Entrevista / Marianne Franke-Gricksch

Modelo sistêmico para educadores

Pedagoga alemã e a primeira professora a atuar com as leis sistêmicas em sala de aula fala sobre o efeito dos laços familiares no processo de ensino escolar. Entre as ideias defendidas por ela, está o incentivo à responsabilidade entre os alunos e à posição de colaboração (e não de hierarquia) entre mestres e pupilos

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postado em 11/12/2016 08:00 / atualizado em 11/12/2016 18:34

Gabriela Studart/Esp.CB/D.A Press

Pedagoga e especialista em educação primária e secundária pela Universidade de Munique, a alemã Marianne Franke-Gricksch esteve em Brasília, em novembro, para dar uma palestra sobre sistêmica fenomenológica pedagógica e ministrar um módulo do curso de pós-graduação em sistêmica fenomenológica familiar, promovido pela Sistêmica Consultoria em parceria com a Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs). Considerada a primeira professora a atuar com as leis sistêmicas segundo Bert Hellinger em sala de aula e autora do livro Você é um de nós — percepções e soluções sistêmicas para professores, alunos e pais (editora Atman, 192 páginas, R$ 47), ela é membro do corpo docente do Wieslocher Institut, na Alemanha. Criadora da abordagem de sistêmica fenomenológica pedagógica, a consultora promove oficinas e treinamentos sobre a temática e também sobre constelações pedagógicas familiares. A alemã que nasceu em 1942 defende a inclusão da família na dinâmica escolar, de modo a reconhecer a hierarquia entre pais e filhos é a única que existe naturalmente. Assim, professores e alunos devem colaborar lado a lado.

Como a sistêmica fenomenológica familiar se relaciona com a educação escolar?

Os conhecimentos sobre essa teoria partiram das experiências com constelações familiares, instrumentos pro meio dos quais é possível captar e entender áreas emocionais e físicas do ser humano. É difícil ou quase impossível explicar isso por meio de parâmetros da ciência tradicional. Eu faço parte de um grupo de consteladores cientistas e nos encontramos regularmente para tratarmos de assuntos nessa área. Em minha experiência de 28 anos em escolas de níveis fundamental e médio na Alemanha, que são quase todas públicas, percebi que os pais acreditavam que cabia à escola o papel de formar o indivíduo enquanto ser social. Mas as instituições de ensino de hoje não têm essa função. Na prática, todos os filhos são ligados aos pais pela lealdade, mesmo quando dizem que os odeiam. Um exemplo: um rapaz de 13 ou 14 anos me dizia que não tinha vínculos com o pai e que, quando adulto, não manteria mais contato com ele porque apanhava muito em casa. Fiquei surpresa e disse que, mesmo assim, o laço paterno permaneceria. Após uma semana, o adolescente se atrasou para a aula e estava muito agitado. Perguntei o que havia ocorrido. Ele disse que o pai havia sofrido um acidente terrível. Ao saber disso, chamei a ambulância e fui junto para o hospital. Ao chegar, o menino pegou na mão do pai e ficou com os olhos cheios de lágrimas. Perguntei: “então, você o ama de fato:”. Ao que o garoto respondeu: “O que fazer? É meu pai, né?” A experiência de um jovem dentro da sociedade é muito distinta dessa lealdade com os pais, que é a base e sempre fala mais alto.

 

Quando um professor tenta afastar um pouco os alunos da origem familiar para que possam aprender sobre convívio social, os alunos notam na hora essa intenção e rejeitam esse tipo de aprendizado. Esse fato também explica porque, muitas vezes, no ensino secundário há tantas dificuldades e fracassos. Não é por falta de inteligência, mas porque os estudantes não querem sentir a escola como um afastamento em relação aos pais. Obviamente os alunos não têm essa percepção consciente. A partir do momento que o professor entende e aceita profundamente a existência desse laço, passa a enxergar naturalmente os alunos sempre acompanhados do pai e da mãe. Ou seja, sempre há ligação entre família e escola.

