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O papel sobrevive!

O currículo passou por várias mudanças mediante as inúmeras inovações tecnológicas surgidas nos últimos anos. Especialistas são unânimes em afirmar que migrar para o mundo virtual é a melhor atitude para aumentar as chances de conseguir um emprego, mas admitem que o documento impresso sempre será usado em determinadas áreas

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postado em 16/04/2017 13:52 / atualizado em 16/04/2017 13:59

Amarildo Castro

Quem está em busca do primeiro emprego ou de uma nova oportunidade no mercado de trabalho precisa ter um currículo. O modo de elaborar e entregar o documento, que sintetiza experiências e aptidões do candidato, tem sido transformado pela tecnologia e se tornado cada vez mais digital. Distribuir o portfólio de porta em porta está em desuso: gradativamente, ficam raros casos de pessoas que entregam currículos pessoalmente e de empresas que aceitam o método. No entanto, esse é, sim, um instrumento válido. Especialistas em recrutamento defendem ainda que a versão em papel sempre será necessária por causa de determinadas posições e setores do mercado.


“Por exemplo, para vagas na área de informática, não se usa mais: bancos e sites são as formas preferidas para recrutar. Mas trabalhadores de cargos operacionais, como padeiros ou costureiros, não têm hábito de utilizar a internet com essa finalidade. Por isso, nesses meios, ainda se recebe o documento impresso”, afirma  William Lima, psicólogo e recrutador do Instituto Euvaldo Lodi no Distrito Federal (IEL-DF). É no que também acredita Fabiana Schneider, consultora de carreira e headhunter — termo em inglês que designa o profissional que caça os melhores profissionais em áreas exclusivas. Segundo ela, cada segmento tem um nível de envolvimento com a internet, o que determina o formato do currículo.


Gabriela Studart

“Em indústrias, é comum o profissional bater na porta da empresa. Isso ocorre porque, mesmo que haja milhões de pessoas acessando osmartphone, alguns ramos são mais lentos na evolução”, observa. “As redes sociais de negócios, como o LinkedIn, são mais usadas quando as oportunidades oferecidas são para postos que demandam mais responsabilidade. A plataforma dá ao recrutador um respaldo de relacionamentos (networking), informações acadêmicas e profissionais”, elenca. “Os processos on-line não vieram substituir os currículos em papel, mas somar e obter resultados melhores”, garante  Larissa Meiglin, supervisora de Assessoria ao Candidato do site de empregos Catho. “O recrutamento virtual é para todos os cargos e pode ser feito em canais diferentes, via cadastro em redes sociais ou envio por e-mail.”

 

Sem errar
Mesmo que ainda seja um modo mais tradicional de se candidatar, é preciso ter cuidado na escolha do formato, do texto e de outros elementos inseridos no currículo em papel. “A foto deve ser escolhida com cautela e só usada quando solicitada. Prefira retratos atuais e que te representem bem. Não use imagens de redes sociais, na presença de outras pessoas, com copo na mão (já aconteceu). Tem que ter vestimenta e postura profissional”, declara William Lima, pós-graduado em psicopedagogia institucional e clínica. É preciso estar atento ainda a erros de português e a informações inverídicas.


“Não diga que você foi gerente se só substituiu sua chefe durante a licença-maternidade dela. Também não coloque que tem nível de inglês fluente se não for verdade”, adverte a administradora com MBA executivo em marketing Fabiana Schneider. “Em relação a endereço: bairro e cidade bastam”, observa. Número de documentos, pretensão salarial, assinatura e até mesmo o termo “curriculum vitae” no topo do documento são informações desnecessárias, segundo a consultora.

Eu uso!
As segundas-feiras são reservadas por Reijane dos Santos, 27 anos, desempregada há dois meses, para a entrega de currículos em prédios do Setor Comercial Sul. Vestida formalmente, a estudante de direito sai de casa com um calhamaço de currículos para tentar conseguir uma posição nas áreas comercial ou jurídica. “Era mais fácil antigamente: ir pessoalmente era um diferencial. Foi assim que consegui meu primeiro emprego, como secretária executiva: o chefe viu minha atitude como proatividade. Agora, muitas vezes, não consigo acesso ao gerente e deixo na recepção”, diz ela, que trabalhou ainda como recepcionista, assistente comercial e consultora de vendas.


