Com o Mulheres Inspiradoras, professora do DF concorre a Prêmio Claudia

Educadora que criou projeto para ampliar o conhecimento sobre o papel e a força da mulher, concorre à principal premiação feminina da América Latina. A cerimônia ocorrerá hoje (2) às 20h30 e a transmissão ao vivo do evento será feita na página do facebook da revista.

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 02/10/2017 19:36 / atualizado em 03/10/2017 20:39

Robson G. Rodrigues/ CB / D.A Press

 
“Eu sinto que, neste momento em que estou indicada ao prêmio, não é apenas a professora Gina que está aqui, é, também, a professora de escola pública, é a mulher negra, é a juventude negra, é a educação transformadora voltada para os valores plurais”, conta Gina Vieira Ponte, 45 anos, que concorre à 22ª edição do Prêmio Cláudia na categoria Trabalho Social. A razão da indicação é o projeto Mulheres Inspiradoras, que ela desenvolveu em 2015 com o objetivo de apresentar obras de autoria feminina, assim como biografias de mulheres em posição de destaque, a alunos do ensino fundamental e médio. 

A premiação, cuja transmissão ao vivo poderá ser conferida aqui, será entregue hoje (2), às 20h30, na Sala São Pedro, (Praça Júlio Prestes, São Paulo). Gina, que é professora no Centro de Ensino Fundamental nº 12 de Ceilândia, acredita que o troféu concedido às vencedoras pode ser muito benéfico ao projeto. “O Prêmio dá visibilidade a tudo proposto e sugerido no Mulheres Inspiradoras. Serve de incentivo para que outras educadoras e meninas olhem para a própria história de maneira diferente. Eu já recebi depoimento de professores do Brasil inteiro que conheceram o projeto a partir do Prêmio Claudia”, relata.

A premiação, que está na 22ª edição, enaltece os trabalhos de impacto social em todo o território nacional realizado por mulheres. A votação, encerrada na última semana, foi feita pelo público por meio da internet no site da Revista Cláudia. Ao todo, são 24 indicadas nas categorias Ciências, Consultora Natura Inspiradora, Cultura, Eles por elas, Negócios, Políticas públicas, Revelação e Trabalho social. Nesta categoria, da qual Gina faz parte, também concorre Fernanda Honorato. Aos 36 anos, com Síndrome de Down, ela apresenta reportagens adaptadas a cegos e surdos sobre dificuldades físicas e mentais e viaja pelo Brasil ministrando palestras sobre inclusão. Karine Vieira, 35 completa a lista de três finalistas na categoria. Ex-presidiária, decidiu largar o crime após ter o colega morto baleado. Retomou os estudos, cursou serviço social e hoje ajuda pessoas recém-egressas do sistema penitenciário a conseguir trabalho por meio de trabalho voluntário na agência de emprego Segunda Chance.

Mulheres Inspiradoras 
 
Robson G. Rodrigues/ CB / D.A Press
 
“Uma mulher inspiradora é, antes de tudo, consciente do grande papel dela na sociedade, forte e corajosa, protagonista da própria história e capaz, a partir das próprias ações, de promover transformação social na vida daqueles que estão em seu entorno. Desde a família até a comunidade. São mulheres que não aceitam reduções pelos estereótipos de gênero”, define Gina Vieira, que usa a história de vida dessas mulheres para inspirar alunas e alunos de escolas públicas e promover reflexões sobre gênero e combate ao machismo.
 
A ideia nasceu depois de Gina assistir ao vídeo postado por uma de suas alunas em uma rede social. As imagens, que mostravam a jovem de 13 anos dançando funk, a incomodaram. “A música que era executada tinha um apelo erótico e depreciativo à figura da mulher; a roupa que a menina usava e a coreografia que ela fazia”, explica a professora. Gina viu como uma tentativa da garota de se sentir valorizada: “Desde que as meninas nascem, elas são preparadas para se compreenderem como objetos desejo masculino.” Sem saber como lidar com a situação, começou a estudar a vida de mulheres inspiradoras — até então as inspirações dela eram a mãe e professoras que teve ao longo da vida —, e desenvolveu a metodologia em que são apresentadas outras referências às estudantes. “Se essa menina estava se inspirando nesses referenciais femininos, um caminho possível seria trazer outros referenciais”, diz.

