HOMENAGEM »

Um professor para lembrar por toda a vida

Cientistas, artistas, educadores, atleta, comunicador e o governador do Distrito Federal revelam quais foram os grandes mestres, do ensino fundamental à pós-graduação, que fizeram a diferença na formação deles como profissionais e como seres humanos

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postado em 15/10/2017 14:36 / atualizado em 26/10/2017 10:37

Hoje é  o Dia do Professor. Data para celebrar aqueles que alfabetizam, ensinam, dançam, cantam e lutam por um país melhor. No Correio, é dia de enxergá-los a partir dos olhos de seus pupilos: personalidades da política, das artes, da tecnologia e do mundo empresarial que, bem antes de se tornarem figuras de destaque em suas áreas, eram crianças, adolescentes e jovens sedentos por conhecimento e oportunidade naquilo que sonhavam fazer quando adultos. Conheça as mulheres e os homens que despertaram neles esses sonhos.

LIÇÕES QUE  FICARAM NA MEMÓRIA
» Ana Paula Lisboa
 
 

Rico Malvar, 60 anos, é cientista-chefe do Departamento de Pesquisa da Microsoft e começou a trabalhar na gigante de tecnologia norte-americana em 1997. Malvar deu aulas na UnB e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). E lembra com carinho de educadores que marcaram a vida dele. Graduado, mestre e doutor em engenharia elétrica, o carioca fez o bacharelado na UnB (entre 1974 e 1977); o mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e o doutorado no MIT. Durante o curso superior, no DF, o engenheiro foi impactado pelo trabalho de docentes especiais. 

“Tive muitos professores bons, mas os que mais influenciaram foram o Lourenço Chehab e o Carlos Lisboa — este último foi meu orientador de projeto final de curso”, rememora. Ambos os docentes faleceram, mas deixaram marca indelével numa grande comunidade de alunos. “Os dois tinham um conhecimento profundo do que lecionavam e incentivavam os estudantes (principalmente os mais interessados, como eu) a não se limitarem aos livros do curso. Eles me motivavam a buscar aplicações práticas, ou seja, as aulas deles não eram apenas no quadro-negro”, lembra.

Educador importante para a trajetória de Rico Malvar, durante o mestrado, foi Luiz Pereira Calôba, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ). “Calôba, realmente, abriu os meus olhos para o mundo da pesquisa científica. Mantenho contato com ele até hoje. Tive algumas oportunidades de encontrá-lo, nesses últimos anos, em função de visitas ao Rio de Janeiro, principalmente ao Laboratório de Tecnologia Avançada da Microsoft.”

As referências foram importantes para quando o próprio Rico Malvar deu aulas. “Trabalhei na UnB de 1979 a 1993 e o que mais me animava era quando eu interagia com alunos que aprendiam bem, estudavam a fundo e chegavam a entender partes do material até melhor do que eu. Um bom professor se realiza quando o estudante ‘passa na frente’ em termos de conhecimento”, comenta o morador de Washington. Durante os anos como educador na capital federal, o engenheiro orientou vários alunos e contratou outros como estagiários em pequenas empresas que cofundou. Para ele, um atributo intrínseco a um docente exemplar é a busca incansável por conhecimento. “Um bom professor está sempre aprendendo, principalmente em engenharia. A evolução de novas tecnologias é muito rápida e a renovação constante é essencial”, enfatiza.

Atuação visionária
» Carlos Lisboa (foto) era professor emérito da UnB, um dos fundadores do Departamento de Engenharia Elétrica da universidade e da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), se aposentou em 1995 e morreu em 2015. Graduado na área e mestre pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), fez ainda mestrado e doutorado na Universidade Purdue, nos Estados Unidos.

» Coautor do livro Introdução à eletrônica industrial, Lourenço Nassib Chehab foi, além de professor de engenharia elétrica da UnB, secretário de Radiodifusão do Ministério das Comunicações e diretor-regional da Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão. Ele, que morreu em 1996, era chamado de “o visionário das telecomunicações”. Dois auditórios, na Faculdade de Tecnologia (FT/UnB) e no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), foram nomeados em homenagem a ele.


EDUCAÇÃO EM CASA E NA ESCOLA
» Ana Paula Lisboa
 
 
 
A educadora que Murilo Rosa, 47 anos, mais admira conviveu com ele tanto na escola quanto em casa. “A minha mãe foi professora e marcou, literalmente, a minha vida”, conta o ator brasiliense graduado em artes cênicas pela Faculdade Dulcina de Moraes. Ele tem mais de 20 anos de carreira e atuou em 25 novelas, 18 filmes e 12 peças de teatro. Atualmente, participa do reality musical PopStar, da Rede Globo. “Eu estudei com ela da 5ª à 8ª série do ensino fundamental no Colégio Perpétuo Socorro”, relata o filho da professora Maria Luiza Araújo Jorge e do advogado Odair Rosa. A escola fica no Lago Sul. “Eu era um menino bastante levadinho, e ela conseguia organizar essa minha bagunça”, brinca. “Se tem uma professora top, que me marcou, é mi madre, compreendes?” Marido da modelo Fernanda Tavares, 37, o ator tem dois filhos: Lucas e Artur. 

Não era uma relação  de mãe e filho

» Maria Luiza Araújo Jorge (foto) tem 70 anos e dava aulas de história e geografia. Escreveu o livro Dos Bulhões aos Caiados. Publicado em 1984 pela editora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), a obra é um estudo da história política de Goiás entre 1899 e 1909.

» Atualmente aposentada, ela, que é apaixonada pela natureza, mora numa fazenda no interior do Rio de Janeiro. Costuma dizer que adorava dar aula para o Murilo e que “era uma relação de professora e aluno, não de mãe e filho”. Um dos episódios mais inusitados foi quando Maria Luiza pegou o filho tentando colar. Natural da Cidade de Goiás, ela completou a formação como professora entre Brasília e Goiânia. (APL)

COM ELA, DEIXEI DE SER INVISÍVEL
 
» Mariana niederauer
» Jairo Macedo 
Especial para o correio
 
 
 
Aos 8 anos, a professora da rede pública Gina Vieira viveu uma experiência que marcou a vida para sempre. Idealizadora do projeto Mulheres Inspiradoras, que ajuda na educação de jovens carentes, e finalista do Prêmio Cáudia 2017, ela se emociona ao mencionar Creusa Pereira dos Santos Lima. O relato é preciso, como se aqueles minutos de atenção exclusiva dada à então aluna da 2ª série tivessem transcorrido ontem  — Gina havia passado pela 1ª série sem aprender a ler. Não acompanhava o ritmo dos colegas de classe e decorava os textos para, depois, recitá-los diante da professora, escondendo a defasagem. “Ela me chamou até a mesa dela. Eu sentava na última carteira e, como era insegura e muito machucada pelo racismo, estava sempre tentando me esconder”, recorda.

 “A minha professora vai descobrir e me dar bronca.” Foi o que pensou quando Creusa a chamou. “Para a minha surpresa, ela me colocou no colo. Foi extremamente afetuosa, acreditou que eu podia aprender. Desdobrou-se para me ensinar e vibrou com a minha evolução.”
 
 
 
Dever cumprido com amor

» Seguidamente homenageada por Gina Vieira como mulher decisiva na formação dela, Creusa Pereira dos Santos Lima (foto) desconversa. De fala simples e encabulada, a professora aposentada afirma ter exercido seu papel como educadora. “Foi uma grande surpresa quando soube que eu tinha feito essa diferença toda. Penso que fiz o meu trabalho e fiz com amor. Quando é assim, a formação dos alunos é benfeita, e a gente se sente feliz pelo dever cumprido”, diz.

» Deu aulas para a 1ª e a 2ª séries durante 27 anos e, aos 72, recorda das crianças que passaram pela sala de aula dela. “Na família de Gina, dei aula para a maioria dos irmãos: Gina, Jane, Mateus e Moisés”. Foi na Escola Classe 27 de Ceilândia Norte que ela formou toda essa meninada. “A Gina sempre se mostrou uma menina muito dedicada, uma aluna excelente. Todos foram, de alguma forma.”

Legado,VOCAÇÃO e diálogo
» Robson G. Rodrigues*
 
 
 
Se perguntarem à Márcia Abrahão, 52 anos, qual é a profissão dela, prontamente, responderá: “professora”. Pesquisadora e geóloga, passou por vários cargos administrativos na UnB e é, atualmente, reitora da universidade. A primeira mulher a ocupar o cargo. O que aplica em sala de aula e a forma como o faz são, em boa medida, espelhados na experiência de mestres que passaram pela vida dela e a marcaram positivamente.

Não sabia o que era geologia até que uma professora de química do ensino médio sugeriu a área como opção de formação a Márcia, que queria fazer engenharia química — à época, não havia oferta do curso em Brasília. Logo no início da graduação, teve aula de cristalografia com Maria Adusumilli, ou melhor, dona Maria. Foi, também, monitora e bolsista de iniciação científica dessa docente. Quando dona Maria se aposentou, foi Márcia Abrahão quem ficou com a vaga dela.  “Sempre foi muito dedicada, sistemática e pontual. Eu me espelho nela até hoje. Era muito exigente, e eu também sou”, compara.

Atuação política 

» Maria Adusumilli, 87 anos (foto), foi professora de mineralogia e cristalografia do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília entre 1971 e 1994 , ano em que se aposentou. Cursou história natural na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil — que viria a se integrar à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O curso era composto por duas áreas: ciências biológicas e geológicas.

» Sobre Márcia Abrahão, ela guarda apenas elogios. “O trabalho de conclusão dela foi muito bem apresentado, e a maneira como ela o fez foi admirável. Era uma aluna muito dedicada e atenciosa, cumpria todas as obrigações acadêmicas”, diz. 

» Passados os anos, a mentora que Márcia jamais esqueceu ainda guarda conselhos para dar à reitora. “Hoje, ela está mais voltada para essa área política, não é? Considero assim a atuação na Reitoria. À época das ocupações dos prédios por estudantes, eu disse a ela: ‘Márcia, a melhor coisa do mundo é o diálogo’”.


TOMARA QUE SE LEMBREM DE MIM
» Igor Caíque* 
» Jairo Macedo 
Especial para o correio
 
 
 
O jornalista e blogueiro Hugo Gloss, 31 anos, nasceu em Brasília e se tornou referência no país na área de entretenimento e cobertura de celebridades. Ele teve grandes influências durante a formação acadêmica. Entre elas a da mãe, a professora Naílda Rocha. Ela lecionava e era diretora da Escola Classe 415 Norte, primeira instituição de ensino da vida do comunicador. “Eu aprendi e aprendo muito com ela, porque tudo o que os docentes da escola ensinavam, ela reforçava em casa. Tive professores maravilhosos na vida, mas ela, com certeza , é a maior referência pra mim”, diz.

Anos mais tarde, ele cursou o ensino médio no colégio Sagrado Coração de Maria, na Asa Norte. Nessa época, teve duas grandes referências: o professor de artes cênicas Wagner Boa Morte e a professora de língua portuguesa Gláucia Monteiro. “Eu escrevia e montava peças para o colégio, e ele (Wagner) valorizou a minha capacidade criativa. Incentivou-me a investir nisso, a acreditar nas minhas loucuras e a expor tudo ao público”, lembra.

“As aulas de gramática de Gláucia ficaram na minha memória e me lembro até hoje do que ela lecionava. Ambos foram fundamentais na minha vida”, conclui. Hugo Gloss conta que, por causa da agenda profissional, não mantém contato com os dois professores do ensino médio, mas guarda-os na lembrança como “pessoas especiais e que, por isso, espero que leiam esta matéria e se lembrem de mim”.

Olha, é o Bruno na tevê!

» Wagner Boa Morte (foto) está acostumado a reencontrar alunos por onde passa. Vira e mexe, andando na rua, ouve alguém chamando o nome dele. Há quase 20 anos lecionando artes visuais, e, eventualmente teatro, está acostumado. Com Hugo Gloss, porém, foi diferente. Wagner ligou a tevê, reconheceu o comunicador e pensou: “É o Bruno!”

» O nome artístico foi escolhido mais tarde. Para ele, Hugo vai ser sempre Bruno, o aluno que se destacava nas aulas de teatro pela desenvoltura no palco e fora dele. “Sempre foi um estudante e uma pessoa excelente. Era expansivo, alegre e bastante interativo”, revela. Colega de Gláucia Monteiro, a outra professora indicada por Hugo Gloss, Wagner observa: “Como o Bruno era um aluno interessado por matérias como português e literatura também, deixou indícios do que viria a ser no futuro. Não poderia estar numa área melhor”.

» É próprio das aulas dessas disciplinas deixarem essa marca, acredita o professor. “Trabalhamos muito com habilidades e com questões de expressão do indivíduo. É prazeroso fazer parte da formação não só de um artista ou de um comunicador, mas também de um ser humano bacana.”

NOSSA VOZ QUANDO NÃO HAVIA VOZ
» Mayara Subtil 
Especial para o correio
 
 
 
Exigente, rígida e defensora de causas sociais. É assim que o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, 59 anos, se recorda da professora Adalgisa Maria Vieira do Rosário. Graças às aulas de história do Brasil ministradas por ela no Departamento de História da UnB, o então calouro começou a pensar em seguir a carreira política. “Adalgisa era referência naquele departamento. Se eu me encontrasse com ela hoje em dia, diria: ‘Olha só no que a professora me transformou’. Ela é incrível”, diz Rollemberg.

Ele lembra da professora com afeto. Conheceu Adalgisa em janeiro de 1978, no primeiro semestre do curso. À época,  a UnB vivia um período de turbulência em função da ditadura militar. Rollemberg viu veteranos do curso de história, na maioria militantes de esquerda, serem expulsos da universidade. Segundo ele, Adalgisa era uma das poucas professoras a manter um grupo de debates sobre o período político. “Ela tinha proximidade muito grande com os alunos. Naquele tempo, onde não se tinha voz, Adalgisa nos dava voz”, relata.
 
 

Questionada sobre as características da professora em sala de aula, Rollemberg abaixa a cabeça e fica em silêncio por alguns segundos. Com um sorriso no rosto, ele cita que se recorda exatamente do jeito de Adalgisa e de como ela se comportava em sala de aula. “Baixinha, morena, traços de índia. Impossível não lembrar.”

Atuação pela liberdade

» Anos antes de ter o  governador como aluno, Adalgisa Maria Vieira do Rosário  (foto) lutava pela liberdade de expressão no Brasil. Eram tempos sombrios. Em 1965, ela teve que fugir do Brasil por ter fundado um  centro acadêmico na Universidade Católica de Belo Horizonte (PUC-Minas). Perseguida pelos militares, deixou o país às pressas, portando documento falso.

» No retorno, em 1970, encontrou um lugar na Faculdade de História da UnB. Lá, incentivou a criação de centros acadêmicos e cursos de pós-graduação em diversas áreas, além de participar da criação do Programa Infanto-Juvenil (PIJ). A partir dos anos 1980, foi decisiva na documentação da história da faculdade, liderando programas de recuperação de documentos. Integrou o projeto ProMemória, que resgata o patrimônio material da instituição.

» Participou, ainda, da comissão que celebrou o cinquentenário da universidade. Foi homenageada. “Ela marcou pelo carinho e pelo interesse aos estudantes. Aprendi muito sobre história do Brasil e cidadania nas salas de aula e tive a oportunidade de conviver com ela na comissão”, elogia Fernando Paulino, diretor da Faculdade de Comunicação da UnB.

O GOSTO E A VONTADE DE SER MÚSICO
» Robson G. Rodrigues*
 
 
 
 
Hamilton de Holanda, 41 anos, chegou a estudar contabilidade. Trocou de curso, tornou-se bacharel em composição pela UnB e, hoje, é um dos maiores instrumentistas do país. Ele levou a todos os cantos do mundo o som do bandolim de 10 cordas — e o encanto por choro, samba e jazz. Adicionou complexidade ao instrumento para produzir harmonia, acorde e ritmo. Com o pai, José Américo, Hamilton começou a reproduzir as belíssimas melodias que ouvia nos discos de Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Tom Jobim e João Gilberto.

A educação formal, contudo, ele foi encontrar em dois professores muito queridos. Hamilton atribui a eles o apreço que tem pela profissão. Ser músico é apaixonante e requer dedicação. “Dou uma importância fundamental a eles, porque um me incentivou a gostar de música e o outro me incentivou a ser um profissional.” Everaldo Pinheiro (foto) é quem o fez gostar da arte, revela Hamilton. O violonista dava aulas particulares ao bandolinista, que acompanhava o mestre com o próprio instrumento. “Ele me ajudou a estudar, a criar”, conta.

Com cerca de 7 anos, foi matriculado na Escola de Música de Brasília. O professor Paulo André Tavares, que lecionava violão e harmonia na escola, influenciou diretamente a decisão inequívoca pela arte. “Ele me mostrou o universo da música como companheiro, não só afetivo, mas também como profissão.”