Para não perder chances, Reijane também aposta no ambiente virtual. Blogs e sites de emprego são diariamente visitados por ela. Além disso, a brasiliense pesquisa o endereço eletrônico das empresas da área desejada e envia o currículo. “Uma vez, um diretor me perguntou como consegui o e-mail dele, eu contei e o impressionei. Isso mostra que eu tenho vontade de alcançar meu objetivo”, afirma. Quanto ao futuro, Reijane acredita que a internet deve dominar o campo da seleção. “Fui entrevistada via Skype uma vez. Fiquei surpreendida. A recrutadora estava em Minas Gerais falando comigo. É tudo muito rápido e fácil com a internet, por isso acho que a internet será o meio principal de encontrar um emprego daqui para a frente”, diz.

 

Versões digitais em alta
A psicóloga Larissa Meiglin, da Catho, acredita que ter um currículo on-line aumenta as chances de encontrar a vaga de emprego ideal para o perfil do candidato. “O preenchimento virtual de informações tem ajudado recrutadores nesse sentido, pois as pessoas podem disponibilizar dados que permitem recrutar de acordo com a necessidade da oportunidade. Tudo isso a distância de um clique. Isso é uma evolução”, pontua. “Com a tecnologia, as empresas conseguem separar rapidamente os candidatos de acordo com as competências, mediante palavras-chave, evitando perder tempo com quem não tem o perfil necessário”, exemplifica William Lima.


O alcance também é uma vantagem do cadastro em sites de emprego. “Na internet, há uma escala muito grande de gente que pode olhar seu currículo e achar você quando há vagas disponíveis. Vários recrutadores do país e do mundo podem te ver”, diz Fabiana Schneider. A atualização rápida de habilidades e formações também é outro ponto positivo de estar cadastrado em uma plataforma on-line. Saber destacar competências e objetivos nos currículos, tanto on-line quanto em papel, é habilidade essencial para quem está à procura de emprego. “É preciso ser assertivo. Fale o que é, ressalte no que é bom. O seu resumo deve deixar claro a sua maior habilidade, se você é fera em escrever artigos ou em contábeis. Importa mais especificar suas qualidades do que disparar currículos”, aconselha Fabiana Schneider.


William Lima, recrutador do IEL, sugere que características comportamentais (como proatividade, eficiência e organização) fiquem fora do currículo. “Esses pontos devem ser deixados para a análise do recrutador. Se forem verdadeiros, isso será constatado nas entrevistas”, diz. Uma tendência, que começa a ser pedida em processos seletivos, é apresentar um currículo em forma de vídeo. “Esse tipo de seleção é comum em outros países e, agora, aqui também. Em cargos de tecnologia, ainda mais. Para dar certo, é importante se preparar antes e depois: primeiramente, em questão de roupas e script e, posteriormente, na edição. Grave em um fundo neutro”, guia Fabiana.


Na internet

João Falleiros, 29 anos, tem uma relação de sucesso com a rede profissional LinkedIn. O especialista em gestão de negócios pelo Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) conheceu a plataforma por meio de amigos e se cadastrou na rede enquanto ainda era aluno de administração da Universidade de Brasília (UnB).


Depois de se formar, João tinha em mente que atualizar o perfil constantemente o deixaria mais atraente. A estratégia deu certo. “Enquanto estava em um programa de trainee, um headhunter me encontrou no LinkedIn e me chamou para fazer o processo seletivo do meu atual emprego, como executivo de contas de uma multinacional de TI. Ainda hoje, recebo sondagens de recrutadores”, conta. No início da carreira, João chegou a enviar currículos por e-mail, mas não teve muitas respostas.


“Com o documento físico ou em PDF, o número de pessoas que se pode alcançar é limitado. Na rede social, você atinge um público maior: lá eu estou disponível para milhões de pessoas, o mundo é mais conectado”, afirma. A satisfação com a rede profissional é tamanha que João incentivou colegas de trabalho a ingressarem no LinkedIn e é procurado por pessoas que querem dicas de como montar um bom perfil.

*Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa