientou diversos alunos de mestrado sobre tais micro-organismos.

 

Laura Tizzo/Esp. CB/D.A Press

 

Bióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre e doutora pela UnB, Cynthia começou a dar aulas na instituição em 1995 como substituta e, desde 1996, é professora efetiva. Ao ouvir relatos de servidores da UnB que faziam uma visita à USP sobre como era a pós-graduação em biologia molecular, que compreende a microbiologia, se interessou e veio para o Distrito Federal.

Inovação, irreverência e temáticas pouco exploradas são parte do somatório de elementos que fazem de Cynthia uma professora bastante querida pelos alunos. A esses fatores, junta-se outro, que pode ser entendido como a cereja do bolo: a paixão pela docência. “Eu amo, adoro dar aula. Quando comecei, foi muito difícil, porque sou muito retraída, mas passei a ter um prazer enorme nisso. É uma das minhas atividades preferidas; gosto tanto quanto de fazer pesquisa ou até mais. O contato com esses meninos é muito bom”, revela.

Inovação para ensinar
Professor há cinco anos, Daniel Boson, 35 anos, dá aulas de direito no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Desde o início do semestre, fornece a alunos de duas disciplinas - economia política e direito econômico - um jogo on-line criado por ele para aprofundar os conhecimentos das matérias. A brincadeira, optativa, fica disponível em uma plataforma virtual de apoio a ensino presencial, o Moodle.

 

O jogador deve responder a 10 questões por rodada. Quando o participante dá início às respostas, tem 20 minutos para concluí-las. Os três alunos que mais acertam compõem o grupo intitulado Alemanha. Em seguida, vem o grupo Espanha, que compreende do 4º ao 15º colocados. No nível intermediário, está o grupo Brasil e, por fim, a Zona de Acesso.

Laura Tizzo/Esp. CB/D.A Press


O jogo é sério e contem meios de evitar fraude. Para cada participante, as alternativas a serem marcadas são trocadas. Assim, o jogador não tem possibilidade de utilizar o gabarito de outra pessoa. O Moodle também condiciona, previamente, uma ordem para as respostas. Não se pode, por exemplo, pular da sexta para a nona questão. Quem terminar em primeiro lugar é premiado com um vale-jantar no valor de R$ 120 e um certificado atestando a vitória.

Os melhores colocados também recebem cartas de recomendação para estágios ou bolsas de pesquisa. Os participantes que atingirem, pelo menos, 50% de acertos têm aumento de menção ao fim do semestre. Daniel explica que os resultados pedagógicos são visíveis. “O rendimento é muito melhor, porque eles têm mais estímulo para assistir às aulas. Alguns até estudam antes do questionário. No dia seguinte, podem conferir o gabarito”, conta ele, que mora em Brasília há 10 anos. Ele veio para o DF quando passou no concurso do Ministério da Fazenda. Lá, ficou por um ano. Em 2007, foi aprovado em uma seleção para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, onde trabalha até hoje.

Dois motivos levaram o jurista a seguir uma carreira paralela como professor. Uma delas, segundo ele, é o fato de ter se identificado com a área de direito econômico. "Descobri o que queria estudar na vida. Também passei a gostar de transmitir isso. Quando você encontra algo que ama, quer falar a respeito para os outros. A aula é uma oportunidade de passar isso para os alunos, debater, discutir, estar com outros professores", diz.

"O que a gente discute em sala aborda as consequências do direito, analisa se está ajudando a sociedade a se desenvolver, por que a situação está como está", diz o mestre pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e doutorando em direito e políticas públicas no UniCeub.

Professor de matemática e decano
O decano de Ensino de Graduação da UnB, Mauro Rabelo, 56 anos, é referência para os alunos do curso de matemática. Em São João Del Rei (MG), cidade onde nasceu, começou a se familiarizar com quadro e giz aos 14, ensinando uma turma preparatória para o exame de admissão ao ginásio – teste obrigatório existente entre 1931 e 1971 e que permitia a passagem do curso primário para o ginásio. Acompanhando a máxima interiorana de que “quem gosta de matemática faz engenharia”, Rabelo entrou para a UnB aos 18 anos, em 1978. Depois de dois anos, mudou para matemática, segundo ele, “por entender que a vocação era para dar aula”.

Laura Tizzo/Esp. CB/D.A Press

 

“Eu acho que se eu tivesse feito engenharia, seria professor de engenharia e não engenheiro. Mas é muito mais divertido ser professor de matemática”, diz. No segundo semestre da graduação, Rabelo assumiu a monitoria de disciplinas como química, física e cálculo e começou a dar aula particular para estudantes de arquitetura. Aos 20 anos, o mineiro concluiu o curso e, aos 21, entrou para o mestrado. Na mesma época, foi contratado como professor auxiliar. Após esse período, chegou a passar um tempo em Campo Grande, mas logo retornou a Brasília para o doutorado e foi empregado novamente como professor da UnB.

São mais de 34 anos de docência no ensino superior, sendo 32 deles na Universidade de Brasília. Quando se soma também a experiência aos 14 anos, são mais de 40 anos de sala de aula. Apesar da longa trajetória ensinando matemática, Rabelo não sabe a solução para uma conta: quantos alunos teve. Há três anos, o educador é decano de Ensino de Graduação da instituição pela qual tanto se esforça. Quando questionado sobre o que faz na recente função, ele responde: “avaliamos os problemas e tentamos chegar a possíveis soluções”.

