EDUCAÇÃO »

Polêmica do Enem agora é no ranking

Instituto que faz a lista nacional dos colégios com melhor desempenho no exame considera notas de mais três escolas - inclusive o novo primeiro lugar. Mais alterações podem ocorrer até 4 de dezembro e vão afetar a colocação de brasilienses

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 28/11/2013 14:00 / atualizado em 28/11/2013 14:24

Manoela Alcântara , Ana Pompeu

Daniel Ferreira
Menos de 24 horas após as escolas mais bem colocadas no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) comemorarem o resultado, o cenário mudou. O Departamento de Avaliação da Educação Básica (Daeb), do Inep, informou que 24 instituições entregaram documentação para pedir a inclusão na lista das 11.239 com notas divulgadas. Entre elas, três tiveram o pedido deferido. Isso mudou o primeiro lugar no ranking nacional. O colégio Bernoulli, em Belo Horizonte, que mantinha a posição com média de 722,15, perdeu o posto para o Objetivo Integrado, de São Paulo, com média das provas objetivas de 740,81. A alteração afetou também a capital federal.

No DF, o primeiro classificado — o Galois — mantinha, até ontem, a 77ª posição. Com as mudanças, caiu para 79ª. Dependendo da aceitação dos pedidos, a alteração pode ser maior. O Olimpo, primeiro colocado da capital em 2012, é um dos colégios a solicitar revisão do Ministério da Educação (MEC). A escola ficou fora da lista porque o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) alegou que menos de 50% dos alunos matriculados no 3º ano fizeram o Enem em 2012. A direção, no entanto, é enfática ao afirmar que teve 90% de participação.

No ano passado, o Olimpo colocou Brasília no 32º lugar no ranking nacional. Teve média de 675, com 42 alunos participantes. De acordo com sócio-proprietário e diretor de ensino da escola, Rodrigo Bernadelli, em 2012 a expectativa é de que o resultado do pedido saia em breve. “Tivemos um resultado muito bom anteriormente, mas não gostaria de fazer previsões antes de a nota sair. Estamos confiantes de que nosso pedido seja aceito. O que pode ter ocorrido foi um erro no sistema”, ressaltou. Além do Colégio Objetivo Integrado, as outras duas instituições aceitas são o Colégio Classe A, localizado em Mato Grosso do Sul, com 625,03 pontos; e o Colégio Objetivo Integrado de Mogi das Cruzes (SP), com 675,16.

Conforme nota divulgada pela Daeb, é garantido a todas as unidades de ensino o direito de requerer o reexame do processo de cálculo até 4 de dezembro. “Todas as escolas que realizarem o procedimento de formalização do requerimento, com informação dos estudantes vinculados, e que tiverem as informações validadas pelo Inep, terão suas notas calculadas e disponibilizadas”, certifica o documento. Os outros 21 casos, incluindo o do Olimpo, continuam em análise. Embora o Inep não fale em prazos, alguns mandados impetrados pelas empresas pedem que o problema seja resolvido em até 48 horas.

Desempenho ruim

As escolas particulares de Brasília tiveram o melhor desempenho da capital. Tiraram notas altas, se comparadas às públicas. No entanto, quando a comparação é com o ranking nacional, a 79ª colocação é ruim para unidade da Federação com a maior renda per capita do Brasil. Apesar disso, especialistas do setor não consideram a educação ruim. Eles acreditam que o fato de o Enem, em 2012, não dar acesso à Universidade de Brasília (UnB) pode ter contribuído para o resultado. Por isso, no próximo ano, o cenário deve mudar. A instituição de ensino superior passou a adotar o exame como forma de seleção este ano.

Para o professor do programa de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília (UCB) Célio da Cunha, o resultado do ranking é preocupante, mas é preciso ponderar. “Historicamente, o DF se destacou e teve desempenho acima da média. Nenhuma avaliação é definitiva: ela tem um caráter de diagnóstico. Os dirigentes das escolas particulares e a própria Secretaria de Educação devem fazer reuniões e reflexões, reexaminar currículos e corpo docente para ver o que está acontecendo com o nosso ensino médio”, disse.

De acordo com ele, a adesão da UnB ao Enem pode ser um fator a contribuir para um resultado melhor do DF nos próximos anos. Além disso, ele reconhece que o país vive uma crise no ensino médio. “Temos um problema curricular enorme, de evasão e repetência, de falta de professores, o que vem sendo objeto de preocupação do Ministério da Educação para tentar melhorar o desempenho”, completou.

Pedido de justiça Estudantes do Colégio Olimpo reagiram diante na ausência do nome da instituição da divulgação dos dados. O sentimento de Gabriela de Almeida Macedo, 18 anos, foi de incredulidade. “Achei logo que tinha um erro. Não fazia sentido”, afirmou. O assunto repercutiu na escola. Professores entraram nas salas de aula comentando. “O pessoal do terceiro ano ficou mais sentido”, afirma a jovem. De acordo com ela, o primeiro lugar entre as escolas do DF era motivo de divulgação e parte da propaganda para promover o colégio. Para Gabriela, no entanto, é preocupante o fato de Brasília não ter colégios entre os 60 primeiros do país. Por isso, é importante que o Olimpo tenha o resultado revisto. “Podemos figurar na lista nacional e representar a cidade”, completa.

A presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), Fátima de Mello Franco, acredita que a reivindicação é justa e deve ser analisada com cuidado para que o Enem possa contribuir para a educação brasileira com dados concretos. “As regras do Inep não são claras. Gostaríamos de ter acesso aos critérios”, reclamou.

Para o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa), Luis Claudio Megiorin, o resultado do Enem é um fenômeno socioeconômico a ser avaliado. “O DF é a unidade da Federação mais privatizada do país, com 40% das unidades de ensino nesse setor. São escolas com mensalidades altas e parece que não vemos o retorno disso”, disse.

Para ele, a alta renda da cidade e o alto nível educacional da capital também deixam dúvidas no ar, em relação ao resultado do exame. “Nossos professores precisam ser mais valorizados, as salas de aula devem ter menos alunos, as escolas precisam de mais estrutura e pais mais presentes”, enumera. Megiorin defende que Brasília tem potencial para ter unidades entre os primeiros do país.

Sem a redação


O ranking foi elaborado a partir das notas objetivas das provas do Enem, realizadas em 2012 e divulgadas na última terça-feira pelo Inep. A média é calculada a partir do resultado obtido nas quatro áreas do conhecimento abordadas no certame. A nota de redação não foi incluída na média.



Palavra de especialista


Ingresso a universidades

“Uma das explicações para o desempenho das escolas do DF está relacionada à adesão do resultado do exame para o ingresso nas universidades. Os alunos brasilienses não encaravam a prova como algo importante. Acredito que as notas do próximo ano sejam diferentes, pois as instituições de ensino vão passar a focar a educação baseada em uma única avaliação, nesse caso o Enem. Isso ocorreu depois do anúncio de a Universidade de Brasília (UnB) ter colocado o processo como forma de ingresso, o que é um erro porque a projeção que faço para o futuro é a de mais profissionais frustrados com a carreira ao perceberem que nem tudo que almejam pode ser medido por um processo seletivo. A política de ranqueamento do desempenho dos alunos tem a finalidade de avaliar somente um resultado isolado em uma prova. Ele não é capaz de medir o desempenho do aluno como um todo, que inclui não só o ensino acadêmico tradicional, mas também a formação social dos jovens. O comportamento dos pais contribui para esse mercado do ensino que se preocupa apenas em passar o maior número de estudantes no vestibular. A educação é algo de grande magnitude e que ultrapassa qualquer resultado em uma prova, pois esses exames não medem o conhecimento cognitivo do jovem.”

Carlos Augusto Medeiros, doutor em educação e professor colaborador da Universidade de Brasília


Tags: