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Cursinhos enxutos em 2015

Crise econômica e escassez de editais obrigam escolas preparatórias a rever operações, apesar das mais de 22 mil vagas abertas em concurso

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postado em 15/12/2014 10:40

Diego Amorim

Vestcon em dois momentos: enquanto, em dezembro de 2013, os alunos enchiam as salas de aula, estimulados pelas provas de início de 2014... (Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 22/12/13     ) 
Vestcon em dois momentos: enquanto, em dezembro de 2013, os alunos enchiam as salas de aula, estimulados pelas provas de início de 2014...

 

... no último sábado, poucos estudantes compareceram ao local para se preparar para as poucas seleções previstas para os primeiros meses do ano (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 
... no último sábado, poucos estudantes compareceram ao local para se preparar para as poucas seleções previstas para os primeiros meses do ano

 

Nunca a capital dos concursos ficou tão distante desse título. Brasília havia se acostumado com os cursinhos lotados no fim do ano. Enquanto boa parte da população curtia as festas de Natal e de ano-novo, milhares de estudantes abarrotavam salas de aula em preparação para as seleções pós-réveillon. A crise, intensificada no último mês, mudou essa lógica. Com a escassez de editais e a consequente debandada de alunos, as escolas estão tomadas pelo marasmo.

Ninguém arrisca dizer o que será da indústria dos concursos daqui para frente. Consolidada logo no início da era petista no governo federal, quando ocorreu aumento considerável de nomeações e generosos reajustes no funcionalismo, a onda de concursos tende a perder força no segundo mandato de Dilma Rousseff. Ao que tudo indica, o arrocho fiscal sinalizado pela presidente reeleita colocará ainda mais à prova as estratégias dos cursinhos preparatórios.

Copa do Mundo e eleições em um ano de conjuntura econômica desfavorável desafiaram o segmento. Em 2014, os concurseiros ficaram seis meses sem ver um edital sequer na praça, lembrou na última semana o presidente do Gran Cursos, José Wilson Granjeiro, que não esconde a preocupação com o momento atual. Assim como outros cursinhos, em Brasília e em outras cidades, o enxugamento da estrutura tornou-se imperativo.

A principal unidade do Gran Cursos, no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), um ponto de encontro dos concurseiros na capital federal, frequentado por gente de todo o país, fechou as portas. Sem a demanda esperada, o aluguel provocou um desequilíbrio nas contas. A tradicional unidade de Taguatinga também não escapou das reformulações e teve as atividades canceladas. Foi a solução para que a escola sobrevivesse aos novos tempos.

Quatro unidades, de porte bem menor, devem ser inauguradas em janeiro de 2015, segundo Granjeiro. Os cursos oferecidos custarão até 20% menos para tentar reconquistar concurseiros evadidos. Os valores cobrados nos últimos anos, somados a um ambiente de inflação e endividamento, afastaram muitos estudantes. “No início, matriculei-me nas matérias principais e só”, conta o concurseiro Anderson Vilanova, 24 anos, que há um ano estuda por conta própria, com o auxílio de videoaulas e materiais rateados com outros colegas.

Há 22.585 vagas abertas atualmente em certames locais e nacionais — a maioria para universidades, com salários que chegam a quase R$ 16 mil. Mas a ausência de grandes editais desanima os candidatos. No último sábado, apenas um jovem ocupava a sala de estudos na Vestcon da Asa Norte, outra que passa por dificuldades financeiras. O estacionamento estava vazio. A secretaria, fechada. E não mais do que 15 estudantes assistiam à aula.

Neste fim de ano, de acordo com o presidente do grupo, Ernani Pimentel, 80% dos funcionários do Vestcon foram demitidos. Muitos acionaram a Justiça contra a empresa. Quem ficou cruzou os braços em protesto por atrasos no pagamento. Prejudicados pela reviravolta financeira no segundo maior cursinho do Distrito Federal, alguns alunos recorreram ao Procon.

A número de editais lançados, mais cedo ou mais tarde, voltará a crescer, na opinião do professor Mariano Borges, há 10 anos em escolas preparatórias para concursos. O problema, avalia ele, não será falta de demanda. “As escolas precisam se readequar. A linguagem, o funcionamento, a gestão: tudo estava ultrapassado”, comenta ele.

A derrocada da indústria dos cursinhos favorece a reflexão em torno da seleção de funcionários pelo Estado, defende o especialista em administração pública José Matias-Pereira. Na última década, analisa ele, as escolas conseguiram se adaptar a um sistema focado em um eficiente ensino de técnicas, mas nem sempre o mais adequado do ponto de vista de gestão. Segundo ele, a austeridade fiscal deve mesmo atingir os concursos no próximo ano e, além dos empresários, os candidatos terão de se reinventar.

“As escolas precisam se readequar. A linguagem, o funcionamento, a gestão: tudo estava ultrapassado”
Mariano Borges, professor há 10 anos em escolas preparatórias

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