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Aprendizado em família

Casos de parentes que se unem nos estudos para alcançar o sonho de ingressar no serviço público são cada vez mais comuns. Além de aumentar a motivação dos candidatos, esforço conjunto pode reforçar a assimilação do conteúdo das matérias

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postado em 07/09/2015 13:31 / atualizado em 07/09/2015 13:35

Rodolfo Costa

Antonio Cunha

Mais do que um incentivo para estudar para concursos, a crise econômica está contribuindo para aproximar familiares em torno de um objetivo comum: conseguir o sonhado ingresso no serviço público. Pais e filhos, tios e sobrinhos estão tendo no aprendizado conjunto o reforço necessário para fixar o conteúdo obtido em sala de aula ou mesmo em casa. Em muitos casos, a busca por uma vaga no funcionalismo costuma deixar candidatos tão ansiosos que, para se concentrar, acabam se afastando de amigos e da própria família. Fazer exercícios com parentes ajuda a romper esse isolamento. E, assim como nos estudos em grupo entre colegas e amigos, contribui para a assimilação das disciplinas.

Para a estudante Andressa Domingues, 21 anos, estudar com o pai, o servidor público Nilson Santos, 55, é um fator de equilíbrio emocional. “A presença dele por perto me ajuda a conter um pouco o estresse”, diz ela. Para Nilson, o método favorece a troca de estímulos. “É gratificante, para ambos, ver o esforço do outro nos estudos. Como convivemos no dia a dia, sabemos das nossas dificuldades, e o objetivo comum nos fortalece”, afirma.

O arrocho no orçamento familiar foi um dos principais motivos de Santos para voltar a estudar. Funcionário da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes de Goiás, Santos diz que a estabilidade que tem como servidor não é mais motivo de satisfação. “Está tudo muito caro, e parece que a tendência é só piorar. Fui a um posto de combustíveis nesta semana e o frentista disse que a gasolina poderá ser reajustada até o fim do ano. Desse jeito, não tem bolso que aguente”, lamenta. Formada em letras desde o mês passado, Andressa perdeu o interesse pelo último emprego. “Larguei um trabalho com carteira assinada no fim de 2014 porque não conseguia vislumbrar progressão ou melhoria de salário”, afirma.

Desafio
Professor de educação física em um colégio do Novo Gama (GO), as dificuldades de Nilson Santos vão além do pouco tempo de estudo. “A última vez que frequentei um cursinho preparatório foi em 1992. Naquela época, estava com a cabeça mais arejada, e era mais fácil absorver os conteúdos das matérias. Voltar a mergulhar nos livros agora é um grande desafio”, constata. Como só têm os fins de semana para estudar, ele e a filha usam o tempo disponível, principalmente, para realizar exercícios. “Acho que eu o ajudo a tirar dúvidas, e ele me auxilia a ser mais atenciosa a detalhes que, às vezes, passam despercebidos”, diz Andressa. Como tem mais tempo para estudar, ela diz que procura ser paciente para acompanhar o ritmo de aprendizado do pai.

Dificuldades
Ter companhia nos estudos –— seja familiar ou não — é ótimo para a assimilação do conteúdo, na avaliação do coordenador pedagógico do grupo Gran Cursos, André Lopes. “Se for em família é melhor ainda, porque, mesmo estudando fora, os parentes continuam, em casa, a conversar sobre o conteúdo das disciplinas. Ter um objetivo comum faz com que os candidatos cresçam muito e fiquem potencialmente mais competitivos em relação aos demais concorrentes”, avalia.

Com a margem de lucro apertada, o comerciante Cleidiomar Martins, 40 anos, decidiu prestar o concurso do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de olho nos salários de R$ 5.259,87 para técnico, e de R$ 7.869,09 para analista. “Se passar, vou ficar indeciso. O pensamento de todo empresário é de vencer desafios. A estabilidade, no entanto, certamente pesaria na balança”, diz ele, que estuda com o sobrinho Pedro Marcos Martins, 18.

