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Leitura e consciência, o segredo da redação

Colégios brasilienses que tiraram notas altas na prova escrita do Enem têm como diferencial o ensino extracurricular e a aprendizagem além da preparação para vestibular

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postado em 28/11/2013 14:00 / atualizado em 28/11/2013 14:25

Sheila Oliveira

As escolas brasilienses com as melhores notas da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) destoam do ranking das instituições classificadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) — no qual a nota final é a soma da média da prova objetiva e a produção de texto. O primeiro colocado geral no DF, o colégio Galois, obteve média 712.81 considerando somente a prova escrita do Ministério da Educação (MEC). O colégio Sagrado Coração de Maria alcançou 720.32 pontos, em uma escala que vai de 0 a 1.000, seguido pelo Centro Educacional Maria Auxiliadora (720.00) e o Centro Educacional Leonardo da Vinci (714.51).

Na avaliação do doutor em educação da Universidade de Brasília (UnB) Carlos Augusto Medeiros, o desempenho na redação do Enem demonstra a maturidade dos estudantes. “É interessante notar que justamente as escolas preocupadas na formação cidadã, e não só na preparação dos alunos para um processo seletivo específico, tais como vestibular, PAS (Programa de Avaliação Seriada) ou Enem, tiveram as melhores notas”, ressalta. Para ele, a dificuldade dos alunos na produção de texto não seria a forma, mas o conteúdo. Mesmo com nota média de 700 pontos na redação, as escolas do DF não figuram no ranking nacional das 20 melhores instituições. O tradicional colégio carioca São Bento obteve a média mais alta do país, ao alcançar 810.53.

As escolas da capital com melhor rendimento no quesito redação têm em comum a estrutura curricular voltada para a leitura e produção textual desde o ensino fundamental. A coordenadora pedagógica do Sagrado Coração de Maria, Valéria Cândida Barreto Marinho, explica que o sucesso nas notas da redação no Enem se deve à interdisciplinariedade desenvolvida entre os alunos a partir do 9º ano. “Não existe segredo ou fórmula, mas sim um trabalho contínuo do ensino acadêmico aliado à formação social do estudante, que é o que garante a base de conteúdo para a redação de texto”, afirma.

Valéria lembra que, no ano passado, os 138 alunos do ensino médio matriculados na instituição visitaram a Cidade Estrutural e desenvolveram trabalho social com a comunidade carente. “Dessa experiência, eles foram desafiados a produzir textos sobre as mazelas sociais, depois de discutirem o tema com professores de diversas disciplinas. Acho que isso contribuiu para o bom desempenho deles na redação de 2012, cujo tema foi Movimentos migratórios no Brasil no século 21.”

De acordo com a metodologia do Enem, na redação, o estudante deve demonstrar boa interpretação do texto enunciado, analisar criticamente o tema sugerido e apresentar uma proposta de solução para o problema identificado. Tudo isso com clareza de argumentação e  respeito à norma culta da língua portuguesa.
Com o bom desempenho do colégio Sagrado Coração de Maria, a estudante do 3º ano do ensino médio da instituição Fernanda Vasques, 17 anos, está ansiosa para fazer a prova do próximo ano. “A gente sente que a responsabilidade aumenta para continuar representando bem a nossa escola. Mas acho que tivemos uma boa preparação ao longo dos anos”, observa. A instituição exige dos alunos, pelo menos, uma produção textual por semana. Além do conteúdo visto em sala, eles contam com o reforço de duas aulas de redação, com duração de 50 minutos cada, no horário contrário das disciplinas obrigatórias.

Formação cidadã

Para André Guilherme Martins Soares, 18 anos, colega de Fernanda, o diferencial do Sagrado Coração de Maria é o método aplicado para o desenvolvimento dos temas das redações. “Não estudamos redação só na aula específica, mas nas disciplinas de exatas. Somos incentivados a produzir textos de conteúdos matemáticos”, diz. Eduardo Luiz Carneiro, 18 anos, aluno do 3º ano da instituição, acredita que o desafio e o treino contribuíram para a nota da escola.

No Leonardo da Vinci, o laboratório e plantões de redação começam a partir do 6º ano. As dificuldades de cada aluno são discutidas individualmente com o professor. Segundo a diretora da unidade na Asa Sul, Márcia Ferreira Nunes, o resultado no Enem reflete o incentivo da leitura e da escrita desde os primeiros anos da alfabetização. “Parte da proposta da escola é baseada nessa metodologia por meio do projeto Ler, escrever e prazer, em que cada professor trabalha com uma meta de leitura semanal com os estudantes”, explica.

810.53 pontos
Média do colégio carioca São Bento, a maior nacional na redação do Enem de 2012


Como funciona


Novo método

O 1º ciclo engloba as escolas de educação infantil, com crianças de 4 e 5 anos. O professor trabalha com linguagens e há uma parceria mais aprofundada com a família. O Bloco Inicial de Alfabetização abrange os três primeiros anos do ensino fundamental. Nessa fase, a progressão é continuada. O foco é a aprendizagem e não há reprovação até o 3º ano. Fazem parte do bloco 2 os 4º e 5º anos do ensino fundamental. Nesse caso, a retenção só ocorre no 5º ano. A avaliação é formativa. Os professores trabalham com provas, seminários e trabalhos em grupo. Para os que chegam ao fim sem conseguir a aprovação, o foco no ano seguinte será nas dificuldades individuais. Componentes como a semestralidade e o 3º ciclo — do 6º ao 9º ano —, ainda serão discutidos pelo Conselho.
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