Orgulho de ver o pupilo despontar

» Everaldo Pinheiro, 71, violonista, se aposentou dos palcos e dá aulas particulares de violão há mais de 50 anos. Questionado sobre a quantidade de alunos que teve, arrisca: “Centenas?” Dois dos pupilos foram os irmãos Fernando César e Hamilton de Holanda. Futuramente, os três viriam a dar aulas na Escola de Choro Raphael Rabello, que ajudaram a fundar. Everaldo e Fernando ainda ensinam no espaço cultural, ajudando a manter vivo o legado de mestres do chorinho. “O Hamilton sentava na cadeira para ter aula e o pezinho dele não chegava ao chão. Ver o camarada agora com toda essa projeção dá uma satisfação muito grande, é uma recompensa enorme”, comenta Everaldo. Outra figura importante citada pelo bandolinista foi Paulo André Tavares, 71. “O Hamilton foi a única pessoa para quem eu tive a coragem de dizer que ele tinha que fazer música como profissão”, admite Paulo André. Ao se dar conta do talento do aluno, pediu para conversar com o pai dele. (RGR*)

UMA FORMAÇÃO CIDADÃ

UMA ORIENTADORA PARA ABRIR A CABEÇA
» Robson G. Rodrigues*
 
 
 
Maria Paula Fidalgo, 46 anos, é atriz, escritora, repórter, apresentadora, psicóloga e cronista da Revista do Correio. Era de se esperar, portanto, que seriam vários os professores que marcaram a formação multifacetada dela, que ficou conhecida pelo grande público a partir da sua atuação no humorístico Casseta & Planeta, ainda nos anos 1990. Ela saberia citar nominalmente vários exemplos, desde o primário até a atual orientadora da pós-graduação, Lúcia Pulino (foto). Hoje, Maria Paula é mestranda em psicologia do desenvolvimento humano e saúde na UnB.

“Sabe quando um professor te abre a cabeça e te dá mil ideias de mil coisas e dá uma vontade de fazer mais, de estudar mais, de ir a campo?”, diz ela, contando sobre as aulas que tem com Pulino. Para além da relação acadêmica, Maria Paula consulta a docente quando quer ouvir uma opinião confiável, dica de leitura, palestra e por aí vai. “Estou bem impactada com a influência dela.”

Como parte do programa de pós-graduação, a própria Maria Paula foi professora. Ofereceu a disciplina sobre a psiquê humana no Departamento de Psicologia da UnB a uma turma de 36 alunos. Ela não descarta a possibilidade de voltar a ensinar na universidade e ficou impressionada com a experiência. “É uma troca maravilhosa, é uma relação muito profunda, além de ter a relação acadêmica, o intercâmbio de informação, tem uma relação de afeto você passar dias e dias na companhia daquele mesmo grupo, pensando juntos.”

A especialista em psicodrama inspiradora

» Lúcia Pulino é graduada em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em psicodrama pelo Instituto de Psicodrama de Ribeirão Preto, mestre em lógica e filosofia da ciência e doutora em filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O pós-doutorado foi concluído na Université Paris 8 e na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), com estágio na Universidade La Serena, no Chile. 

» Além de acumular extensa lista de qualificações acadêmicas, Lúcia orienta uma celebridade na pós-graduação em psicologia na UnB: Maria Paula. A catedrática é uma das fundadoras da escola Vivendo e Aprendendo, localizada na 604 Norte. O colégio é uma cooperativa de pais, cuja proposta pedagógica é baseada no pressuposto de uma educação democrática, em que o protagonismo de cada membro do coletivo é valorizado: ou seja, todos são essenciais nas tomadas de decisões e na gestão da escola.

ENTREGA E GENEROSIDADE
» Jairo Macedo 
Especial para o correio
 
 

Ex-jogadora de vôlei e hoje secretária de Esporte e Lazer do Distrito Federal, Leila Barros, 46 anos,  guarda boas lembranças do primeiro professor que notou a desenvoltura dela no esporte. Quando estudava no Centro Educacional 2 de Taguatinga, ela dividia o tempo entre as aulas e as quadras, em que se destacava no vôlei e no handebol.

