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CIÊNCIA

Matemática da velhice saudável

Tese de dutorado premiada desenvolve fórmula para estimar a qualidade de vida após os 60 anos e mostra um aumento no bem-estar dos idosos brasileiros

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postado em 24/02/2014 16:00

Ramon pensa no futuro: cuidados com a saúde e plano de previdência (Euler Junior/EM/D.A Press) 
Ramon pensa no futuro: cuidados com a saúde e plano de previdência


Belo Horizonte — Envelhecer com qualidade de vida deixou de ser preocupação de quem está próximo de ingressar na chamada idade madura e dos especialistas envolvidos na discussão sobre a fragilidade do sistema de previdência num Brasil que vê cair a taxa de fecundidade. Gerações mais novas têm demonstrado a percepção de que o bem-estar em idade avançada depende da busca de um estilo saudável de viver, associada à mudança de cultura e hábitos. Atento a esse comportamento, o pesquisador Marcos Roberto Gonzaga pôs todo o conhecimento como estatístico, com mestrado e doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na elaboração de uma desafiadora fórmula capaz de estimar a expectativa de vida saudável dos brasileiros.

Esse conceito indica o tempo médio adicional que as pessoas esperam viver com boa saúde e em plenas condições de realizar as atividades do dia a dia. Gonzaga, que é professor adjunto do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da UFRN, conta que, além do interesse pelo tema da saúde da população idosa, procurou desenvolver metodologia alternativa ao bancos de dados de pesquisas existentes no país. Não é novidade que a população brasileira está envelhecendo, realidade desvendada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O valor da metodologia criada pelo pesquisador está na possibilidade de apontar quantos anos os brasileiros viverão com boa saúde depois de atingir a maturidade. Se o país conhece como a população está envelhecendo, isso permite que o governo tenha condições de planejar os investimentos na área da saúde e previdência. Marcos Gonzaga usou como referência para a tese de doutorado as informações coletadas pelas edições de 1998, 2005 e 2008 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilios (Pnad), do IBGE, as mais recentes disponíveis.

Mais e melhor

Nos 10 anos analisados, ele constatou que houve aumento da expectativa de vida do brasileiro. Em 2008, a perspectiva era de que as pessoas que estavam com 60 anos vivessem, em média, por mais 19 anos, dos quais 15 anos com boas condições de saúde. Em 1998, a expectativa era menor: mais 17 anos de vida, sendo apenas 12 com saúde. “A metodologia nos apontou que a parcela do tempo vivida pelos brasileiros sem incapacidade aumentou entre 1998 e 2008, mostrando que as pessoas estão vivendo mais e melhor”, afirma.

Outro resultado obtido com as estimativas feitas pelo novo método indica que as mulheres estão vivendo mais tempo com algum tipo de incapacidade, quando comparadas aos homens, mas não há uma série de dados suficiente para explicar essa diferença. Uma das suposições, segundo Gonzaga, é a de que as mulheres procuram mais os serviços de saúde e têm percepção aguçada do seu estado de saúde. “É possível, mas não sei se provável, que elas tendam a dispor de diagnósticos precoces e, portanto, vivam mais tempo com a doença e restrições de atividade”, diz o pesquisador.

Limitações

Com o título Uma proposta metodológica para estimar o padrão etário das transições de incapacidade e tendências na expectativa de vida ativa dos idosos: um estudo para o Brasil entre 1998 e 2008, a tese de Gonzaga foi defendida no Programa de Pós-graduação em Demografia do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional de Minas Gerais (Cedeplar), vinculado à UFMG. O trabalho foi vencedor do Prêmio Capes 2013 na área de Planejamento Urbano e Demografia Regional, promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, fundação do Ministério da Educação.

Um das limitações encontradas pelo pesquisador está no fato de que a maioria das metodologias existentes com o mesmo objetivo depende de dados extraídos de pesquisas que acompanham uma população ou uma amostra de pessoas por determinado período, observando as mudanças sociais, econômicas e de saúde do grupo, levantamento carente no país. Essas pesquisas, chamadas de longitudinais, são mais caras e difíceis de serem realizadas.

O pesquisador trabalhou, então, para criar um método assentado sobre bases de dados disponíveis de pesquisas pontuais, conhecidas como transversais, e que não necessariamente acompanham o mesmo universo de pessoas observado a cada período do levantamento. Com aperfeiçoamento e estudos adicionais, a intenção do pesquisador é de que a metodologia alternativa seja usada para estimativas da expectativa de vida saudável por estado, incluindo variáveis relacionadas à morbidade e incapacidade da população idosa.

Por isso, as conclusões estão longe de eliminar a necessidade de o país investir em mais pesquisas ou no aperfeiçoamento do novo método. “Se, por um lado, é inegável que a população esteja vivendo mais, por outro, não temos tanta certeza de que esse aumento está sendo acompanhado por melhorias em termos de saúde, morbidade ou incapacidade”, admite.

Cálculo complexo

» O método para estimar a expectativa de vida saudável da população criado pelo professor Marcos Gonzaga parte dos indicadores coletados no país sobre o estado de saúde da população idosa: doenças autorreportadas (uma ou mais doenças que as pessoas informam ter ao entrevistador, de uma lista apresentada a elas); saúde autodeclarada (as pessoas qualificam o seu estado de saúde: se muito bom, bom, regular, ruim ou muito ruim) e incapacidade funcional (mede a capacidade das pessoas de realizarem atividades simples e fundamentais da vida diária para avaliar a independência dos idosos).

» Expectativa de vida saudável é um indicador que mede quanto do aumento no tempo médio de vida a partir de uma determinada idade é experienciada com boa saúde. A base da estimativa foi a expectativa de vida aos 60 anos

» Do indicador de incapacidade funcional, a fórmula chega ao indicador de expectativa de vida ativa (EVA), que considera, ainda, taxas de transição calculadas pelo pesquisador, entre os estados ativo, de incapacidade e de risco de morte da pessoa ou do número de pessoas que estão naquela faixa etária

» O passo seguinte é estabelecer um padrão etário de taxas de transição entre os estados de saúde e morte por idade, assim definindo o tempo médio em que as pessoas vivem em cada estado antes de morrerem
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