Professor brasileiro é premiado em Londres

Eduardo Amos é autor de coleção de livros que aborda o tema de educação pela paz

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postado em 07/07/2017 13:55 / atualizado em 07/07/2017 15:00

 

Divulgação Richmond Brasil


Paulista de Rio Claro (SP), o professor Eduardo Amos, 65 anos, foi finalista e recebeu o prêmio da 15ª edição do ELTons em Londres, em 14 de junho, pelos quatro livros da coleção Students for peace. A coleção, lançada pela editora Richmond, destinada aos últimos anos do ensino fundamental. Por meio da língua inglesa, o conteúdo da obra tem como foco a educação para a paz, além de apresentar noções de tolerância, o respeito à diversidade, a empatia e a cooperação no ambiente escolar. A premiação contou com a participação de 115 projetos internacionais divididos em cinco categorias. Os finalistas na categoria "Excelência em Inovação em Material Didático para o Ensino de Língua Inglesa" eram da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Brasil. Os ganhadores das outras categorias eram da Nigéria, Escócia, Inglaterra, Finlândia. O Consulado britânico reconheceu o material como uma das melhores formas para o ensino e aprendizagem da língua e concedeu a premiação na categoria “Inovação em materiais didáticos para ensino do idioma inglês como língua estrangeira”.

 

O educador estudou parte do ensino médio por meio de intercâmbio em Ohio, nos Estados Unidos e concluiu também curso de língua inglesa em Bratleboro, Vermont. No Brasil, estudou teatro na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), sem jamais abandonar as salas de aula.

 

Também cursou educação na Faculdade de Educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Eduardo ministrou aulas de inglês durante 22 anos para o ensino fundamental e médio, tanto na capital do estado quanto no interior. “Comecei por necessidade. Minha família morava no interior do estado e eu tinha que viver na capital para poder estudar. Então, em pouco tempo, descobri que a coisa que eu mais gostava de fazer era dar aulas de inglês. Nunca mais parei.”, explica. Atualmente, é membro do Grupo de Estudos para Educação para a Paz e Tolerância (Geepaz) do Laboratório de Psicologia Genética da Universidade de Campinas(Unicamp)), onde ocorreram as discussões sobre educação e paz, tema da coleção premiada. Em coautoria com Elisabeth Prescher e Ernesto Pasqualin, autores de diversos exemplares na língua inglesa, publicou mais de 30 exemplares paradidáticos.

 

 

Confira a entrevista que o professor Eduardo Amos concedeu ao Eu, estudante

 

 

 

No Brasil, a maior parte das pessoas ainda não fala inglês e o que se aprende na escola não habilita para o uso competente da língua. Como é possível mudar essa realidade?

 

Essa questão é bastante complexa porque envolve esferas de decisão, políticas públicas e mudanças significativas no cotidiano do colegial. Ampliação da carga horária para o ensino de língua estrangeira e mudança na formação inicial do professor de língua estrangeira são apenas dois aspectos dessa questão; além, é claro, de uma profunda reformulação do currículo específico para o ensino e aprendizagem da língua inglesa.

 

Quais são seus projetos para o futuro?

 

Pretendo continuar a estudar a Educação para a Paz e como ela pode contribuir para a melhoria do ambiente escolar. Também penso em ampliar a coleção para o Fundamental I ou para o Ensino Médio, mas isso não depende apenas de mim.

 

Quantas escolas adotaram o material de ensino que ganhou o prêmio?

 

Não tenho um número exato das que adotaram a coleção Students for Peace. O que sei é que temos colégios em todas as regiões do país. O foco do meu trabalho atualmente está na qualidade da relação que tenho com os professores e alunos que usam esse material. Para isso, conto com o apoio da plataforma digital exclusiva da coleção através da qual interajo com alunos do Brasil inteiro. Além disso, mantenho um grupo exclusivo para os educadores numa importante rede social que permite o contato direto dos professores comigo. Tudo é muito rápido, instantâneo e direto.

 

De onde veio a inspiração para escrever o Students for peace?

 

A inspiração surgiu do meu trabalho como professor nas escolas. O ambiente está muito complicado, há muita intolerância, bullying e xenofobia que se amplificam. Isso tudo compromete o aprendizado do aluno. No meio da inquietação devido ao cenário vivido, procurei uma solução. Assisti a vários congressos, daí pensei em trabalhar a educação na paz.

 

Os livros foram reconhecidos pelos colégios?

 

O tema é muito valorizado nos centros de ensino. O cenário muda de figura quando se trabalha com respeito. Os educadores precisam ter posturas democráticas e não extremamente autoritárias. Quando o material ficou pronto, várias escolas aceitaram o método de ensino pela importância do serviço. Começou a ter uma aceitação pelo trabalho no “boca a boca”, na indicação. Devido a obra retratar temas que saem do cotidiano tradicional, ela abre possibilidades de o aluno pensar e refletir sobre todas as questões de valorização da diferença e da diversidade.

 

O que o Sr. gosta de fazer no tempo livre?

