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SELO DE RESPONSABILIDADE »

Somos todos iguais

Inscrições para o Pró-Equidade terminam no fim do mês. Programa estimula a criação de iniciativas pela igualdade de gênero em empresas públicas e privadas, para mulheres e minorias sexuais

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postado em 05/08/2013 10:36 / atualizado em 05/08/2013 10:43

Monique Renne
Monique Renne

Em resposta às intensas transformações sociais, o mercado de trabalho começa a reunir esforços na luta pela equidade de gênero. No entanto, os ganhos são tímidos — e o caminho para a superação dos desafios ainda é longo. Mesmo mais escolarizadas, com média de 0,4 anos de estudo a mais do que os homens, os salários das mulheres chegam apenas a 72,3% do que eles recebem, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em cargos de liderança, apenas um em cada seis postos não são ocupados por homens. Com o intuito de transformar esse cenário, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) lançou a quinta edição do Programa Pró-Equidade. Com inscrições abertas até 30 de agosto, o projeto estimula a criação de iniciativas em prol da igualdade de gênero em empresas públicas e privadas. As instituições interessadas devem se inscrever pelo site www.spm.gov.br. Após elaborar um plano de ações, as companhias participantes recebem um selo de responsabilidade caso cumpram 70% das metas estabelecidas.

Segundo Gláucia Fraccaro, coordenadora-geral de Autonomia Econômica das Mulheres da SPM, o Pró-Equidade aumenta a percepção dos trabalhadores em relação a questões de gênero e eleva o policiamento contra ações de intolerância. Na última edição, 57 instituições foram contempladas com o selo. Gláucia afirma que o principal objetivo para este ano é ampliar o número de adesões. “Queremos elevar o número de empresas participantes e, em médio prazo, criar indicadores de mulheres em cargos de liderança, além de reduzir as diferenças salariais”, pontua.

Além do trabalho

Professora de psicologia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora pelo Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam), Tânia Fontele vê no Pró-Equidade um estímulo ao debate. “O projeto traz reflexões e mudanças, porque tem criado uma mentalidade nova em diversas companhias que nem sabiam o que era gênero”, conta Tânia, que é autora do livro Mulheres no topo de carreira (Secretaria de Políticas para Mulheres / 92 páginas / Distribuição gratuita).
Exemplo disso é o grupo hospitalar Cene. Após uma série de discussões sobre o conceito de gênero, a empresa aplicou uma pesquisa de clima organizacional, mapeando as principais demandas sobre o tema. Celina da Trindade, gestora de pessoas, explica que simples atitudes de conscientização geraram resultados consideráveis na rotina da empresa. “Hoje, os funcionários estão mais atentos. Tivemos transformações em nossa linguagem. Piadinhas preconceituosas e certas ‘brincadeiras’ são policiadas pelos próprios colaboradores”, diz.

Contudo, para superar as estatísticas desiguais, as transformações precisam ser mais profundas. Essa é a opinião da empresária Juliana de Andrade, militante do movimento feminista. Para ela, é preciso romper o silêncio e ouvir as minorias. Juliana acredita que só medidas tomadas dentro do ambiente de trabalho serão insuficientes. “São vários os prontos a serem trabalhados. É preciso reeducar os homens, fornecer melhores condições de transporte público e de segurança, ampliar o número de creches em nossas cidades. Tudo isso contribui para a liberdade da mulher e sua conquista no mercado”, pontua.

Mercado exigente

Ao contrário do que muitos pensam, a construção de um cenário igualitário dentro das empresas não cumpre uma função unicamente social. Com o mercado consumidor cada vez mais diversificado e exigente, levam vantagem os negócios que conseguem entender o público e propor alternativas variadas aos anseios dos clientes. Para a diretora de sustentabilidade do Walmart, Camila Valverde, contar com mulheres em cargos executivos não é apenas uma questão de equidade. “Uma mulher em cargo de liderança é estratégico. O equilíbrio de gêneros enriquece as decisões executivas”, explica.

A rede de hipermercados foi uma das primeiras instituições a aderir à licença-maternidade de seis meses. Camila explica que a empresa procura compreender as individualidades dos funcionários sem enxergá-las como obstáculos para o crescimento. “Eu mesma fui promovida para o meu cargo de diretoria quando estava grávida. Saí de licença, cuidei do meu bebê e retornei para minhas atividades normais”, conta.
No Balaio Café, as funcionárias recebem folga no primeiro dia de menstruação. Para Helena Oliveira, 25 anos, a atitude da empresa ajuda a melhorar o rendimento. “Me sinto respeitada, quando preciso, encontro apoio. Isso me motiva e me faz trabalhar com mais conforto e tranquilidade”, diz a atendente.

Em Brasília, apenas empresas e órgãos públicos aderiram a última edição do Pró-Equidade, em 2011. Uma delas foi o Banco de Brasília (BRB), que também procurou nas singularidades o caminho para a implementação dos projetos. Além do mapeamento de mulheres e ações de conscientização, o banco criou um canal multidisciplinar para o recebimento de denúncias de assédio e implementou a redução de carga horária para servidoras na volta da licença-maternidade. A medida beneficiou a analista Ana Virgínia Torres, 30 anos, mãe de gêmeas. “Trabalhando menos, consegui organizar melhor minha volta à empresa. Foi um ato simples do banco, porém, de grande impacto”, conta. Ana diz que se sente segura na instituição e que benefícios desse tipo são essenciais para ficar satisfeita com a empresa.

Sem preconceito


Além da figura feminina, outras questões de gênero são delicadas no meio profissional. O tema equidade também esbarra no preconceito contra gays, lésbicas, travestis e transexuais. Em muitos casos, a intolerância e o medo de conviver com o diferente geram situações extremas de discriminação. João Pedro, 23 anos, conta que já foi demitido de dois empregos como garçom por ser homossexual. “Muitas vezes o preconceito vem velado, em outras, ninguém faz questão de esconder. No meu último trabalho, por exemplo, fui demitido quando meu chefe descobriu minha opção sexual. Fui desligado imediatamente por não ‘combinar com o estilo do bar’”, lamenta.

E os desafios continuam. Segundo a psicóloga Alessandra Arrais, especialista em maternidade, vive-se ainda em um modelo patriarcal, em que a figura do homem provedor se destaca. “É preciso superar a dimensão do homem que apenas trabalha, e se esquece de ser acolhedor. Temos que chegar a uma visão de um companheiro que não apenas ajuda a mulher dentro de casa mas também compartilha as tarefas”, explica Alessandra.
Nesse sentido, a psicóloga aponta a licença-paternidade como uma das principais demandas a serem conquistadas. De acordo com a especialista, a participação do homem no processo materno constrói uma relação de respeito e valorização do papel da mulher, além de fornecer um suporte importante.

Exemplo disso é o engenheiro agrônomo Antônio Leite, 31 anos, que acaba de ter a segunda filha. Mesmo unindo a licença-paternidade ao período de férias, ele diz não ter tido tempo suficiente para ajudar a esposa após o parto. Segundo o engenheiro, além de ficar mais distante da criança, o cansaço é a pior parte. “Não consigo dormir, porque ela chora à noite, e preciso acordar cedo para chegar ao trabalho. Situação semelhante à da minha mulher, que não tem ajuda durante o dia e se desgasta bastante”, relata Antônio.


Desigualdade em números

O salário feminino
corresponde a
72,3%
do masculino


A taxa de desemprego
entre as mulheres é de
7,5%
e, entre os homens, de
4,7%


35,5%
das mulheres trabalham com carteira assinada contra
43,9%
dos homens
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