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Rotina com qualidade

O ritmo acelerado no dia a dia profissional pode levar a um colapso físico ou mental. Por conta disso, muitas pessoas já começam a rever seus hábitos de vida em busca de bem-estar

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postado em 04/06/2012 08:00

Funcionário de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Euler Oliveira busca liberar as tensões por meio do caratê, esporte que ele já praticou na infância e na adolescência Um aperto no meio do peito foi o primeiro sinal. O rosto pálido assustou o colega de trabalho, que ofereceu um pouco d%u2019água. Só houve tempo de deixar o copo sobre a mesa antes de uma dor muito forte tomar conta do geólogo Carlos Oití Berbert, à época com 54 anos. Ele estava tendo um infarto e sabia as causas: excesso de trabalho e falta de cuidado com a saúde. No Brasil, as paradas cardíacas súbitas representam 25,4% das causas de morte. Além disso, quase 23% da população foi diagnosticada como hipertensa, segundo dados de 2011 do Ministério da Saúde. Especialistas indicam que o estresse causado por uma rotina de trabalho pesada pode desencadear e agravar problemas de coração, respiratórios, depressão, dores na coluna, entre outros. %u201CAté 1996, eu era um fumante inveterado, chegava a fumar três maços por dia. Não fazia exercícios, vivia em estado de tensão permanente, trabalhava de 12 a 14 horas por dia, não tirava férias havia nove anos, meu almoço era sanduíche e meu café da manhã era café com leite%u201D, conta Carlos. Hoje, ele tem 70 anos e encontrou uma maneira de lidar com a rotina do cargo atual, de coordenador-geral das unidades de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e manter uma vida saudável. O equilíbrio interno veio por meio de aulas de tai chi chuan, arte marcial chinesa. %u201CAinda sou uma pessoa agitada, mas sem qualquer estresse ou grande tensão. Quando tenho uma ameaça de estresse, pratico o que aprendi no tai chi%u201D, relata Carlos. Quatro décadas separam Carlos Oití do fisioterapeuta Euler Roque Oliveira, 30 anos. Os cuidados com a saúde para aliviar a tensão do trabalho, porém, têm o mesmo valor para os dois. Euler praticou caratê durante a infância, mas parou ainda adolescente, aos 14. Depois da formatura na faculdade, iniciou um ritmo forte de trabalho. Após cinco anos trabalhando na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital, sentiu necessidade de canalizar a energia fazendo algum esporte. Buscar o caratê foi um movimento natural. %u201CComo a maioria dos profissionais na área da saúde é autônoma, nós não temos férias e aumenta a cobrança quanto à produção%u201D, conta. Há cerca de um ano e meio, Euler voltou a praticar a arte marcial para lidar com a rotina intensa. %u201CEu dependo disso, me sinto muito bem.%u201D A especialista em qualidade de vida no trabalho Josely de Figueiredo Gomes ressalta que ser mais novo não garante imunidade. %u201COs jovens, diferentemente dos idosos, têm os sistemas orgânicos mais fortes, mas não estão imunes aos problemas degenerativos, pois esses têm uma forte relação com o estilo de vida%u201D, afirma Josely, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). Além disso, não adianta o trabalhador voltar para um ambiente com as mesmas condições que desencadearam a tensão. %u201CTemos de nos lembrar que o exercício, por si só, não representa a solução. Ele faz parte de um contexto, de uma rede de atividades, em que a prioridade são os problemas diagnosticados.