Celso André de Ávilla (foto), educador físico especializado em vôlei, foi o primeiro a notar o potencial da menina quando ela ainda treinava entre os grupos mirim e infantil do colégio. “Tive contato desde muito nova com todo tipo de esporte, ele foi nos apresentando. Nessas minhas peripécias experimentando modalidades, acabei me apaixonando por vôlei e handebol. Sempre estudei em escola pública. Sou de uma geração privilegiada em que a formação escolar passava pela educação física”, afirma ela.

Ela conta que, nas ruas da Taguatinga dos anos 1980, caminhava-se com mais liberdade e sempre havia uma bola batendo em algum lugar. “Minha mãe ficava lavando roupa no tanque, e eu lá, brincando de atacar a bola por cima do varal”, diverte-se ela, ao relembrar.

Se Leila Barros, como profissional, acumulou medalhas olímpicas, grand prix e mundiais, certamente o professor tem participação nisso. “Devo muito a ele, em particular, não tenho dúvida. O Celso estimulou muito em mim o potencial técnico e de liderança. Ele gostava do meu perfil determinado e entendeu a força do esporte na formação de um bom cidadão, acima de tudo.” Em momento crucial, Celso procurou os pais da garota — “um mecânico e uma dona de casa, nordestina valente” — para convencê-los de que o vôlei poderia ser uma oportunidade na vida dela. 

Maior alegria é formar cidadãos

» Celso André de Ávilla, 63 anos, conta que, quando menina, Leila se destacava entre as colegas que praticavam vôlei no colégio. Lecionando em Brasília desde os anos 1980, o professor, hoje no Colégio JK do Guará, sabia que ela poderia ser uma grande atleta. Estava claro que força de vontade não faltava — e ele, como professor experiente, sabia disso.

» Notando o potencial dela, não hesitou em lançá-la para o mundo. “A gente percebe quem é o melhor. Quando vi que ela poderia ir além, falei com os pais dela e a encaminhei. Não demorou muito e estava disputando jogos em nível nacional nas categorias de base”, recorda.

» Mais tarde, vê-la na televisão ganhando medalhas pelo mundo afora foi motivo de enorme felicidade para o antigo professor. “De família simples, Leila não teve uma vida fácil como atleta. O mérito é totalmente dela e fico feliz por ter ajudado um pouquinho.” Como professor, contudo, a maior vitória vai muito além do esporte. “A maior alegria mesmo é ver meus ex-alunos, assim como a Leila, bem encaminhados na sociedade, ajustados na família, trabalhando, sendo  cidadãos de bem.”

COM ELES POR ONDE VOU
» Mayara Subtil 
Especial para o correio
 
 
 
Antes da ascensão como cantora, Ellen Oléria, 34 anos, queria mesmo ser atriz. A então caloura de artes cênicas da UnB teve três grandes mestres: Roberta Matsumoto (de elementos da linguagem estética e história da arte 2); Silvia Davini (voz, dicção e movimento); e Hugo Rodas, com quem cursou oficina básica de artes cênicas 2. “Eles me tocam profundamente”, diz a cantora. O tempo presente do verbo não é à toa. “Eles caminham comigo aonde eu vou. No mundo, há muita maldade, mas também há pessoas como eles, que acreditam e alimentam a esperança em nós.”

De Roberta Matsumoto, absorveu a contagiante paixão por cinema. A cada aula, a professora movia os alunos a acreditarem em si mesmos. “‘Acredite no teu texto, no teu olhar!’, ela dizia sempre. “Ao estudar conceitos como cultura e ideologia com a Roberta, pude questionar com profundidade minhas ideias sobre fé, religião e paridade”, conta Ellen.

A argentina Silvia Davini a inspirou e provocou. “O que é a voz? Quem é você? Ou o que me prova que você é quem diz que é?” Era assim que a professora iniciava suas aulas. “Isso me deixou muda até o fim do semestre”, lembra. A ruiva de ar poderoso era, de acordo com Ellen, mulher generosa e de produção impecável. As técnicas vocais de Silvia movem, até hoje, a voz potente de Ellen. “Silvia também me apresentou a filosofia de um jeito único. Era uma grande intelectual.”