Apesar de irem às aulas do cursinho juntos, Pedro revela que o tio embarcou nos estudos mais para incentivá-lo. “Vamos à biblioteca e resolvemos questões juntos, mas ele vai mais para me motivar. Ele me ajuda dando dicas e me encoraja a estudar todos os dias”, diz ele, que está concluindo o ensino médio. “Meu sonho é passar em um concurso, pagar meu próprio curso de direito e, um dia, ser procurador.”

Dicas de especialistas

- É importante ter paciência. Passar em um concurso exige tempo de estudo. Poucos são os candidatos que conseguem a aprovação “de um dia para o outro”.

- Conheça a banca examinadora. Faça leituras estratégicas e reforce os conteúdos que mais costumam ser cobrados nas provas. Consulte obras de professores com estatísticas sobre os temas mais abordados.

- Faça e refaça exercícios e provas anteriores do órgão almejado, mesmo que de bancas diferentes. Ter apenas conhecimento do conteúdo teórico não é garantia de aprovação.

- Elabore um bom plano de estudos. Isso garantirá um aprendizado melhor do conteúdo e não apenas o decoreba. Crie um roteiro que permita a alternância de disciplinas para não fatigar a mente.

- Cuide do corpo e da mente. Atividades físicas e alimentação saudável podem contribuir para um melhor poder de concentração.

- Defina seu objetivo. Fazer todos os concursos que saem não é a melhor estratégia para entrar no serviço público. É necessário reconhecer as aptidões e focar em carreiras mais adequadas ao próprio perfil.

- Os candidatos que têm menos tempo para estudo devem priorizar, principalmente, as matérias com maior peso.

- É superando as dificuldades que o candidato conseguirá uma vaga no funcionalismo. Candidatos devem focar nas matérias em que têm mais dificuldade

- Estudar junto pressupõe empatia entre os membros de um grupo, sejam eles familiares ou não. Por isso, é importante ter um vínculo positivo com os parceiros de estudo.

- Estabeleça um planejamento das atividades em dupla ou grupo. Trace um cronograma, com encontros regulares, em dias e horários pré-determinados.

 

Disciplina é fundamental



O estudo em família tem suas vantagens, desde que os envolvidos tenham empatia e uma relação de sociabilidade, observa Mário César Ferreira, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB),  especialista em psicologia do trabalho. “Tendencialmente, do ponto de vista mais geral, os vínculos existentes entre os membros de um grupo podem ser facilitadores do processo do aprendizado. Estudar em família pode ser positivo, desde que sejam observados alguns critérios”, destaca.

Segundo Ferreira, o resultado pode ser negativo se o excesso de intimidade e de convivência começar a prejudicar a seriedade do trabalho. “Estudar em grupo nada mais é do que trabalhar em grupo. Para fazer isso, é preciso ter regras, rotina, pontualidade, disciplina e proatividade. É necessário ter os ingredientes típicos de um ambiente de trabalho profissional”, explica.

Sem planejamento e método, reforça o professor, o estudo em família pode comprometer os resultados. “Estudar em família ou em grupo não é apenas dividir o mesmo ambiente. Para que o estudo seja otimizado e tenha eficácia, é preciso que se faça um planejamento entre os familiares, ainda que o tempo disponível de cada um deles seja apenas o fim de semana”, ressalta o professor.

Diferenças
Além disso, os integrantes do grupo precisam respeitar o processo pessoal de cada um na assimilação dos conhecimentos. As pessoas têm modos diferentes de guardar e organizar as informações. Essa personalização é fundamental”, reforça Ferreira.

Para o coordenador pedagógico do grupo Gran Cursos, André Lopes, a diferença no grau de preparação é, normalmente, o principal obstáculo em situações que reúnem pessoas com tempos de estudo desiguais. No entanto, ele avalia que as dificuldades podem ser contornadas. “Naturalmente, um pode ser mais lento em um primeiro instante que o outro. Mas é preciso que estejam alinhados no propósito. Quem está mais avançado deve resgatar quem está atrás e fazê-lo andar mais rápido. E ser paciente é fundamental”, avalia.

 

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