Fechado para os homens

Encontrá-los em profissões consideradas femininas %u2014 como costura, magistério e enfermagem %u2014 é tarefa difícil. Quem foge à regra diz que não vê diferenciação de gêneros no ambiente de trabalho

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postado em 18/06/2012 08:00 / atualizado em 13/08/2012 18:39

O enfermeiro Manuel rodeado pelas colegas. Em 2010, a participação masculina na área era de 12,7% A participação dos homens em áreas do mercado dominadas por mulheres cresceu pouco nos últimos anos, apesar de o movimento inverso ter ganhado força no Brasil. Profissões como enfermagem, professor de ensino infantil e fundamental, serviços domésticos e costura apresentam aumento pequeno no número de homens que as exercem. Em todas elas, as mulheres representam mais de 80% da força de trabalho. A economista Regina Madalozzo, professora do Instituto de Ensino e Pesquisa Insper, afirma que a procura reduzida se deve ao fato de essas profissões geralmente oferecerem piores condições de trabalho e baixa remuneração. Regina acredita que, mesmo que exista a tendência de os homens procurarem essas ocupações, não é algo que vá durar muito tempo. Em épocas de crise ou quando está difícil encontrar empregos na área em que estão acostumados, os trabalhadores buscam outras atividades. %u201CQuando o mercado está em crise, você aceita a vaga que ele oferece%u201D, aponta. Para fazer com que haja equiparação entre essas profissões, a professora acredita que a melhor saída é valorizá-las. A especialista analisou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de quatro décadas %u2014 os anos 1970, 1980, 1990 e 2000 %u2014 e concluiu que a participação dos homens em profissões consideradas femininas sofreu pouca alteração nesse período. Uma das áreas pesquisadas foi enfermagem, que, em 1978, contava com apenas 13,5% de profissionais homens. Dados de 2010 do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) indicam uma pequena redução nesse número. Do 1,45 milhão de profissionais da área, 12,7% são homens. O enfermeiro Manuel Luiz Rolo, 46 anos, percebe essa tendência desde que se formou, em 1990. Durante o curso, ele chegou a sentir um pouco de resistência por ter escolhido uma profissão mais procurada por mulheres. Mas, depois que começou a trabalhar, não vê mais essa diferenciação. %u201CO que importa é a sua capacidade, é levar a profissão a sério, independentemente se você é homem ou mulher%u201D, avalia. Para Manuel, as únicas variáveis que pesaram na hora de escolher a profissão foram a estabilidade financeira e, por consequência, a possibilidade de manter uma família. Aos poucos, foi percebendo que não ficaria rico, mas tinha boas chances de se firmar no mercado de trabalho. Além disso, descobriu a vocação para lidar com o público. Hoje, trabalha na área de prevenção de um centro de saúde na Asa Norte. %u201CSe há um movimento de entrada dos homens em profissões tradicionalmente femininas, ele ainda é tímido ou pouco perceptível através das estatísticas%u201D, constata a socióloga Maria Rosa Lombardi. Segundo ela, as áreas onde as mulheres costumam representar maioria são educação e saúde, e grande parte desses profissionais atende na rede pública. Além dos baixos salários e de condições de trabalho ruins, a pesquisadora da Fundação Carlos Chagas aponta que muitas das atividades exercidas nesses setores têm perdido prestígio perante a sociedade nas últimas décadas. Esses podem ser alguns dos fatores que afastam os homens de profissões consideradas femininas. Otimismo Para o diretor de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Luiz Edmundo Rosa, é possível que a participação dos homens nessas profissões não tenha apresentado aumento porque sobraram poucas áreas profissionais dominadas por elas. Mas ele é otimista: acredita que está ocorrendo uma convergência entre o papel do homem e da mulher na sociedade. Os reflexos positivos podem ser vistos em casa e no mercado de trabalho. %u201CÀ medida que a mulher conseguiu se libertar, ela também libertou o homem%u201D, acentua. Os homens estão assumindo mais responsabilidades nos lares, e as mulheres, além de entrarem em áreas do mercado antes dominadas por eles, trazem mais naturalidade para o ambiente institucional. %u201CCom a entrada das mulheres no mercado, elas possibilitaram que os ambientes de trabalho se tornassem mais humanos%u201D, diz. Alison Oliveira, 33 anos, é formado em serviço social pela Universidade de Brasília (UnB). Desde o fim da graduação, em 2003, trabalha como assistente social na área de políticas públicas. %u201CLi a proposta do curso, me informei, e vi que a profissão proporcionaria uma inserção em trabalhos na sociedade e que eu poderia contribuir dentro das políticas públicas%u201D, conta. Na época em se formou, a maioria dos alunos do curso era formada por mulheres e apenas a UnB oferecia graduação em serviço social. Hoje, outras faculdades oferecem o curso no Distrito Federal, o que ele acredita ter incentivado a entrada de mais homens na profissão. O vice-presidente do Conselho Regional de Serviço Social (CRESS), Handerson Nunes, afirma que o número de homens que têm registro profissional em serviço social aumentou no DF. Alison é o único homem em seu local de trabalho. Ele é funcionário da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) e diz que o mercado precisa de homens em algumas áreas, como no sistema prisional e no acompanhamento de casos de violência. Eles são exceção Conheça dois exemplos de profissionais brasilienses que exercem atividades em áreas dominadas por mulheres: Alisson Moraes, professor de ética Segundo um levantamento da professora Regina Madalozzo, do Instituto de Ensino e Pesquisa Insper, a participação dos homens no magistério %u2014 de ensino fundamental e médio %u2014 passou de 9,4% para 18,4% entre 1978 e 2007. O professor Alisson Moraes, 25 anos, percebeu, durante a graduação, que a procura do curso de letras por homens era grande, mas confirma que eles ainda eram minoria. Ele dá aula de ética para alunos do 1° ao 4º ano do ensino fundamental. Alisson considera um desafio ensinar crianças. %u201CQuem trabalha com o ensino fundamental 1 consegue trabalhar com qualquer série%u201D, diz. A inspiração e o incentivo vieram de um professor que teve quando era do tamanho dos alunos que ensina agora. Alisson não sente diferença pelo fato de ser homem, mas tenta tomar cuidado com o contato físico e busca manter o diálogo com os pais das crianças também. No ensino infantil, até 5 anos, é ainda mais difícil encontrar homens dando aula. Eles representam apenas 2,8% desses profissionais, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep). Manoel Paes, costureiro No mercado de costura, o número de mulheres também é superior ao de homens. Em 2003, eles eram 11% e, de 2006 a 2010, correspondem a 12,5% dos trabalhadores na área. O levantamento foi feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O costureiro e alfaiate Manoel Paes, 57 anos, trabalha num ateliê de costura no Conjunto Nacional. Ele tem mais de 40 anos de profissão e nunca sentiu preconceito por ser costureiro. %u201CMinha mãe era costureira e, quando os filhos aprendiam a cortar uma ponta de linha, ela os colocava para ajudar na costura%u201D, relata. Apesar de o mercado ser dominado pelas mulheres %u2014 elas são 306 mil e eles 44 mil %u2014, o alfaiate Luiz Leonardo Filho, 68, que trabalha com Manoel, não acredita que haja preconceito com relação a gênero na profissão. Para ele, há discriminação quanto à idade, pois os jovens acreditam que é uma profissão para pessoas mais velhas. De acordo com o levantamento da CNI, o mercado perdeu 7,5 mil mulheres e 427 homens operadores de máquinas industriais em 2010.
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