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Correio Braziliense

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Após Enem, página sobre Simone de Beauvoir é alterada mais de 50 vezes

Verbete no Wikipédia sobre autora francesa ganhou acusações de "nazista" e "antifeminista". Questão sobre feminismo no Enem gerou polêmica nas redes sociais

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postado em 29/10/2015 13:57 / atualizado em 29/10/2015 18:28

O verbete em português sobre Simone de Beauvoir na página do site Wikipédia foi alterado mais de 50 vezes desde o último sábado (24), quando uma questão sobre a filósofa francesa apareceu no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — que teve provas aplicadas no último fim de semana em todo o país. Entre as alterações feitas na página sobre a escritora estão acusações de nazismo, pedofilia e a afirmação de que a pensadora "não entendia nada de biologia".

 

Reprodução da Internet/simonebeauvoir.kit.net
Um dos itens do primeiro dia de provas do Enem trouxe uma questão sobre o feminismo que trabalhava a passagem do livro da autora O Segundo Sexo, de 1949. O trecho da questão dizia que "ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino" e pedia que o estudante identificasse o movimento social que a autora ajudou a estruturar.

 

A secretária de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, julgou importante ter uma citação da pensadora no exame. "Proporcionou uma reflexão sobre a desigualdade social entre homens e mulheres. Além disso, colocou em evidência uma intelectual de referência, desde os anos 40, da temática da construção social dessa desigualdade", disse.

 

“Eu vejo o Enem como uma ótima oportunidade de usufruir do conceito de democracia. Ele deve abrangir temas atuais, principalmente os presentes nas univerisdades públicas do país. Estas instituições devem fazer com que os jovens pensem criticamente, vejam diversas realidades. Quando ele propõe um tema tão atual, como o feminismo e a violência contra a mulher, traz uma questão vivida inclusive por muitos daqueles que fizeram a prova”, comentou a professora do curso de sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Lourdes Bandeira, que faz parte do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher (Nepem).
 

A questão causou polêmica nas redes sociais: além de internautas, os deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Marcos Feliciano (PSC-SP) acusaram o exame de doutrinação, chegando a classificá-lo como “petista” e “marxista”. "Para afirmar que este exame é marxista, ele não faz ideia do que é esta corrente. Há muitas pessoas assim, chamados de marxistas de orelha, que leem apenas o essencial das principais obras e não as refletem de fato. Eles (os deputados) são só mais um reflexo triste do conservadorismo brasileiro, relutante em disseminar a intolerância”, afirmou a professora.


Alterações impedidas

Por conta do grande número de modificações no verbete, a página teve as edições restringidas pelo usuário responsável por resguardar a qualidade do verbete. Na Wikipedia, qualquer pessoa pode fazer uma edição em um artigo, mas no dia seguinte ao Enem, por conta do vandalismo excessivo, o verbete passou a poder ser alterado somente por usuários autoconfirmados (com conta no site há, pelo menos, quatro dias e que já tenham feito no mínimo dez alterações).

A primeira alteração no verbete do Wikipédia sobre a autora foi feita às 22h12 de sábado, para incluir que “em 2015, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma das questões envolvia a feminista”. Depois disso, as alterações afirmaram que ela havia escrito um "livro de estupro", era "antifeminista" e "muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa", entre outros.

 

"Simone de Beauvoir nunca participou de uma organização facista ou nazista. Não há relato oficial algum de que ela tenha participação influente nisso. As pessoas que dizem algo assim não conhecem a história e a personagem essencial que ela foi para o mundo, principalmente para o empoderamento feminino”, destaca Lourdes Bandeira.

 

Antes do exame, a página não havia sido alterada desde 10 de outubro. Na segunda-feira (26), a página chegou a receber 35 mil visualizações, bem acima da média diária de 250.

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