Qual a diferencial entre a pedagogia sistêmica e modelos tradicionais de educação?

Eu poderia escrever um livro bem grosso sobre isso. A diferença principal está no modo como o professor se relaciona com o aluno. Antigamente, quando escolas eram extremamente tradicionais e autoritárias, o educador tinha o monopólio da informação, assim, só ele poderia transmitir e determinar o que os alunos deveriam aprender. Atualmente esse quadro mudou muito, pois os jovens têm acesso a conteúdos e videoaulas na internet, que podem ser bem melhores que a explicação presencial do professor. Quer dizer: ensinar o conteúdo não é mais tão importante como era há um tempo. Hoje, o professor pode dizer que está ao lado dos estudantes e que oferece apoio quando o requisitarem no processo de aprendizado. Em consequência disso, os alunos ganham mais autoridade e responsabilidade pelo próprio aprendizado. Esse é nosso objetivo na educação: formar pessoas responsáveis e qualificadas por si mesmas. A pedagogia tradicional diz que os meninos deveriam aprender cálculo, escrever e ler porque a vida exige essas habilidades. Isso implica castigos, elogios e competição entre os alunos para serem os melhores. O foco da pedagogia sistêmica está no melhoramento de toda a turma de forma colaborativa. Para isso, os alunos se ajudam mutuamente, complementando talentos e habilidades específicas que não estão, necessariamente, no currículo escolar. O que queremos como pedagogos sistêmicos é que eles se sintam bem dentro da turma. Nessa visão, o professor assume uma postura de que está ao lado dos pupilos para olharem os objetivos juntos. Se o grupo está bem neste sentido, aprender cálculo e outras coisas será mais fácil. Mas como podemos agir assim se muitos pais não acham esse caminho tão bom e pedem que os professores castiguem ou elogiem os alunos? A atitude do professor nessa situação é dizer que percebe o que os estudantes fazem, mas que não vai castigá-los ou elogiá-los pelas ações deles e que os alunos têm que ser responsáveis pelas atitudes e assumir as consequências no aprendizado.

Como o professor aplica na prática a sistêmica familiar na pedagogia?

Trata-se, na verdade, apenas da postura interior do professor. Por exemplo, quando uma mãe pede auxílio ao educador a fim de resolver problemas relacionados ao filho em casa, a reação correta do professor não é dar conselhos, mas expressar respeito, compreendendo que a mãe enfrenta várias dificuldades na criação do filho e que ela está procurando resolvê-las. O professor não se mete na vida familiar. Dessa forma, os pais percebem, mesmo que inconscientes, se o professor é respeitoso. Se esse reconhecimento de respeito não existir, o professor não consegue alcançar o coração nem dos alunos nem dos pais. A partir daí, surgem questões éticas. Por exemplo, o professor pode respeitar um pai que chama o filho de 14 anos para assistir pornografia? Ou um que é extremamente machista e fala coisas horrorosas em casa? Isso sem mencionar casos que envolvem violência e abusos sexuais que ocorrem no ambiente doméstico. Para entender, temos sempre que nos referir a algo básico: o pressuposto de que a dignidade do ser humano é indestrutível. Quer dizer, independentemente do que se faz, a pessoa preserva a própria dignidade enquanto ser humano. Agora, imagine a situação do professor de ser capaz de ter essa postura ao se deparar com situações delicadas na família. É muito difícil. Sobre como lidar em relação às consequências das atitudes na visão sistêmica, podemos usar um exemplo: quando o aluno machuca um colega na escola, deve ganhar a chance de se reabilitar nesta mesma escola e não ser expulso. Uma alternativa seria atribuir alguma tarefa para ele fazer durante o tempo em que não estará em aula em algum lugar como um hospital infantil. Ali ele poderá ajudar as crianças a se vestirem, dar banho, entre outras coisas. Nessa situação, o professor visitaria o estudante em reabilitação regularmente para ver se ele está mudando de comportamento. Depois, esse aluno pode voltar e apresentar à classe um relato sobre o que fez no hospital. Dessa forma, ele ganha a chance de perguntar se a turma o aceita e se o recebe com confiança novamente. Se a turma disser que sim, a gente pode ver que esse menino, realmente, se reabilitou.

Como essa abordagem está sendo recebida?

Observei que, em países autoritários, os alunos não têm, na prática de ensino, a oportunidade de expressar o que pensam e o que sentem, pois não se dá espaço para isso. China, Rússia e México são exemplos de nações em que os alunos são orientados a memorizar muito e reproduzir o que chega até eles, não há muita autonomia. Por outro lado, Alemanha e França incentivam a expressão de opinião e sem discriminações. Ainda tenho poucas experiências no Brasil, mas percebo que o problema neste país é a existência de um monte de escolas particulares que, na verdade, são empresas que querem ganhar dinheiro. As diretorias dessas instituições orientam o que estudantes e pais deveriam fazer, mas esse não é um pensamento pedagógico. Outro grande problema do Brasil é a remuneração dos professores: observando o quanto o professor ganha e o que ele pode fazer na vida com o que recebe, podemos ver o grau de importância que o Estado dá para a educação.

Glossário
Sistêmica fenomenológica pedagógica

Desenvolvida por Marianne Franke a partir da experiência dela como professora, a perspectiva sistêmica na educação acolhe, além dos alunos, os pais — elemento essencial para ensinar com sucesso. O conhecimento aplicado na educação deriva de treinamentos que a pedagoga obteve com o trabalho de constelações familiares junto a Bert Hellinger sobre a abordagem construtivista sistêmica.

Sistêmica fenomenológica familiar

Conceito do alemão Bert Hellinger que proporciona uma compreensão dos sistemas complexos advindos dos relacionamentos do indivíduo na família, na organização e na sociedade. Busca a solução de problemas que estão centrados no núcleo familiar e não apenas na pessoa isoladamente. Para Hellinger, quando as três leis (ou necessidades) que interferem na família — hierarquia (estabelecida pela ordem de chegada), pertencimento (estabelecido pelo vínculo), equilíbrio (estabelecido pelo dar e tomar/receber) — são violadas, surgem consequências que afetam outros membros do grupo (até naqueles que não haviam nascido quando ocorreu o problema). Bert Hellinger concluiu durante o seu trabalho com centenas de sistemas familiares que o reconhecimento do amor que existe no seio das famílias comove as pessoas e muda as vidas delas. A compreensão disso facilita a participação em equipes interdisciplinares. O conceito pode ser aplicado amplamente âmbito da psicoterapia, aconselhamento de casais, pedagogia, consultoria de empresas, dramaturgia, política e solução de conflitos sociais.

Constelação familiar
A constelação familiar se baseia no uso de voluntários para representar membros da família ou do grupo social de uma pessoa e trabalhar um tema específico. Para o tratamento terapêutico, é necessário que a família e o sistema em que se está conectado sejam levados em consideração. O trabalho com as constelações familiares foi desenvolvida há mais de 20 anos por Bert Hellinger e se baseia no pensamento sistêmico que iniciou com Gregory Bateson nos últimos 30 anos.

Constelação organizacional ou empresarial
Nas constelações sistêmicas organizacionais, são demonstradas informações essenciais sobre as principais causas de estruturas conflituosas nas empresas. É uma ferramenta para conciliar pessoas, equipes, lideranças, departamentos e sócios de uma empresa. O foco está mais em cocriar soluções do que em análises prescritivas.

Bert Hellinger
Anton Suitbert Hellinger nasceu em 1925, na Alemanha, e formou-se em filosofia, teologia e pedagogia.

 

* Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa