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A conquista na rede pública

Estudantes de escolas do governo ficam com 861 das 2 mil vagas do PAS. Nem a greve dos professores, deflagrada no fim do ano letivo, prejudicou o bom desempenho dos novos calouros da UnB

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postado em 13/01/2016 09:07 / atualizado em 13/01/2016 20:09

Marianna Nascimento - Especial para o Correio

Minervino Junior/CB/D.A Press
Alunos da rede pública do Distrito Federal fizeram bonito no Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS-UnB). Dos 2 mil aprovados na terceira etapa, 861 estudavam em escolas do governo, segundo informação da Secretaria de Educação do DF (SEDF). Só no Centro de Ensino Médio Setor Oeste (Cemso), instituição da Asa Sul, 56 conquistaram uma vaga em cursos como direito, relações internacionais e engenharia da computação.
 
A diretora da escola, Ana Maria Gusmão, conta que esperava o bom desempenho e os altos níveis de aprovação, tradição do Setor Oeste. A surpresa foi que, apesar da greve deflagrada no fim do ano letivo  — momento primordial para estudantes de ensino médio que tentam vaga na universidade —, os números chegaram a ultrapassar os da última edição do PAS. “A espinha dorsal da nossa escola é a preparação para provas seletivas, como Enem, PAS e Sisu, mas o mérito é dos alunos. Muitos moram longe, acordam de madrugada para estar aqui todos os dias. São vitoriosos”, elogia.
 
Aprovada em relações internacionais, Janayna Martins aponta justamente a greve dos professores, ocorrida entre outubro e novembro do ano passado, como a maior dificuldade enfrentada. A garota de 17 anos relata que se esforçou para não ser prejudicada pela paralisação. “Eu não esperava passar, porque a concorrência era grande, e 2015 foi um ano muito conturbado. A gente estava em casa quando deveria estar na escola. Revisei, estudei, tentei me recuperar por conta própria e deu tudo certo.”
 
O Cemso teve três alunos aprovados em direito, um dos mais concorridos cursos da UnB. Mayra Luiza Santana, 17, foi um deles. “Passei por muita pressão, porque o curso que escolhi é um dos mais disputados. Mas a minha família, os professores e os meus amigos acreditaram em mim”, conta.
 
Quem também integra a lista de novos alunos de direito é Amanda Celeste, 17. “Minha família não me pressionou. Pelo contrário. Eles diziam que, mesmo se eu não passasse agora, com certeza conseguiria depois. A maior pressão partia de mim mesma. Eu estudava muito. Foi cansativo, mas eu precisava saber que fiz tudo o que podia.”

Esforço recompensado
Parceria foi a palavra-chave para a aprovação dos alunos do Centro de Ensino Médio Elefante Branco (Cemeb) Wériklis Marques, 18, e Poliane Dias, 17. Ele é calouro de pedagogia da UnB e ela, de história. Eles fazem parte da lista dos 22 estudantes do Cemeb que agora integram o quadro de alunos da universidade pública. “Acho que a ficha só vai cair quando eu fizer a matrícula. Essa conquista só foi possível com apoio da escola, em especial da diretora. Ela informava a gente de tudo o que acontecia na UnB, incentivava, envolvia os alunos em projetos, tudo em preparação para as provas”, lembra Poliane.
 
A diretora do Cemeb, Joselma Ramos, considera que o papel da escola é aumentar a autoestima dos alunos e reforçar constantemente que entrar na universidade pública é algo possível. A informação, diz Joselma, é ferramenta essencial desse trabalho. “Os alunos da escola pública costumam acreditar que não têm potencial, mas, quando um contato dos estudantes com a universidade se desenvolve minimamente, eles se sentem mais seguros”, explica.
 
Oferecer informações sobre como funcionam os processos seletivos ou como os alunos devem se preparar é, para Joselma, parte do trabalho que deve ser feito pela escola. “Nós devemos fazer com que eles vençam  as dificuldades. Muitas famílias não têm estrutura para apoiar, buscar informações. Então, tentamos desempenhar esse papel.”
 
A diretora declara, ainda, que os resultados no Cemeb no PAS só não foram melhores porque a inscrição não foi gratuita. “Quando as inscrições para o PAS foram abertas, vários alunos já estavam inscritos no Enem e não tinham condições de bancar financeiramente as duas provas.”
 
Ser professor é um sonho de longa data de Wériklis. A oportunidade de cursar pedagogia em uma universidade pública torna a vitória ainda maior. “Sou o primeiro da minha família a fazer uma universidade pública. É uma realização pessoal muito grande.” A amizade com Poliane incentivou o jovem a perseguir o sonho. Os dois faziam um “corujão de estudos”, que começava às sextas-feiras, às 22h, e se estendia até as 5h do dia seguinte. “Desde o primeiro ano, nós nos dedicamos juntos. A Poliane foi um gatilho para mim, ela que me incentivou a estudar.”
 
Shaiane Gomes, que também é estudante do Cemeb, já tinha até se matriculado em uma faculdade particular, porque, apesar do empenho que teve nos estudos, não acreditava que o sonho de ser aluna de uma universidade federal fosse se tornar realidade. “O ano passado foi o mais puxado de todos. Moro em Samambaia e estudo na Asa Sul. Acordava às 5h e pegava ônibus. Vinha em pé para a escola todo santo dia. Voltava para casa às 20h e ainda ia estudar. Foi muito difícil, mas a sensação agora é de que tudo valeu a pena”, comemora Shaiane.
 
No Centro de Ensino Médio Setor Leste, o número de aprovados no PAS chegou a 54, como o Correio mostrou na edição de terça-feira. Um deles, David da Silva Nunes, 18, passou para o curso mais concorrido da instituição de ensino superior, o de medicina.

Fora do plano
O sucesso no PAS não se restringiu às escolas de Brasília. Juliana Ferreira, 17 anos, era aluna do Centro de Ensino Médio 9 de Ceilândia, instituição que teve 25 aprovados no programa. A garota, agora, é caloura de relações internacionais da UnB e conta que já havia escolhido o curso antes mesmo de entrar no ensino médio, por sugestão de uma professora de inglês. “Pesquisei sobre o curso, me apaixonei e fiz tudo o que podia para entrar. Acho que a palavra que resume essa trajetória é renúncia. Deixava de me divertir para estudar. Mesmo durante a greve, ia para a escola e ficava na biblioteca. Dediquei tanto tempo aos estudos que a sensação é de dever cumprido.”
 
A nova aluna de fisioterapia da UnB Larissa Oliveira, moradora do Sol Nascente, também fez o ensino médio do CEM 9 de Ceilândia e diz que não somente a conquista dela merece reconhecimento, mas de todos os estudantes de escola pública que são admitidos na universidade. “Infelizmente, não temos a mesma infraestrutura de colégios particulares. Eu mesma duvidava da minha capacidade de passar, porque sempre estudei em escola pública. Agora, estou orgulhosa de mim mesma e da minha escola, que me motivou muito. Meus professores são muito bons. São referência”, diz Larissa. No Centro de Ensino Médio 01, do Gama, um total de 48 alunos também conquistaram uma vaga na UnB.

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