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Preso da Papuda faz Enem para obter diploma de nível médio

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postado em 05/12/2012 18:07 / atualizado em 06/12/2012 14:37

Wellington de Sousa Lima tem 30 anos e vislumbra um futuro com diplomas, bom nível de instrução e, quem sabe, até uma oportunidade no ensino superior. Ele é um dos mais de 23 mil candidatos que fizeram as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na terça e quarta-feira (4 e 5/12) em todo o país. Com um detalhe: ele é um dos detentos do Complexo Penitenciário da Papuda, em São Sebastião, e que vê no exame a oportunidade de abrir portas fora da cadeia, assim que as grades da penitenciária puderem ser também destrancadas.


Iano Andrade/ CB DA Press

O baque das grades se fechando assusta os visitantes que nunca puseram os pés na Papuda. Um agente de segurança serve de guia pelos corredores intrincados do Bloco E do presídio do Distrito Federal 1 (PDF-1), onde 162 internos resolvem as provas do segundo dia do Enem. No total, 887 detentos em nove unidades penitenciárias do DF se inscreveram para as provas.

Por volta das 15h30, os primeiros candidatos terminam as provas e começam a sair. São seis, e de forma ordeira esperam o carcerário abrir as grades que dão acesso ao corredor das celas. Apenas Wellington concordou em falar com a reportagem. “Abandonei a escola no 2º ano do ensino médio. Não estudo há 5 anos. Não estou muito confiante, mas estou feliz que consegui fazer tudo", explica o detento. Para ele o mais difícil foram as provas de matemática e redação, aplicadas hoje. "O tema foi trabalhar em grupo para ajudar as pessoas. Acho que me saí bem porque falei da minha vida na cadeia", revela. O interno reconhece o esforço dos professores de mantê-lo na escola. "Isso é um trabalho em equipe", ele compara.

“Quero anunciar que desde as 13h o Enem está ocorrendo com tranquilidade, positivo?”, avisa pelo rádio um funcionário ao chefe do Núcleo de Ensino do presídio, Dalton Neiva. Mas nem o recado desanuvia o semblante do coordenador. "O clima aqui é sempre tenso. Ficamos o tempo todo de sobreaviso", ele descreve.

O PDF-1 é um dos presídios que compõem o complexo da Papuda. Atualmente, abriga cerca de 3 mil internos nos Blocos D, E , F e G . As provas do Enem coincidiram com os dias de visita dos parentes dos detentos, que tiveram de escolher entre ver a família ou fazer o exame.

As questões das provas aplicadas em dezembro são diferentes daquelas resolvidas em 3 e 4 de novembro, mas o conteúdo e o nível de cobrança é o mesmo. Além de internos em penitenciárias de todo o Brasil, as provas de hoje atendem casos especiais que não puderam a fazer a primeira avaliação.

Cuidado redobrado
"A preocupação para aplicar dentro do presídio é o que muda", explica Lourival Milhomem, coordenador de aplicação do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) que foi designado para acompanhar a realização do Enem no PDF-1. Os funcionários envolvidos na operação precisam ficar atentos a tudo. "Pegamos um interno que extraiu a carga da caneta depois da prova. Nada pode passar, do jeito que o interno entrou na sala ele tem que sair", completa Dalton Neiva.

O mesmo cuidado é assumido pela professora de inglês Valdiceli Rocha ao longo de todo o ano letivo. "Uma sala de aula na cadeia pé incomparável com o lado de fora." A professora explica que todo o material usado em aula precisa ser aprovada pelo chefe do Núcleo de Ensino. Não pode tesoura, caneta de tinta preta, lapiseira nem classificados de jornal. "Fazemos o melhor com as nossas limitações. Temos ótimos alunos. Os mais comprometidos são os que começam a estudar aqui desde a alfabetização."

Futuro dentro da cadeia
No PDF-1, cerca de 400 detentos estão inscritos em atividades educacionais, entre alfabetização, ensinos fundamental, médio e profissionalizante, as vantagens são inúmeras. Além da educação, detento que estuda pode ser transferido para um bloco mais tranquilo, ganha lanche extra oferecido pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF) e ainda tem a pena reduzida. Além do Enem o PDF-1 aplica os vestibulares da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Alguns dos detentos que fizeram o Enem no PDF-1 conseguiram usar a nota do exame para chegar à universidade. A professora Valdiceli conta que, fora da cadeia, encontrou um ex-detento que conseguiu uma bolsa pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) e hoje cursa informática em uma faculdade de Brasília. "Para um professor conseguir resgatar um cidadão como esse a vitoria é maior", relata. “Já trabalhei em outras escolas, fui professora de centros de línguas em Brasília. Apesar do estresse, o trabalho na penitenciária é mais gratificante.”

A professora Ângela Damaceno concorda com a colega. Ela dá aulas para a da 4ª série do Programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA), vigente no PDF-1, e hoje atua como coordenadora pedagógica da penitenciária. “Os alunos nos veem como exemplo. Somos conselheiros, e precisamos manter uma relação cordial com eles. Eu não posso vê-los como criminosos, porque senão não consigo fazer meu trabalho. Mas assumo os riscos dessa relação”, ela afirma. “Aqui dentro eles nos respeitam mais.”

Durante a aplicação do exame nacional, uma pausa para o café da professora Sara Soares. Ela descreve o clima nas salas do Enem. “Eles têm muita dificuldade para responder todas as questões. Alguns se confundiram na hora de preencher o gabarito. Tem gente que está longe dos estudos há muito tempo, mas mesmo assim, o importante é tentar.” Para ela, muitos se inscrevem no exame porque têm a chance de passar duas tardes longe das celas, o que para eles é um alívio.

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