%u201D Segundo Sérgio Roberto de Lucca, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, a doença mais comum no ambiente de trabalho são os chamados distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). A cada mês, são registrados 9 mil casos novos, de acordo com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). %u201CEm média, esses trabalhadores ficam quatro meses afastados do trabalho, até a recuperação das lesões. E, muitas vezes, retornam em outra atividade ou posto de trabalho%u201D, explica. O afastamento longo interfere, inclusive, nas atividades domésticas e cotidianas, o que pode causar depressão. Carlos trabalhava demais e negligenciava a saúde: depois de um infarto, investe em aulas de tai chi chuan Prevenção Atualmente, um dos grandes problemas é encontrar maneiras de prevenir as doenças relacionadas à vida laboral. Em livro publicado no ano passado, o professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Mário César Ferreira, pós-doutor em qualidade de vida no trabalho, reuniu os principais dados sobre o tema. Ele aponta que, em geral, os serviços prestados com o objetivo de diminuir a tensão do trabalhador funcionam como paliativos. Uma pesquisa coordenada por Ferreira e realizada em cinco órgãos públicos mostrou que os servidores deram nota 6 à qualidade de vida no local onde trabalham. O resultado é positivo, mas está próximo à zona de transição, onde bem-estar e mal-estar coexistem. De acordo com o especialista da UnB, muitos servidores públicos têm problemas relacionados à organização do trabalho %u2014 normas e rotinas mal definidas e controle excessivo %u2014 e à falta de reconhecimento e crescimento profissional. Ele ressalta que os dirigentes têm o dever de investir num ambiente de trabalho saudável, mas que o trabalhador também deve contribuir. %u201CQualidade de vida no trabalho é responsabilidade institucional e tarefa de todos.%u201D Carlos Oití faz a sua parte, tentando passar aos colegas alguns dos ensinamentos do tai chi chuan. Ele afirma que o infarto foi um divisor de águas em sua vida. Começou a praticar exercícios físicos diariamente e melhorou a alimentação. Mais que isso, tomou consciência de que precisava mudar, descobriu os benefícios da arte milenar e teve um incentivo especial, o nascimento dos netos. %u201CTudo é possível se você quiser. A mente é muito mais potente do que imaginamos.%u201D A advogada Jaqueline Godeck, 41 anos, não precisou enfrentar um problema de saúde para perceber a importância de melhorar a qualidade de vida. A morte do pai %u2014 que trabalhava muito, se alimentava mal, tinha diabetes e pressão alta %u2014 a fez buscar maneiras de alcançar o bem-estar físico e mental por meio da Kabbalah. Os kabalistas acreditam em leis espirituais que influenciam diretamente a vida das pessoas. Um dos principais preceitos é o da ação e reação, ou seja, se você faz o bem, receberá o bem, não necessariamente da mesma forma. %u201CSe a minha vida não está do jeito que eu quero, eu preciso mudar. Nunca é em relação ao outro, é sempre a partir do que eu posso mudar em mim%u201D, explica. A advogada une uma rotina de exercícios físicos à meditação e aos ensinamentos da Kabbalah, que ela afirma terem o poder de prevenir doenças, como a depressão. Os deveres da empresa O professor das Faculdades Pedro Leopoldo, Lucio Flávio Renault de Moraes, PHD em psicologia organizacional, explica que, para evitar doenças relacionadas ao trabalho, as corporações podem fazer um diagnóstico dos níveis de qualidade de vida dos funcionários. Consultores da área de comportamento organizacional podem fazer esse trabalho, que envolve várias etapas. É preciso realizar entrevistas e aplicar questionários para encontrar os problemas. Depois disso, será possível conceber um projeto e implementá-lo. O sucesso dependerá também do tipo de tarefa delegada aos funcionários. Elas não podem ser as mesmas, para que o trabalho não perca o significado, e precisam ter início, meio e fim. Além disso, o funcionário tem de ter a oportunidade de utilizar seu potencial criativo e, depois da tarefa concluída, receber o feedback de colegas, chefes e pessoas de fora da empresa. O setor de recursos humanos pode ser o responsável por montar uma equipe de qualidade de vida no trabalho dentro da instituição. No entanto, a empresa precisa perceber a importância de investir na saúde do trabalhador. %u201CAs pesquisas apontam que, em pouco tempo, esse gasto será recompensado, mas, na prática, ainda não é uma realidade nas empresas brasileiras%u201D, relata a professora Josely de Figueiredo Gomes.
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