Intenso e irreverente, o encenador Hugo Rodas também fez girar a cabeça da caloura. “A gente queria beber cada palavra que ele dizia. Ele dirigiu meu primeiro espetáculo”, conta a cantora. Para ela, trata-se de um diretor completo — se precisar, até costura o vestido da atriz. “Um homem sábio e experiente, que se deixa tocar pelo que há ao seu redor: grita, chora, gargalha. Ele é intenso”, descreve.

Ampla formação artística

» Roberta Matsumoto é jornalista e doutora em cinema, televisão e audiovisual. Atualmente, é professora adjunta da Universidade de Brasília e pesquisadora associada à Université de Paris 10, Nanterre. Tem experiência na área de artes com ênfase em cinema. Os temas de atuação de Roberta são em capoeira, antropologia visual, documentário etnográfico, cultura afro-brasileira e técnica corporal. Hugo Rodas é diretor, ator, figurinista, coreógrafo e professor de teatro na Universidade de Brasília (UnB). Veio para Brasília em 1975. Foi coreógrafo dos primeiros shows de Oswaldo Montenegro.

» Silvia Davini chegou a Brasília em 1970. Foi pesquisadora, cantora lírica, atriz e encenadora. Também era especialista em canto pelo Conservatório Municipal de Buenos Aires. Em 2011, o Correio noticiou a morte da professora, vítima de um câncer no cérebro. Além de mestre, Silvia foi diretora do Departamento de Artes Cênicas da instituição.

O CONHECIMENTO COMO PATRIMÔNIO E LUTA
 
» Ana Paula Lisboa
 
 
 
Não se encontra um educador inesquecível apenas no espaço formal de sala de aula. É possível aprender muito com pessoas que transmitem saberes em outros ambientes. O ator e jornalista brasiliense João Campos, 33 anos, é testemunha disso. As pessoas que mais o inspiraram não estavam nos bancos escolares. “Não que eu não tenha tido professores importantes ao longo dos anos, mas minhas principais referências não estão aí, mas, sim, em lugares onde tive acesso a conhecimentos que, muitas vezes, não são ensinados nas escolas e que mudaram minha vida e minha forma de me relacionar com o mundo e, por isso, me marcaram”, afirma ele, que interpretou o jornalista Elio Bataglia na novela A lei do amor, exibida na Rede Globo entre 2016 e março deste ano. “Os professores que a vida me trouxe não passam, seguem comigo e fazem parte da trajetória da minha vida”, conta o ex-repórter do Correio Braziliense.

Formado em jornalismo e mestre em desenvolvimento sustentável pela UnB, pós-graduado em jornalismo multimídia pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e em jornalismo investigativo pela Universidade Columbia, começou a trajetória no teatro antes mesmo de iniciar a graduação. Referência de grande importância para João é Janja Araujo (foto), mestra de capoeira e fundadora do grupo Nzinga, do qual o ator faz parte. “Ela é alguém por quem tenho grande admiração e que muito me ensinou, ensina e vai ensinar. Mulher, negra e baiana, é professora com uma didática incrível e uma apropriação sobre o que vai falar que é encantadora”, elogia.

O contato entre Janja e João começou há cinco anos, em treinos do grupo Nzinga em Brasília, que, atualmente, ocorrem no Conic. “A capoeira angola modificou minha vida profundamente, por me trazer conhecimento sobre nossas matrizes africanas,  lutas raciais e antissexistas. É algo que quero fazer até o fim dos meus dias”, observa João. Ele explica que a atividade é uma prática cultural que vai muito além do esporte e, no caso do grupo que integra, envolve rodas de conversa e reflexão.

Vínculo amoroso pelo conhecimento

» “As atividades do grupo Nzinga em Brasília começaram há 15 anos. O João é uma dessas pessoas que, desde o início, nos honram com sua presença e é uma de nossas lideranças. A capoeira contribui para a formação dele de ator e cidadão”, comenta Janja Araujo. Ela tem forte atuação também no universo acadêmico: historiadora pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é mestre e doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e, atualmente, cursa pós-doutorado em ciências sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). 

» Na UFBA, é professora no Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo e coordena grupos de pesquisa sobre mulheres, relações raciais, cultura e identidade negra. “Ser mestra de capoeira e professora numa instituição pública de ensino superior são experiências muito diferentes que eu trago conjugadas. Em ambos os casos, vinculo politicamente a construção do conhecimento como patrimônio público”, diz.

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*Estagiários sob supervisão de Ana Sá