Poder ao aluno
Provavelmente vários estudantes desejaram, ao menos uma vez na vida, ter o poder de se avaliarem - competência geralmente delegada a professores. A princípio pode soar uma tarefa fácil, quando comparada ao período assustador de provas. Esse, contudo, tem sido o método de avaliação utilizado pela professora Maria da Glória Magalhães há alguns anos. Diferentemente da primeira impressão que pode causar, a autoavaliação é uma tarefa puxada. Glória pede que os alunos do curso de letras – francês da UnB escrevam um diário reflexivo em francês por semana.

Laura Tizzo/Esp. CB/D.A Press

 
O documento deve conter análises sobre os conteúdos vistos em sala e detalhes que tenham chamado atenção. Os diários iniciais têm formatos livres, ou seja, o universitário opta pelo tamanho de sua preferência. À medida que o semestre letivo avança, as exigências sobre o texto e sobre o tema aumentam.

“Meu objetivo é encorajar a autonomia e o poder do aluno, para que ele sinta que é agente do próprio aprendizado e não passivo. Eu não sou a detentora do conhecimento”, explica. Aos 55 anos, ela é professora desde os 15, quando ensinava histórias bíblicas a crianças numa igreja evangélica. A graduação foi em pedagogia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Depois de formada, começou a lecionar para a educação infantil. Enquanto isso, descobriu uma paixão pelo teatro, que motivou a primeira ida à França. A viagem tinha como propósito iniciar o estudo na arte teatral, mas Glória não abandonou a docência. Em território europeu, ensinou a língua materna. Após um período no exterior, a paulista retornou ao Brasil e se dedicou à pós-graduação. Foi quando concluiu os cursos de mestrado e doutorado. Na UnB, atua como professora desde 2009.

O aluno do sétimo semestre de letras - francês Danilo de Sousa diz que Maria da Glória é, para ele, a definição de um professor ideal. “Ela não é arrogante. Ao ensinar, não transmite dureza, mas as pessoas a respeitam.”

Missão entre os indígenas

“O mundo não pode girar em torno só daquilo que eu vejo”, diz o professor do Departamento de Genética e Morfologia da Universidade de Brasília Umberto Euzébio, 55 anos. Educador também no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam), ele gosta de misturar disciplinas e culturas: “Assim, você consegue entender o outro e perceber que ele tem uma forma diferente de pensar da sua”. Desde a primeira tese de mestrado que orientou, em 2001, a cultura indígena tem feito parte da vida do educador. De 2005 a 2009, Euzébio participou do Projeto Rondon, ministrando oficinas multidisciplinares para índios pelo Brasil.

Unilab / Divulgação


O educador foi coordenador dos estudantes que ingressaram pelo convênio entre a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a UnB, criado em 2004 visando a integração dos indígenas na universidade. Euzébio ocupou o cargo em 2009 e de 2011 a 2014, quando a coordenação foi extinta. O professor, no entanto, continuou o trabalho de acompanhamento desses estudantes.

“Montamos, em 2009, por demanda dos indígenas, um sistema de monitoria. Para participar, o requisito é ter empatia com a causa. São os alunos que escolhem os monitores, que fazem um acompanhamento semelhante a uma aula particular”, explica. Euzébio acredita que a universidade deve se adaptar às demandas dos alunos. “Procuramos fazer com que eles tenham mais autonomia e consigam demonstrar a própria identidade”, diz.

Segundo o docente, os indígenas enfrentam uma série de dificuldades para se integrarem ao ensino superior. “Como os ensino médios e fundamental foram lecionados na aldeia, na língua materna, eles não sabem se expressar em português.” Outra questão que atrapalha é a estigmatização. “Muita gente acha que, por ser indígena, ele tem que andar com pena e cocar. Alguns professores acreditam que os alunos são burros e não têm condições de aprender. Não aprendem porque o professor está usando o método de ensino dele: é preciso entender que existem outros”, afirma.

Quando há alunos indígenas ou imigrantes na turma, Euzébio acredita que o docente deve adotar uma postura diferente. “Quando trata os alunos de maneira uniforme, ele não percebe que há quem precise de atendimento diferenciado, porque não tem conhecimento da língua, por exemplo”, percebe. O professor costuma conversar com os estudantes para descobrir quais são as dificuldades enfrentadas e se dispõe a atendê-los em outros horários.

Após ser coordenador de um projeto brasileiro de capacitação de professores nas áreas de ciência e tecnologia em língua portuguesa no Timor Leste, de 2009 a 2011, Euzébio se atentou para os imigrantes no Brasil. Desde 2012, coordena os projetos de extensão Acolhimento e Inserção de Imigrantes Haitianos à Cultura Brasileira em Português do Brasil e Acolhimento e Inserção de Refugiados do Paquistão e Bangladesh à Cultura Brasileira em Português do Brasil, em que alunos da universidade dão oficinas para imigrantes paquistaneses, bengalis e haitianos duas vezes por semana para estimular a comunicação em português e informar sobre a cultura brasileira.

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Saiba mais sobre a data
O Dia do Professor é comemorado anualmente em 15 de outubro. A data se tornou feriado escolar por meio do Decreto nº 52.682, de 14 de outubro de 1963. Apesar da homenagem recente, a profissão é uma das mais antigas do mundo. A filosofia antiga, há 25 séculos, contava com exemplos de mestres, como Sócrates. No Brasil, o primeiro registro da presença de uma escola foi em 1549, em Salvador. Os jesuítas que a criaram também fundaram o segundo colégio, em 1554, em São Paulo.

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