Iniciado em 2015, o projeto abrange hoje 15 instituições de ensino do Distrito Federal. “Trazer esses temas à escola enriquece o processo pedagógico, as relações sociais, inclui aquele que é sempre aleijado. As nossas meninas, muitas vezes, saem da escola porque não é feita a discussão sobre garantir o direito de que elas frequentem a escola sem que sejam obrigadas a assumir trabalhos domésticos ou a se envolverem em casamento precocemente. Ao discutir essas questões, a gente fortalece a educação, porque traz o cerne da nossa natureza, que é diversidade”, observa Gina.
 
Robson G. Rodrigues/ CB / D.A Press

Robson G. Rodrigues/ CB / D.A Press
 
O projeto consiste na leitura de seis obras escritas por mulheres, são elas: O diário de Anne Frank; Eu sou Malala; Quarto  de despejo — diário de uma favelada; Não vou mais lavar os pratos; Espelhos miradouros dialéticas da percepção e Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz. São também estudadas biografia de Anne Frank, Carolina Maria de Jesus, Cora Coralina, Irena Sendler, Lygia Fagundes Telles, Malla , Maria da Penha Fernandes, Nise da Silveira, Rosa Parks e Zilda Arns. A intenção é mostrar o impacto social que mulheres podem proporcionar, inclusive as de idade similar a dos estudantes, como é o caso de Anne Frank, que escreveu o diário entre os 13 e 15 anos, e Malala, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz aos 17 anos.

A professora promove palestras por escolas divulgando o Mulheres Inspiradoras para outros colegas. Na última terça-feira (26), ela visitou o Centro Educacional 7 de Taguatinga (CED 7) , que aderiu recentemente ao projeto. “O convite para aderir foi feito pela Secretaria de Educação. A partir daí, começamos a incorporar, cada um da sua forma, conforme foram apresentadas as ações da metodologia”, explica a professora Viviane Calasans Mello, professora de português e supervisora pedagógica do CED 7. Na escola, alunos de 12 das 16 turmas estão se debruçando na vida de grandes mulheres. Apesar de apenas os segundos e terceiros anos estarem envolvidos no projeto, Viviane acredita que o conhecimento está sendo disseminado. “Acaba contagiando outros. Depois do programa, nós tivemos denúncias de alunas relatando como eram tratadas. Essas queixas de assédios ocorreram porque elas estavam empoderadas do que é ser mulher”, comenta ela.

“No meu primeiro, ano eu nem sonhava em falar sobre mulheres. Eu acho isso muito importante. Quanto mais falar, enfatizar essas questões, melhor”, conta a estudante do terceiro ano, Geovana Costa Souza,17. Ela, que pretende se tornar psicóloga, vê diferença no cotidiano da escola. “No ensino fundamental não havia tanto respeito com as mulheres quanto eu vejo agora, pode ser a maturidade. Mas acho que hoje existe mais respeito. As mulheres estão sendo mais valorizadas. Ainda tem muita opressão, mas elas estão aceitando menos certo tipos de situação, muitas já não deixam mais o machismo tomar conta.” Yago Henrick, 17, também vê mudanças importantes em função do projeto, mas nem todos estão satisfeitos. “É a primeira vez que ouço a respeito de feminismo dentro da sala de aula, com certeza mudou minha visão. Alguns alunos adquiriram raiva do assunto e não perceberam a situação. A culpa é da influência que os pais, avós, a sociedade imprimem sobre esses valores, passando de geração em geração, e acaba sendo a única verdade que a gente conhece e nunca é quebrada pela falta de informação”, conta.
 
Robson G. Rodrigues/ CB / D.A Press
Robson G. Rodrigues/ CB / D.A Press
 

Além da indicação ao Prêmio Claudia, o Mulheres Inspiradoras já foi contemplado com outras nove premiações, incluindo o I Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos, em Lima, Peru, em 2015. Apesar do reconhecimento, Gina Vieira vê barreiras para que a metodologia ocorra. “Ainda há uma concepção de uma escola muito tradicional sobre os conteúdos. Dizem, ‘escola não é pra discutir essas questões’.  Essa história de uma escola que se orienta por uma determinada norma, que só serve para alguns e não discute esses temas só existe como miragem. A escola real tem homens, mulheres, homossexuais, negros, brancos, indígenas, como não vou discutir tudo isso?, questiona a professora.”