 

Além de cuidar das minhas plantas, no meu tempo livre gosto de caminhar. Não faz muito tempo que acabei de atravessar a Inglaterra a pé numa caminhada de 6 dias. No ano que vem planejo caminhar uma parte do Caminho de Santiago de Compostela. Também tenho planos de fazer vários dos caminhos existentes aqui no Brasil, como o Caminho do Sol, Caminho da Fé e o Caminho das Missões.

 

Que dica o Sr. deixa para jovens que desejam melhorar os conhecimentos em inglês?

 

Sugiro que façam uso e aproveitem tudo o que o mundo de hoje proporciona para o aprendizado da língua inglesa. A internet está cheia de sites, vídeos e blogs que ajudam a melhorar nosso conhecimento. Tudo isso está ao alcance de qualquer pessoa e não é necessário pagar nada a mais para acessar.

 

 A leitura é direcionada a que faixa etária?

 

Do 6º ao 9º anos do ensino fundamental, de 12 a 16 anos.

 

É possível ter acesso digital à obra?

 

São livros impressos, mas também todos têm possibilidade de trabalhar com digital. Outro grande aspecto que marca a coleção é a plataforma digital criada pela editora no formato de uma rede social no site www.studentsforpeace.com.br. Nesse espaço, que tem a cara da maior rede social que existe, o autor cria um perfil e faz posts sobre tudo aquilo que publica na página e compartilha com estudantes no Brasil inteiro. Acaba sendo muito interativo e legal para o aluno, um modo de incentivo.

 

Por que aprender inglês é tão importante?

 

O mundo de hoje, permeado pelos meios de comunicação digitais como internet, redes sociais, tv a cabo, etc, deixa clara a necessidade de se ter um bom conhecimento da língua inglesa. Esse é o idioma do conhecimento científico. Se um pesquisador brasileiro deseja publicar um artigo em âmbito mundial, isso tem que ser feito em inglês. Da mesma forma são as transações comerciais entre diversos países. Você até pode não saber sobre a linguagem, mas não conseguirá sair das fronteiras do seu país falando apenas a sua língua. É óbvio que tudo é uma questão de poder. Língua é poder.

 

Produzir um livro didático é uma tarefa difícil? Por quê? Qual o maior desafio nesse trabalho?

 

Produzir uma obra didática de qualquer disciplina escolar é uma tarefa complexa. Em primeiro lugar, é necessário pensar na faixa etária a que se destina o material. Isso exigirá uma comunicação adequada, caso contrário o aluno não entenderá o que se está tentando ensinar. Como o livro é um espaço finito, a escolha do que será incluído é tão importante quanto o que ficará de fora. Os desafios são muitos, mas um dos que considero mais importante é elaborar um material que permita ao aluno refletir e agir sobre o cenário em que vive.

 

Já recebeu algum prêmio antes?

 

Sim, mas não na área de educação ou do ensino de inglês. Nos anos 1980 tive uma companhia de teatro que se chamava A Cidade Muda. A companhia recebeu vários prêmios, não apenas no estado de São Paulo.

 

Você esperava ganhar o prêmio?

 

Não. Quando comecei a trabalhar na elaboração desse material, não pensava em prêmio, mas apenas em criar um material que oferecesse um aprendizado mais significativo para os alunos e que contribuísse para um ambiente mais acolhedor, inclusivo e respeitoso no ambiente de ensino. O prêmio não estava nos meus planos.

 

Como se sentiu ao ganhar?

 

Confesso que a ficha demorou a cair. Foi um misto de orgulho, satisfação e felicidade ao ver o reconhecimento de uma ideia e um projeto que foi construído com o esforço de um número muito grande de pessoas. A produção contou com a participação de várias equipes que colocaram o melhor da sua expertise, seus sonhos e seu desejo de contribuir para algo que até então não havia sido feito.

 

O que simboliza para o país ter um brasileiro ganhando um prêmio de ensino de inglês?

 

Não tenho ideia do que simboliza um brasileiro ganhar o prêmio mais importante no mundo do ensino de inglês, ainda mais na categoria inovação. Contudo, espero que o país não desperdice mais essa oportunidade. Penso que temos que, como país, aprender a valorizar o que aqui se produz e não apenas aquilo que vem de fora como modismo. Esse prêmio é muito valorizado lá fora. Espero que aqui também o seja. Mas isso é mais uma esperança do que uma certeza de que vá acontecer.

 

Como é retratada a educação para a paz nos capítulos?

 

Existem várias maneiras pelas quais se chega à educação para a paz, o primeiro aspecto foi a escolha com cuidado e muito critério dos temas dos capítulos, ainda mais com a língua inglesa. Aborda o aspecto linguístico coma identidade. Num outro capítulo é ensinada a expressão how much, continuei ensinando how much, só que com o contexto diferente: educação financeira. A conscientização correta das finanças é essencial na questão das desigualdades sociais, acesso a bens materiais, planejar e ensinar o aluno a ter um orçamento do gasto com o dinheiro, a consciência. Eu sinto que a inovação está aí, eu trabalho com as mesmas coisas que sempre trabalhei, só que com um enfoque totalmente inovador. No fim, cada capítulo termina com a parte “peace talk”, essa sessão promove uma discussão sobre o tema do capítulo.

 

*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá