Enem

Inscrição penosa para os deficientes visuais

Ministério da Educação melhora acessibilidade, mas falta de informação e desconfiança levam usuários a recorrer à ajuda externa para confirmar participação no exame. Procedimento encerra hoje às 23h59

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postado em 27/05/2013 18:00 / atualizado em 27/05/2013 16:00

Grasielle Castro /Correio Braziliense

Gustavo Moreno
A tentativa do Ministério da Educação (MEC) de solucionar a falta de acessibilidade na página do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ainda não teve resultado prático. Depois de o Correio mostrar que deficientes visuais só conseguiam se inscrever para o exame com ajuda de uma pessoa que enxerga, a pasta adequou o sistema, mas a desinformação ainda é um entrave. O candidato desconfia do procedimento, por causa dos anos de descaso da pasta. O diretor administrativo da Associação Brasiliense de Deficientes Visuais (ABDV), Antônio Wilson Ribeiro, 36 anos, nem cogitou fazer a inscrição por conta própria e, assim que decidiu se inscrever pediu auxílio externo. “Fiquei sabendo que tinha problema, que eu não ia conseguir fazer sozinho, e pedi ajuda”, confessa.

Antônio conta que, com o apoio de outra pessoa, foi muito simples e rápido fazer preencher os formulários. “Marquei a opção de ajuda de um leitor que o exame oferece e estou confiante. Quero me candidatar para uma vaga no curso de direito, vou tentar tanto em federais quanto em particulares pelo Programa Universidade para Todos (ProUni)”, diz. Com a confirmação do cadastro em mãos, a expectativa agora é com relação à prova. “Em uma escala de zero a 10, confio sete no leitor. Mas espero me surpreender.”

A preocupação com a prova é reflexo do movimento gerado no ano passado em torno dos problemas da inscrição. O presidente da Organização Nacional dos Cegos do Brasil (ONCB), Moisés Bauer, explica que existia uma situação de insegurança e falta de isonomia nas provas tanto do Enem quanto de outros vestibulares e concursos do país. Em 2012, o órgão se reuniu com o Ministério Público Federal no Distrito Federal, o MEC e o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) para discutir a melhorias no sistema. “Existe uma lei que garante acessibilidade e constantemente é descumprida. Mesmo com a audiência, estamos na expectativa que essa realidade mude. Pelo menos na inscrição do Enem deste ano tivemos um avanço ”, comemora.

Pela primeira vez, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
(Inep), responsável pelo exame, contou com assessoria da ONCB para reestruturar o sistema. Segundo o consultor da organização que fez a análise, Leondeniz de Freitas, no ano passado, os estudantes mal conseguiam passar da segunda página. Os problemas eram pontuais, como a falta de vinculação entre a informação que era exigida e o campo em que o estudante precisava preencher. “As pessoas que têm deficiência visual usam um leitor de páginas que diz o que tem em cada campo. Para ser acessível ao leitor, é preciso obedecer  a uma série de regras. E o sistema antigo não conversava com essas exigências. Não é porque uma pessoa é cega que ela não usa a internet”, diz. Segundo ele, as páginas carregavam muitas vezes e voltavam para o início do processo. “Além disso, quando aparecia muito gráfico e imagem, os candidatos também sentiam dificuldade”, acrescenta.

Apesar de estar satisfeita com o resultado, a ONCB reconhece que a mudança foi pouco divulgada. Preocupado em dar mais apoio ao público, Diniz, como é conhecido, elaborou por conta própria um passo a passo em áudio e divulgou nas redes sociais. “Desenvolvi o material para evitar que os estudantes continuassem perdidos”, relata. O presidente do Inep, Luiz Cláudio Costa, frisa que o instituto está em permanente contato com a ONCB com o intuito de tornar o exame cada vez mais inclusivo. “Isso significa que o processo está sendo permanentemente aprimorado”, pontua.

Mudanças inclusivas

Até a tarde de sexta, de acordo com o Inep, mais de 5 milhões de estudantes já haviam se inscrito. Desses, 5.325 são deficientes visuais totais e parciais. O prazo das inscrições se encerra hoje. Este ano, o Inep também vai disponibilizar duas opções de prova, uma com letra ampliada, fonte tamanho 18, e outra com letra superampliada, com fonte 24. Ambas contarão com imagens ampliadas. Aos que têm cegueira total, o instituto continua oferecendo um ledor. Quando anunciou as mudanças, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, frisou compromisso com a acessibilidade.

Memória
Candidatos desassistidos

Em junho do ano passado, o Correio contou a história dos deficientes visuais Paulo Lafaiete e Maria das Graças Ferreira de Morais, que não conseguiram fazer as inscrições sozinhos para o exame do Enem. Na reportagem, Paulo contou que clicava nas opções, mas não saía da primeira página. Na época, o Ministério da Educação reconheceu a falha e orientou os estudantes a procurar ajuda de uma pessoa de confiança para preencher os formulários. Em julho, foi publicada outra reportagem com a história do Tomás Verdi Pereira, também cego, que teve problemas no vestibular da Universidade de Brasília (UnB). Na época, a Organização Nacional dos Cegos do Brasil se reuniria com o Ministério Público Federal no Distrito Federal (MPDF), o Ministério da Educação e o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE) para debater melhor atendimento aos deficientes.

Serviço
Inscrições do Enem terminam hoje

Taxa: R$ 35, pode ser paga
até quarta-feira (29)

Isenção: estudantes com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo (R$ 1.017) e de escolas públicas

Provas: 26/10, de 13h às 17h30, sobre ciências humanas e ciências da natureza
27/10, de 13h às 18h30, sobre linguagens, códigos e suas tecnologias, redação e matemática

Abertura dos portões: 12h

 

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