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Movimento perde força

A determinação de reintegração de posse das escolas, obtida pelo MEC na Justiça e que passou a ser cumprida desde ontem, diminuiu a participação de estudantes no movimento que se arrasta há mais de um mês

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postado em 02/11/2016 17:50 / atualizado em 02/11/2016 17:52

Gabriela Vinhal

 

As ocupações de instituições de ensino ganharam força nas últimas semanas e chegaram a mobilizar mais de 90 mil alunos em todo o país contra a reforma do ensino médio e contra a PEC do teto dos gastos públicos. Mas o movimento começou a perder forças ontem, quando a Justiça distribuiu ordens de reintegração de posse das escolas. No Distrito Federal, até o fechamento desta matéria, três das 10 escolas invadidas haviam sido esvaziadas sob operação da polícia. Além disso, ocorreram desocupações em 11 estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e no Paraná, estado com maior número de manifestantes.

A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Catarina Vitral, no entanto, manteve o discurso de mobilização, afirmando que “apesar da tentativa do governo de enfraquecer o movimento estudantil, a luta dos estudantes continua”. Para a presidente da entidade, alegar que a ocupação das escolas gerou o adiamento das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não tem sustentação. “Nós provamos com as eleições municipais que, através do diálogo, era possível existir ocupação e votação. Contudo, em nenhum momento houve uma tentativa de diálogo por parte dos representantes do Ministério da Educação (MEC)”, afirmou. No entanto, no segundo turno das eleições, houve mudança de locais de votação, especialmente no Paraná.

“Nós já provamos que a repressão não vai conseguir vencer. Estamos mobilizados em defesa da escola pública e dos investimentos em educação. Se o governo voltar atrás em relação à reforma do Ensino Médio e convocar a comunidade acadêmica para um debate, reavaliamos as ocupações”, declarou Vitral.

Como 304 instituições que receberiam a aplicação do Enem continuavam ocupadas, até o dia de ontem, o MEC decidiu que os testes serão aplicados em 3 e 4 de dezembro, nesses locais. A presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Maria Inês Fini afirmou, em coletiva, ontem, que caberá ao governo federal arcar com os custos do adiamento e disse acreditar que há outros responsáveis “por trás” das ocupações: “Gostaríamos de atribuir esse custo aos reais responsáveis, que acho que não são os jovens”.

“Eu lamento profundamente pelos alunos que não farão o exame neste fim de semana, mas não foi o Inep que fez a ocupação. Eu só posso lamentar, me solidarizar e dizer que, da nossa parte, eles terão as mesmas condições”, declarou. A presidente do Inep defendeu ainda a reforma do ensino médio e disse que ela está sendo “amplamente debatida”.

No Distrito Federal, cinco escolas estão ocupadas e 3.178 estudantes terão o Enem postergado. Uma estudante do segundo ano, que preferiu não se identificar, do Centro de Ensino Médio Ave Branca (CEMAB), desocupado ontem, é contra o ato, que julga ser “um movimento contraditório”. Segundo a jovem, os colegas protestam contra um projeto que pode prejudicar a educação, mas ocupam a instituição, que é impedida de ter aulas. “Acho válidas as manifestações, desde que não prejudiquem ninguém. Assim como foram em 2013, na Esplanada dos Ministérios. Eu só quero estudar e nem isso eu posso”, desabafou.

Na Universidade de Brasília (UnB), a ocupação chegou à reitoria, à Faculdade de Comunicação Social e ao prédio das Artes Cênicas. Alguns docentes da UnB estão solidários ao movimento estudantil, no entanto, afirmaram que farão o possível para manter o calendário acadêmico, apesar da ocupação chegar, inclusive, às salas de aulas. “Eu não considero legítimo o ato, porque a greve deve partir dos professores e não dos alunos, que são patrocinados pela sociedade para estudar”, afirmou um dos estudantes da FAC, de 22 anos, que preferiu não se identificar por medo de retaliação por parte de colegas de curso.

Felipe Ribeiro, 22 anos, aluno do décimo semestre de Engenharia Ambiental, também não é a favor do ato, porque “o grupo que decidiu pela manifestação pensa de maneira autoritária e radical”. “Eles clamam por democracia, mas não a praticam dentro da universidade. Na assembleia de ontem, eles não tinham o quórum mínimo para votação e decidiram pela ocupação”, justificou. Quanto à PEC 241(que limita os gastos públicos), Ribeiro conta que é a favor das ideias dela, por causa da necessidade de haver um limite de despesas do governo.

Já para a estudante de Letras, Maria Juliana Ravália, é fundamental que os alunos não fiquem de braços cruzados diante de medidas que julgam “não serem benéficas para a sociedade, sobretudo aos universitários e secundaristas”. “As pessoas precisam entender que nós não somos contra a sociedade. Nós também temos voz. A UnB já foi centro de resistência contra a ditadura, temos esse histórico de preocupação, ocupação, militância. Não é agora que vamos ficar quietos e calados diante desses absurdos”, desabafou.

Eduardo Meireles, aluno do 5º semestre de Comunicação, também participa das ocupações na reitoria: “É preciso lutar contra a PEC 241 e contra a escola sem partido. Sobretudo, é fundamental o apoio às manifestações secundaristas, que são contra a reforma no ensino médio”.

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